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Suspiros poéticos e saudades (1865)/A meu Amigo D. J. G. de Magalhaens

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XXXI.
 
A MEU AMIGO
 
D. J. G. DE MAGALHAENS.
 
   Como é bella a Natura!Póde o parto de um genio em febre intensa   Rivalisar taes scenas?  Ver das aguas a quéda ruidosa  Deslizar entre seixos, formando  De crystal mil festões, que se esmaltam  Da palheta do iris, pintandoRetab’los, onde o toque da mão-mestra Em matiz variado delineiaSuccessivas bellezas, como a idéa,Que outra idéa desperta, vinculandoDas sensações o quadro reanimado;Onde terna saudade em ledo arroubo,  Volteia esperançosaSobre as azas divinas da memoria,Que em seu gremio renova éras passadas;Mysteriosa phenix de nossa alma!   Propercio e Cinthia,   Catullo, Horacio,   Mecenas, tudo   Do antigo LacioPatente sobre as ruinas vejo errarem,Como nuvens de phosphoro ceruleo,Ou vapores n’um lago, matutinos,Ou nas selvas nocturnos pyrilampos.
  E tu, oh linda Zenobia,  Que com teu pranto nutriste  Estas aguas sempiternas,  E solitaria carpiste  Tua corôa, teu sceptro,   Armadas, marmóreos paços,  Vastos templos de Palmyra,  Que Roma fez em pedaços.  Já foste Palladio, e idolo  Do teu povo soberano;  Mas quebrou-te o templo, as áras,  O iconoclasta Romano.  Vem, princeza desgraçada,  Vem solitaria commigo,  Vem chorar a antiga gloria,  Que eu tambem chóro um amigo.
Si ora invoco teus manes neste ensejo,Não turbo as regias cinzas, que humilhadasNo exilio findaram sem moimento.Como tu, solitario a vida gemo,E a passada ventura, que gozáraEntré amicaes amplexos, venturoso.
Mas que voz na soidão remonta aos ares?Celeste Cherubim baixa do céo,E na frauta divina exalta o hymno,Que a terra a Jehová diurna envia. Mas não; alto prodigio se levanta;   Providente Natura.Companheiro me envia; alado vate,   Homero da floresta,Em melodico metro, o estro exalça,Meus suspiros conforta, adoça as magoas.
  Salve, oh vate Rouxinol,  Salve, á luz mysteriosa  Deste archote, que de noite  Faz a terra duvidosa!  Salve, oh Lua alvinitente,  Mãe de amor, do vate amante,  Do silencio grata esposa,  Salve, salve neste instante!
Mas quem turba teu manto de silencio,E a voz levanta em prolongado ronco?   São as do Anio   Tartáreas aguas,   Que sempre vivem   Quaes minhas magoas;   Da historia imagem,    Das estações   Vivo retrato   Seus borbotões;   Qual vida, e morte,   De vaga em vaga,   Se esconde, e surge,   Se accende, e apaga.Assim batem as aguas rugidoras,Que os atomos confundem, dilatandoA contínua torrente, que retrata  Do infinito a imagem!
Onde está o infinito, oh Deos Eterno?Esse marco onde esbarra a mente humana,Que sem tino volteia titubante,E no abysmo do peito se aprofunda,Face a face encontrando a conscieucia?Oh consciencia, ao teu clarão se rasgaO véo das illusões! Elle nos mostraDas paixões o tropheo dentro do túmulo,E ao pé quadro da vida, que demonstraO nada da vaidade, e o desengano  Majestoso sentado Na cadeira da escola da verdade,D’onde colhe a virtude os seus dictames!
Pallida Lua, teus suaves raios,Que placidos se esbatem nas campinas,E as fugitivas ondas argenteiam,Da consciencia nossa a imagem pintam,Que falla ao coração com tal potencia,Sem nos labios volver um som de phrase.
Mysterioso accento, alta harmoniaDesenvolve a Natura em seus concertos.Emquanto a voz unisona do Anio,Que em equoreos cylindros vai rolando,   E entre seixos ribomba,De medonho fragor o ar pejando;Canoro rouxinol preludio exalta,E sublime se acorda ao som horrivel,Que as aguas tangem em continuos vorticesEntre o limo, e as areias das cavernas,Variando as estrophes; lá prolongaSuavissimo gorgeio, que se perdeEm ventrilocos echos; quaes soluços De enamorada virgem, que receiaDo coração trahir ternos affectos.
Volve a paz, o silencio, ronca a onda   Em perpetuo murmurio;Da fadiga repousa alado vate,E inspirada canção alto redobra.
Mais sublime retoma o retornello,Em agudos sibilos elevando-seQuebra a voz; vem morrendo suspiroso;Doce, e doce remonta, enche o espaço;Majestoso se espraia, floreando;Qual rojão que remonta alêm das nuvens,E no ar arrebenta um firmamentoDe ephemeras estrellas luminosas.
