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Suspiros poéticos e saudades (1865)/As Saudades/No Album da Exma Senhora D. Joanna Marques Lisbôa

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XI.
 
NO ALBUM
 
DA ILLUSTRISSIMA E EXCELLENTISSIMA SENHORA
 
D. JOANNA MARQUES LISBOA.
 
Um mundo occulto, mais real, mais belloQue o mundo exterior, nossa alma encerra.Ahi a phantasia, habil pintora,Ora mil quadros reproduz da terra,Ora de outros mil quadros criadora,    Quadros de alma doçura,Instantes nos outorga de ventura.
Oh phantasia, oh unico refugio   Do misero proscripto!Tu, para consolar o peito afflicto,Os passados prazeres nos retratas;As pandas azas das prisões desatas,E pelos patrios ares deslizando,Que sublimes visões nos vais pintando!
Oh! si é bello, assentado á sombra amiga   Do patrio cajueiro   De fructos esmaltado,Onde o saudoso sabiá se abriga,Onde pousa o colibre, e o gaturamo;Si é doce ouvir ternissimo reclamo   Do lindo coro alado,   Da aurora pregoeiro,Que á celeste mansão nossa alma eleva;   Quanto é mais doce, ausente,Á parca sombra do álamo estrangeiro,Ouvindo o rouxinol cantar amores,    Da Patria então lembrar-se,   Lembrar-se de um parente,De um amigo da infancia, de um remanso,Onde, fruindo o aroma de mil flores,Ao som estrepitoso da corrente,Tantas vezes achámos o descanço   Ás infantis fadigas!
Oh! como é grato então a alma engolfar-se   Nas scenas do passado!Tudo vem ante nós apresentar-se   Nesse querido instante!Nossa alma, entre mil scenas delirante,Ouve a voz da saudade que murmura;   A saudade, a saudade,Esse triste prazer que não se explica,Agro prazer de um coração magoado,   Prazer que se misturaCom dôr, com afflicção, saudosa augustiaQue nos punge, nos róe, nos vivifica.Assim nestas estranhas, longes plagas   Se nos antolha a Patria!
  E por ella em cada hinverno  De contínuo suspiramos,  E mesmo na primavera  Inda d’ella nos lembramos.
  Cada quadro nos desperta  A cadeia interrompida  De gratas reminiscencias  Da nossa passada vida.
   Assim, assim um dia,   Já sob o céo Brasilio,Como um sonho, da Europa a bella imagemResurgindo na nossa phantasia,Despertará saudades deste exilio.
Então entre mil scenas divagando,Do passado as idéas refrescando,Ante nós se erguerá tambem Bruxellas,Seus parques, seus jardins, e as torres bellasDos seus templos, e gothicos palacios.
Então, talvez então, vendo este livro,Que quadros vos recorda tão diversos, Vos lembrareis do errante, joven vate,Que estes versos traçou, saudosos versos.
  Os gratos dias,  Que aqui gozei,  Ante minha alma  Sempre os terei.
  Os innocentes,  Gratos penhores,  Anjos da terra  Encantadores,  Que tantas vezes  Eu afagava,  E em grato enlevo,  Os abraçava;  Esta harmonia  Do par ditoso;  Em vós belleza,  Amor no esposo;  Candura em todos,  Terna bondade,  Dotes sublimes   Da Divindade,  Jamais minha alma  Olvidará,  E de vós sempre  Se lembrará
Bruxellas, 21 de Junho 1836.