Suspiros poéticos e saudades (1865)/As Saudades/A minha familia
Aparência
III.
A MINHA FAMILIA.
Choram por mim… Por mim a mãe queridaEm soluços — adeos — nem dizer póde…Debalde balbucia; os labios tremem, E a dôr a voz lhe embarga… Banhado tem o rostoDe crystallino pranto, e côr de sangue Os olhos já cançados.
Lá vejo o caro pai sisudo e grave,A quem annos as faces enrugaram, E a fronte encaneceram;A mão ao filho estende, e a bençam lança:„Bôa viagem, diz, bôa viagem; Deos te guie, e te traga Na sua sancta guarda,Sempre digno de mim, da Patria digno.“
Memorandas palavras!Palavras de meu pai… n’alma do filhoAusente, eternas ficarão gravadas.
Ternos irmãos — adeos — me estão dizendo Com tão funebre accento,Como si eu condemnado á morte fosse.Um por um os abraço, e adeos lhes digo.Quero partir,… forcejo; os olhos cerro…Porêm a dôr, que o coração me preme,Forças me tira, e me fraqueia os passos; Em borbotões rebentamLagrimas que enxugar em vão pretendo.
Que mão gelada é esta, que me embebeDuro alfange no intimo do peito?Que mão desapiedada me retalha O coração magoado?Mão da saudade, és tu, eu te conheço.
Oh momento da ausencia, como és agro!Mais agro me não foi aquelle dia Em que, co’ a morte ao lado,Quasi cahí do leito á sepultura.
Já brilhava a meus olhos moribundos A luz de bento círio,Que ante um sagrado Crucifixo ardia.Chorava minha mãe, e seus cabellosSobre meu frio peito debruçavam-se.Collocado entre o mundo e a Eternidade,Meu ser se dividia, e ingente pesoO afflicto coração me comprimia,Como si ferreos braços me cerrassem.Ah! porque inteiro conservou-se o estameEm lucta tão cruel? É qu’eu deviaSoffrer mais este golpe, e da existenciaNão estava inda o circulo completo;Assás não tinha o mundo conhecido; Conhecel-o devia.
Neste instante que a dôr absorve todo,Não me vigoram de um porvir brilhante Lisonjeiras lembranças,Sonhos fallaces, esperanças loucas,Que embriagam a mente do acordado.
Quizera aqui morrer; quizera nuncaEstranhas terras visitar, que outr’ora Eu tanto cobiçára,Antes que os pais deixar, irmãos e patria,
Mas uma estrella guia A seu destino o homem.Quem de Deos penetrar póde os arcanos?Quem do Eterno á vontade oppor-se póde?Cumpra-se a minha estrella… E nós choremos,Que n’um valle de lagrimas estamos.Chorando nossas mães vida nos deram,Chorando á luz nascemos, e mil vezesEsta vida choramos, e na morteUma lagrima ainda se desliza Dos revirados olhos: Das lagrimas a fonte só se estanca,Quando da vida apaga-se a centelha.
Pais, irmãos me rodeam.Onde estão os amigos? Um ao menosNão me vem abraçar neste momento?Um só não terei eu, que me acompanhe Até á triste praia,E o osculo da amizade ahi me imprima Na hora da partida? Eu vos conheço, amigos!Comvosco fique a paz, fique a alegria, Venha o pezar commigo.
Caro pai, bôa mãe, irmãos queridos,Meu ultimo suspiro vosso seja… Adeos… adeos; eu parto.
- Rio de Janeiro, 3 de julho 1833.