Sonhos D'ouro/XXXII

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Depois da entrevista de Andaraí, Guida e Ricardo encontraram-se frequentemente na sociedade.

O advogado, cujo escritório rendia para lhe permitir mais que a decência, sem sacrifício de alguma economia, procurava nas salas e reuniões o sossego de espírito que não encontrava em seu gabinete de trabalho, e nos passeios solitários pela calada da noite.

Não via Guida sem emoção; e se não cedia à atração que a gentil menina exercia sobre ele, também não a evitava como anteriormente, quando o acaso os aproximava. Ao contrário, nessas ocasiões, se alguma circunstância não o vinha distrair, ou se a moça não se afastava, ele se esquecia com ela em alguma dessas conversas cintilantes, que lembrava-lhe o seu passeio à Vista dos Chins.

Não se falava porém mais entre eles da matéria sentimental; esse capítulo estava cancelado. Nenhum se animava a folheá-lo.

Como um homem, que tem consciência de sua força, e conta com uma vontade inflexível para sofrear os mais veementes impulsos, Ricardo permitia-se aquele inocente devaneio, que lhe caía nos seios d'alma como orvalho celeste. Não tinha receio de trair-se; e pois bebia o doce cordial como um enfermo, que precisa restaurar as forças.

Sabia retrair-se a tempo, e afastar a taça dos lábios, quando sentia a primeira névoa da ebriedade desse amor impossível, que ele rejeitara, mas que não podia extirpar.

De seu lado Guida, se algumas vezes cedia ao embevecimento dessas conversações, não despia a reserva com que tratava ultimamente a Ricardo: reserva que era não somente o pudor de sua afeição, como o receio de afagar um amor condenado, que devia morrer desconhecido, como tinha vivido.

Assim decorreram três meses.

A notícia do casamento de Bela, que se realizou em poucos dias, produziu nas relações de Guida e Ricardo uma alteração sensível.

A princípio a moça deixou-se influir por um assomo de altivez. Entendeu que não devia aceitar o sacrifício de Bela, por lhe parecer humilhante. Preferia matar seu amor, sufocá-lo no seio, a profaná-lo em um casamento frio, e rejeitado por outra.

Mais tarde, mudou completamente. Não vendo Ricardo, adivinhou que era a dor da perda de Bela que o afastava dela, e teve ciúmes. Outra vez sentiu o impulso generoso de disputar esse nobre coração ao desânimo e à descrença, de povoar com seu imenso amor o deserto daquela alma assolada pela desgraça.

Ricardo porém sucumbira ante a perda irreparável da mulher a quem amara; e só então conheceu a profundeza do golpe que sofrera. Por muito tempo ele pertenceu exclusivamente à mágoa que enlutara sua vida e à saudade do passado amor.

Quando Guida o viu, desfigurado e pálido, respeitou a santidade dessa dor, e aprendeu nela a resignar-se.

A continuação de se tratarem frequentemente, depois de gastas as primeiras expansões da mútua, mas não correspondida afeição, tornou-os ao cabo de algum tempo indiferentes. Encontravam-se já sem emoção, como sem enleio.

No verão passado Guida passou em Petrópolis os dois meses de mais forte calor. O pai deixou-lhe a escolha; ela não quis a Tijuca, de que tanto gostava anteriormente.

Nessa ocasião espalhou-se a notícia de estar justo o casamento de Guida com o Bastos. O Soares interpelado riu-se; e Guida já não respondeu às perguntinhas das amigas com um remoque, segundo o seu costume.

Grande mudança se tinha operado no corretor. O Soares uma vez depois do jantar enfiara-lhe o braço, e lhe dissera brincando:

— Meu caro Bastos, o que seduz as borboletas são as flores e não os frutos. Já tens bastante dinheiro. Trabalha menos, e agrada mais.

— De que modo?

— Vês esta pedrinha? disse o Soares apontando para um seixo reluzente entre a areia do passeio. Foi a correnteza d'água que a poliu; atira-te na corrente dos homens. A massa é boa, por força que há de sair alguma cousa.

Saiu um homem elegante, de bom-senso e inteligência elevada, que, embora não dado a estudos teóricos, pôde desenvolver-se com acerto e superioridade em qualquer assunto.

O Guimarães foi à Europa gastar a herança do pai; e o Nogueira, atordoado com a dissolução inesperada que lhe gorou a candidatura, vai-se consolando na advocacia administrativa da sua dupla derrota, a política e a matrimonial.

Mrs. Trowshy anda muito contente com a esperança de voltar breve à Inglaterra na companhia de Guida, a qual naturalmente logo depois do seu casamento fará uma viagem à Europa.

Fábio casou-se: mora em São Paulo, e tem um projeto de estrada de ferro para Santo Amaro, primitiva colônia alemã, onde se faz boa manteiga fresca, igual à de Petrópolis. Já requereu o privilégio, e conta ganhar uma centena de contos, para vir gozar da corte, de que tem saudades.

O Visconde da Aljuba, consta que anda arranjando um escritor para zurzir o autor deste livro, por tê-lo copiado tão ao vivo; portanto prepare-se o público para ler as rajadas que não tardam a aparecer por aí em estilo de níquel.

Informaram-me também que o Sr. Benício já foi à cocheira do Porto, examinar o mais rico dos cupês de gala, a fim de estar preparado para encomendá-lo apenas se marque o dia do casamento de Guida.

Por seu gosto não seria Bastos o noivo; pois o bom do amanuense não perdeu ainda o teiró que tomara ao corretor pela concorrência ativa que este lhe fazia antigamente no artigo das encomendas. Mas, quando se tratava de obsequiar, não havia sacrifício que fizesse recuar o heroico Sr. Benício.

Assim terminaram estes “sonhos d'ouro”, tão parecidos com outros que a cada instante por aí acendem e se apagam, como os arrebóis da tarde.

   
                                                                                 FIM