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Suspiros poéticos e saudades (1865)/O Christianismo: Na Cathedral de Milão

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V.
 
O CHRISTIANISMO.
 

 
NA CATHEDRAL DE MILÃO.
 
Mal que á Natura se abre a intelligencia,E o primo pensamento a alma desperta,Logo a idéa de Deos d’ella se apossa,E a origem sua, e o seu destino aclara.
Subito um fogo, mais que o sol brilhanteQue as gerações dos tropicos abrasa,Mais vehemente que os vulcões da terra,N’ alma se ateia, fogo inexhaurivel, Casto fogo de amor, que interno a lavra,E a Deos a sóbe em espontaneo culto.
Não, o medo não foi quem sobre a terraOs joelhos dobrou do homem primeiro,E as mãos aos céos erguêo-lhe! Não, o medoNão foi o criador da Divindade!Foi o espanto, o amor, a consciencia,E a sublime effusão d’ alma, e sentidos!Vio o homem seu Deos por toda parte,E sua alma exaltou-se de alegria.
Mas no amoroso extasis não pára,A interna adoração só lhe não basta,Não se farta de amor, que amor sagradoÉ invencivel, poderosa força,Que o espirito levanta ao infinito,Como a attracção os orbes equilibraNa immensidade, á que escapar não podem.Deve o espaço conter a sacra imagemDe sua adoração, devem os filhos,Os netos devem nas futuras éras,Vendo essa imagem, adorar o Eterno.
Mas, oh homem, que ousado intento é esse?Erguer um templo a Deos!… Que! porventuraTemplo o espaço não é digno do Eterno?As montanhas, o mar, os céos, os astrosAssás não ornam do Senhor o templo?Ou temes que em tão vasto sanctuario,Nesse profundo abysmo do infinito,Vel-o teus olhos míopes não possam?Como possivel é que espaço estreitoAbranja o Criador, que enche o Universo?Mas pagas um tributo; — Elle to aceita.
Obreiro do Senhor, eia, trabalha,Sem descanço trabalha dia, e noite;Que teu Deos não repousa um só instante,Para a ordem manter de tantos mundos.Ah, si elle um só minuto repousasse,Que seria de ti, deste Universo?
Alfim teu templo ergueste; reunisteTudo o que ha de mais bello sobre a terra,E sec’los no trabalho se passaram!Tudo aqui falla, tudo aqui revela A força occulta que sustenta o homem,E o destino immortal na Eternidade.
A rigidez do marmor, e a brancura,Duração, e pureza symbolisam;A larga base, a altura, a esbelta fórma,A agulha, cuja ponta as nuvens rompe,E parece querer fugir do espaço;A aurea Virgem, que brilha em seu fastigio,E este povo de estatuas, que a rodeiam,Todas de branco marmore polido,Que a gloria do Senhor perenne cantam;Tudo, emfim tudo sem cessar proclama,Que o pensamento que tão alto vôa,Que o pensamento que taes obras cria,Que o pensamento que só Deos concebe,Tem no tempo a existencia, e não se curvaÁ lei que rege o habitador do espaço.Tão simples como Deos, donde elle emana,Não se aniquila como bruta mole;Mas em louvor sem fim, a Deos unido,Vive eternal em toda a Eternidade.
Assim é que o espirito celeste,Que a massa humana anima, e n’ella impera,De seu Deos concebendo a idéa pura,Da terra se desprende, se sublima,E do sagrado amor nas igneas azasSóbe ao seio do Eterno, que o gerára.
Assim é que das lampadas do temploPyramides de fogo se levantam,E se perdem nos ares, qual se perdeO pensamento humano no infinito.
Sancta Religião, sublime, augusta,Tu a idéa de Deos esclareceste,Idéa que, nas trevas que involviamA alma humana, brilhou como um relampo.Divina inspiração, tu só podiasO espirito subir ao seu Principio,A despeito do mundo, e dos sentidosNem sempre verdadeiros. Tu revelasSacras verdades aos humanos uteis,Que fóra de teu gremio embalde o homemOrgulhoso procura; ao desgraçado Occulta mão estendes caridosa:Sempre consoladora, affavel sempre,Que mal ha-hi, que em ti cura não ache?
Ao som de tua voz mysteriosaOs errantes selvagens suspenderamAs mãos de sangue tintas, e prostradosSobre a terra, até-li inculta e brava,A insólita voz tua repetiramEm espontaneo arroubo. — A NaturezaRio-se então, quando vio pela vez primaUm homem abraçar o outro homem,E em soccorro commum viver jurarem.
Quiz o homem tecer os teus louvores,E a primeira palavra foi um hymno,O primeiro discurso poesia.E o homem, que até-li solto vagava,Fraco, impotente entre animaes ferozes,Pelo mystico cantico attrahido,A bronca penedía abandonando,A viver começou em sociedade.
O genio então nascêo! — Qual para o mundoEntre os astros o sol mais claro brilha,E aos outros astros sua luz envia,Deos o genio accendêo entre mil almas,Para ser o fanal da Humanidade.
Sancta Religião, amor divino,Que beneficios sobre a terra espalhas!Quanto é mysterioso o Ser que inflammas!De quanto elle é capaz!… Vejo donzellas,Roboradas por ti, vencer a morte!Vejo feros tyrannos desthronados,Vejo Nações erguidas, e cidades,Seus louros a teus pés heróes depôrem,As Sciencias, e as Artes florecentes,Firme a Moral, as Leis, a Liberdade,E a Humanidade inteira que te abraça,E te proclama como Mãe de tudo.
Oh das Religiões a mais perfeita,Oh unica de Deos, e do homem digna!Religião plantada no Calvario,E co’ o sangue de Christo alimentada!
Religião de amor, de paz, de vida!Tu, que civilisaste a Europa toda,E primeira na America lançasteO germen da grandeza, á que ella aspira;Tu, que marcas de Deos a majestade,Os direitos do homem sobre a terra,E o seu porvir sublime alêm da morte;Tu, que aclaras os povos, e co’ os povosDe progresso em progresso ovante marchas,Como a mãe que acompanha o caro filho,Sem que a tua divina essencia percas;Teus ineffaveis dons benigna espalhaSobre os filhos dos homens, sempre… sempre.
Religião, inflamma, e purificaMeus pensamentos, e conforto prestaAo infeliz peregrino que te invoca,E que só em teu gremio paz encontra.

Milão, 17 de oitubro 1834.