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Suspiros poéticos e saudades (1865)/As Saudades/O Genio e a Musica

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X.
 
O GENIO E A MUSICA.
 
À SENHORA GATALANI.
 
Sim, é certo; a Natura não se esgota;Mas providente de seu seio tiraUm a um esses Genios, que benigna   Co’ os seculos reparte;Assim, sem fatigar, encomios cobra,E co’ a força do magico artificioOs homens doma, os encadeia, e guia.
Dos Genios a importancia se conheceQuando, enchendo a missão, desapparecem. Si os ríos as campinas fertilizam,   Os lavradores folgam;Mas extinctas as fontes d’alma veia,   Attenuam-se os campos,E a Natureza em torno empallidece;Aos pedregosos, descobertos leitos,O homem chega, e d’agua uma só gotta,Para a sêde aplacar, não acha, e chóra;Mas lagrimas a sêde não saciam!Então do bem se lembra que gozára,   Do bem que já não goza.
Quem não respeita o Genio? Quem não senteBater-lhe o coração inopinado,Quando escuta os angelicos accentos   Do ser mysterioso,   Que a Natureza inspira?
Na culta Grecia, na guerreira RomaEndeosada a Harmonia cultos teve:Entre barbaros povos, Gallos, Francos,Celtas, Bretões a musica divinaOs cruentos costumes adoçava. Nos Brasilios sertões, duros Tamoyos,Intrepidos Caités ao som se curvam   Da harmonia selvagem:Como divinos, de Tupan[1] mimosos,   Seus musicos respeitam.   A illuminada EuropaNão desdenha entoar sagrados psalmosNo Templo do Senhor; atado ao remoO pescador ao som das vagas canta;Canta o proscripto sobre estranhas plagas,E o peregrino em solitarias selvas.O canto maternal o infante acalma,E a colera dos homens se desarma,Quando escuta suave melodia.
   Eis em campo o guerreiro;Como brioso marcha, quando trôa   A bellica trombeta!Patrioticos hymnos entoando,Sente crescer-lhe o coração no peito.Entre selvas de lanças, e de espadas,Coberto co’ uma abóbada de fumo. A través de pelouros sibilantes,   Assoberbando a morte,   Vai nos braços da gloriaArvorar os pendões victoriosos!   Na guerra hymnos guerreiros,   Na paz canções de amores!Tanto, oh musica, pódes sobre os homens,   Que em toda parte imperas!
Sim, que os Anjos, os céos, o sol, os mares,Os valles, as montanhas, as florestas,   Aves, brutos, e homens,E essas centenas de milhões de mundos,Que cadentes vagueiam no infinito,É um systema harmonico, perpétuo,Em gloria do Supremo Ser dos seres!
Rara mulher, tu viste humildes servosDeporem a teus pés dons preciosos,Que os Reis, e os potentados te enviavam.Tu viste os proprios Reis, e seus valídos,E d’elles homenagem recebeste.Viste os povos da Europa arrebatados Aqui e alli ao som de teus acordos,Que embebian nos seios d’alma o encanto.Viste, sim viste innúmeras corôasLançadas a teus pés; e proseguiasUfana a deslizar as sibyllinas   Dulcísonas cadencias.   Eis do Genio o triumpho!Gloria ao Genio se dê, perenne, eterna!
Sobre um leito de rosas, e de louros,Hoje repousas, não no esquecimento,   Mas no arroubo da gloria:Como o guerreiro que na paz desfructa,Vendo os despojos dos vencidos povos,Grata consolação que a alma embriaga.
Tudo o que te rodeia manifesta   Teu immortal renome.Altares te ergueria a prisca Grecia,Si a prisca Grecia te emballasse o berço.Da propria filha tua a voz canora,Voz que tão alto sóbe, e já prometteOutro novo milagre de harmonia,    Tambem te louva, e exalta;Que si o nome dos pais herdam os filhos,A gloria filial os pais sublima.
Ah! não desdenhes receber louvoresDo peregrino incognito, que passa   Por estrangeiras plagasSem arruîdo, como o mudo sôproDas matutinas, solitarias auras.
Mil vezes proferir ouvî teu nomeNo novo, e velho mundo, e jamais pude   Augurar-me a venturaDe te ver, de te ouvir, e mais ainda,De receber de ti signaes de estima.
Longe da Patria o viajor saudosoBem raras vezes o prazer encontra.De cidade em cidade andado tenho;Reinos atravessei, cantões, e villas;Vinguei gelados Alpes, e Apeninos;Valles descî sombrios, subî torres,Sempre co’a Patria minha na lembrança;Como a andorinha que de tecto em tecto Salta, sem que se esqueça de seu ninho.Tudo da Patria a idéa me revive,   Mas nada me consola;Em parte alguma não achei aindaUm coração de pai, de mãe, de amigo,Que vendo-me partir, pezar sentisse,E ao menos me dicesse: — Deos te guie.
Sublime Catalani, tu me honraste!Talvez unica sejas, que te lembres   Do peregrino errante,Quando elle, já na Patria rodeadoDos velhos pais, de irmãos, e dos amigos,Refrescando a memoria das viagens,   Entre, os que vîo, prodigios,Cheio de commoção, citar teu nome,E dicer: eu a vi; fallei com ella!
Pago ao Genio um tributo merecido,   Que a gratidão me inspira;Fraco tributo, mas nascido d’alma.
Florença, 30 de Novembro 1834.
 
 
  1. Tupan, o deos dos selvagens do Brasil.