Volve a paz, o silencio, ronca a onda   Em perpetuo murmurio;Da fadiga repousa alado vate,E inspirada canção alto redobra.
Melancolico entôa em nova escalaAmorosa canção, que amor inspira Té que alfim pipitando se arrebata,Entrecorta o trinado, e pouco a poucoEm fluente florido se evapora.
Volve a paz, o silencio, ronca a onda   Em perpetuo murmurio;Da fadiga repousa alado vate,E inspirada canção alto redobra.
Mesclado effeito de sublimes notas,Ora forte, ora lento vai soltando;Finge o pranto, sorri-se, e desenvolveInsolita harmonia, que assimilhaBatalhões com clarins, rufos, e timbalos;Emmaranha um confuso regorgeio,Que se perde n’um som prolongadissimo.
   Triumphante cala a cithara,   Disparece qual relampo;   Ronca a onda sempre a mesma,   E o silencio toma o campo.
Oh Rossini das aves, tu que buscas   A soidão, e o silencio, Para teu canto ornar sem o marulhoDa vigilia do dia; e como um genio,Que no leito desdobra mil prodigiosAo cançado mortal em grato sonho,   Nesta hora me recordasAo coração lanhado imagens ternas,Tão tristes, que ante mim se desenrolam   Qual penacho de fumoDe apagado brandão junto ao esquife,Que um cadaver de virge’ avaro occulta.
Oh Rossini das aves, que linguagemTeu discurso soltou? Não é da terra.   Ah! cantas porventuraOs fastosos annaes, a decadencia,Os triumphos, e a quéda dos Romanos?A saudade, as delicias da amizade,Ou a historia amorosa de uma victima?
Marmoreos atrios, aureos peristílos,Conquistas dessa industria, que assoberbaA terra, o mar, os montes, e os abysmos,Tudo o tempo desfez co’ a mão dos seculos.    Sibyllinas paráphrases   De mysticos oraculos,Que o futuro previam, não previram   Essa mãe de desastres   Cimitarra de Totila,Que a Palestra, o Nymphêo, a Academia,E mais d’ arte primores derrocáraNesse mundo do bello, que AdrianoCollocára engenhoso sobre a encostaDas ridentes collinas, que te adornam,   Oh decantada Tibur!Qual tumulo sagrado, o viajanteVem teu solo beijar, e espavoridoDesses restos augustos que te cobrem,Vai na patria narrar taes maravilhas,Maldizendo a ignorancia, e Caracalla.
Esta, outr’ora suberba, aurea cidadeMinha imagem retrata em quadro iconico!Onde está teu Lycêo, onde o teu Foro?Os teus templos, e muros formidaveis?Que sepulchro encerrou os Paladinos?
Eleva, eleva moles gigantescas,Pelo genio das artes inventadas,Oh vaidoso mortal! marca teus fastosCom marmoreos padrões; que o dia chegaEm que, a um leve aceno do destino,Com teus paços irás dormir na terra.Novos combros de areia gera um vento,Que outro vento derruba, nivelando-os.
   Muros reticulares   De calcinada argilla,Que arrendadas abóbadas sustentam,De grinaldas de amoras adornados,Em vão querem mostrar primeva pompa.Onde outr’ora tangeô Horacio a lyra,E Tibullo chorou ternos amores,   Mortaes serpes se enroscam,Aguardando findar pastor incauto,Que a fadiga do sol chama ao repouso.
   Sobre o alto das collinas,   Que em torno ao Anio vecejam,   Vis choupanas, restos sacros,   Inda gloria mal lampejam.
   Teus acanthos de Corintho,   E o teu luxo oriental,   Jazem na terra, e aos insectos   Servem hoje de pousal.
   Mas, oh Deos, si a vista volvo   Ao Catilo, e ás suas aguas,   Lá no templo da Sibylla   Vão findar as minhas magoas.
   Supina Tibur, espraia   No horizonte larga vista,   Vê como geme na terra   A Rainha da conquista.
   Como tu, mudei de aspecto;   Já me viste rico, ufano,   Quando juncto ao meu amigo   Te saudei lá do Lucano.
Onde vás, Peregrino estudioso?Em que albergue feliz pédes pousada?Acaso sobre um tumulo deserto    Entre rotos soffitos,Na cithara brasilia merencorioTeus suspiros a Deos grato sublimas?E baixando ao amigo, tambem sentes   No adyto do peito,Como elle, trespassar-te agra saudade,Que fere o coração, e illude a mente?   Si a mansão de Petrarca,Nas Collinas Euganeas, visitares,No marmoreo portal grava estas linhas:    „Se juncto, ou longe    „Da Laura diva    „A lyra altiva    „Tangeste sempre:    „Qual tu, o amigo    „Saudoso agora,    „De mim se lembra.    „E por mim chora.“

Tivoli, Maio de 1835.

 


ARAUJO PORTO-ALEGRE.