Suspiros poéticos e saudades (1865)/Uma Noite no Coliseu
Aparência
XXVII.
UMA NOITE NO COLISEO.
A MEU AMIGO FRANCISCO DE SALES TORRES-HOMEM.
É sublime o espectaculo que offrecemDa prisca Roma os pallidos destroços,Quando da noite a placida lanternaBranquejando na abóbada cinzenta,Seu funebre clarão, como alvas flores,Entre elles vagamente enfiia, estende.Tudo é confuso então, tudo é mysterio,Tudo infunde pavor, melancolia! Dos sonhos na mansão julga-se a mente,De escarpados rochedos rodeiado,De sombras, de phantasmas, que vagueiam,Que n’um arco se escondem, n’outro surgem.
Os fanaes que no campo amarellejam,Circulados de auréolas moribundas,A lembrança despertam desses fogos,Que ás vezes os cadaveres exhalamDe noite, das recem-abertas campas.
Que profundos, terriveis pensamentosA uma alma pensativa não inspiramEstas reliquias da grandeza antigaDa augusta mãe de heroes, que agora vemosComo n’um cimiterio esparsos ossosAo tempo branquejando. Aqui o homemEstrangeiro não é; elle conheceEstas ruínas, e com ellas fallaUma mystica lingua, que alma entende.
Mas ah! inda esta terra hoje é manchadaCom sangue humano! Ind’ hoje estas columnas Dos derrocados templos de impios deoses,Occultam os punhaes de impios Romanos.Nem no reino da morte ha segurança!Por toda parte o crime o homem segue!
Não passeiam aqui brancos phantasmasEntre os sombrios arcos; nem as grutasDo palacio dos Cesares somenteAo mocho gemedor asylo prestam.Não, não; são assassinos que profanamDeste precinto o lugubre silencio,Tão propicio aos philosophos, e aos vates.
Á sombra das ruínas solitariasOh, que nefandos crimes vis sicarios,Da Humanidade opprobrio, não perpetram,Sem temor de seu Deos, e da justiça!Como que calejada a consciencia,Cançada de gritar, os abandona.
Como de nós tão perto a morte vimos,Neste mesmo logar; onde assentadosOuvímos soluçar ave agoureira; Que no templo de Venus acoutada,Suffocados gemidos arrancavaDo intimo do peito; como um homem,Que nas vascas da morte, em vão luctando,Sem esperança já, soccorro implora.
Oh severa sciencia, tu condemnasEstes, da nossa infancia, preconceitos.Mas quem póde negar que ruíns desditasPresagiadas são milhões de vezes?Si a negra borboleta que esvoaçaEm torno do casal, e n’elle pousa:Si o tetrico carpir de ave nocturna;Si d’alma o repentino abatimento;Certas palpitações inopinadas;Os sonhos, as visões, nada annunciam;Si é falsa crença de alma allucinada,Que á infancia, e á velhice o medo incute;Ao menos na do homem propria essencia,Mysteriosa essencia, apoio encontra;Que a Razão, do céo filha, não tão facilSe eclipsa pela opaca sombra do erro.Não se oppõe á Razão a crença nossa, Que nem sempre á Razão o céo concedeA mina profundar inescrutavel,Onde de effeitos mil se occulta a causa.Que mysterio é maior que o germen do homem?Que mysterio é maior que a vida sua?Que mysterio é maior que a sua morte?Oh mysterios sublimes! — D’onde, oh homem,A evidencia te veio, que este mundo,Que fóra de ti vês, real exista?Na terra para mim tudo é mysterio,Eu, o que sei, e tudo quando ignoro.
Dia aziago foi todo este dia,Desde o surgir do sol, té seu occaso.O coração pejado de tristezaProcura a solidão, ama o mysterio.
Bella era a noite, mais que o dia bella!Alvinilente a lua rutilava,Como um rosto de virgem pudibunda,Que em seu jardim passeia solitaria.Ao Capitolio fui, e foi commigoO Amigo fiel; junctos passámos De Tito o arco, e ao pé do PalatinoDe um mocho ouvimos horridos gemidos.Que os ares magoavam, resoandoDo Colisêo nos longos corredores.Um pouco repousámos sobre o muroDo cesareo palacio esboroado.O mocho carpidor gemêo tres vezes;Os nossos corações se apavoraram,E ambos involuntarios suspirámos;Tristes versos, que a mente alli dictou-nos,Com luctuosas vozes repetimos.De pois de meditar sobre os presagios,Marchámos para o Flavio amphitheatro.
Co’um archote na mão, de estancia em estancia,Cobertos de compridas, brancas vestes,Como phantasmas gravemente andando,Mais e mais o horror desses recessosDest’arte nossos vultos augmentavam.Oh! quem póde narrar scenas tão funebres?Do archote a luz o tecto avermelhava,Co’a fria luz da lua contrastando;Cinéreo fumo, deslizando em ondas, Fugitivos duendes simulavam;E para mais pavor, do fundo peito.Deixavamos saír longos suspiros,Que em toda a galeria reboavam.
Cançados de gozar de mil maneirasEssas scenas sublimes, regressámosPara o nosso aposento, atrás deixandoO arco triumphal de Constantino.Tudo estava em silencio, immovel tudo;Só resoava o som dos nossos passos,E ante nós nossa sombra caminhava.
Eis que chegando ao sitio onde sentadosAve sinistra soluçar ouvímos,Tres, de punhaes armados, negros vultos,Como da terra erguidos, nos investem!..Qual nosso susto foi! Nos feros rostos,Nos scintillantes olhos desses monstrosDe suas almas vís o intento lêmos.Nas laminas luzentes co’ os reflexosDo claro astro da noite, e que apontadasSobre os peitos estavam, nossa morte Com côr sanguinea viamos pintada.Só pelo Amigo cada qual temia.E qual foi, oh minha alma, nesse ensejoO pensamento teu?… A Patria! A Patria!Não mais vel-a: — morrer tão longe d’ella;Sem por ella ter feito um sacrificio!Distante de meus pais… Oh Providencia!Ouviste o coração que te invocava,E tu salvaste o Amigo, e me salvasteDas cruas garras dos sedentos tigres.Mais que o aureo metal é cara a vida;Para louvar a Deos vivos estamos.
Roma, 11 de Abril de 1835.