Til/I/X

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Til por José de Alencar
Primeiro Volume, Capítulo X: Os gêmeos

Deixando a mãe, separaram-se os dous irmãos para se encontrarem no pátio interior, donde também havia passagem para as jeiras da fazenda.

Linda fora tomar a capelina de fustão branco, e Afonso o boné e bastão de passeio. Assim preparados, puseram-se a caminho par a par, garrulando como um casal de coleiros que deixam a asa materna para folgarem pela grama ensaiando os primeiros voos.

— Que fingido é você, mano! dizia Linda. Quando eu lhe perguntei se vinha passear, respondeu-me “se quiser” e estava morrendo!

— Com pena de uma certa pessoa, que não fazia senão olhar lá para a figueira.

— Que história! disse Linda corando.

— Eu respondi “se quiser” mesmo de propósito; para ver sua tenção. Você não disse ontem que sou eu quem vai todos os dias para aquele lado?

— E é, sim.

— Deveras! sustente outra vez, e verá se não volto.

— Não, meu maninho do coração, não se zangue. Eu prometi a Berta que hoje havia de ir sem falta. Ela está nos esperando. Vamos; sim?

— Primeiro há de pôr as mãos e dizer comigo: — “Meu Afonsinho...”

A menina repetiu.

— “Do meu coração...”

— Do meu coração.

— “Eu lhe peço e rogo... que me leve... onde está...”

— Onde está Berta! disse rapidamente a menina que ia repetindo a palavra do irmão.

— “Onde está...” insistiu o rapaz uma e duas vezes.

Afinal Linda cedeu:

— Onde está...

— “Meu benzinho!” concluiu o rapaz.

Banhou-se a menina em ondas de púrpura.

— Ah! mano! disse Linda com um melodioso queixume.

— Assim é que se ensina uma sonsinha! replicou o moço a rir.

— Você me paga! tornou a irmã com um pequeno assomo de revolta. Tenho certo segredo para contar a Berta...

— Segredo de mulher! galhofou o irmão.

— Vou dizer-lhe que não se importe com gente ingrata; e como só eu é que me lembro dela, não tome o trabalho de vir cá para ver-me, porque eu não tenho mais com quem passear.

— Você é capaz?

— Sou.

— Uma aposta?

— Não quero; você logra-me sempre.

— Também eu tenho uma cousa para dizer.

— A quem?

— Não sabe? Faça-se desentendida. A Miguel.

— O que é?

— Que uma certa pessoinha, a qual eu não descobrirei... que essa pessoinha me pediu para... para dar um... a ele já se sabe... um...

— Mano! Não gosto destas graças!

— Um beliscão, menina!

— Você ia dizer outra cousa.

— Ou é você que queria ouvir outra cousa?

— Está bom; me deixe.

Desta vez agastada, Linda afastou-se, voltando as costas ao irmão.

Acompanhou-lhe Afonso o movimento com um ar galhofeiro; e aproximando-se devagarinho, nas pontas dos pés, enlaçou de repente em um abraço o corpo gentil da moça.

— Ai da pombinha! Como está tão jururu! Quem foi que arrepiou sua pena, minha rola? Prrru!... Prrru...! Coitadinha! Deixe ver o biquinho!

Estas palavras eram o mote das carícias que fazia o Afonso à irmã, alisando-lhe os cabelos castanhos que a brisa espalhara, amaciando-lhe a mimosa cútis da face, e por fim puxando-lhe o botão de rosa dos lábios, que faziam um delicioso biquinho vermelho, apinhados como estavam com o gracioso amuo.

Não se podia com efeito achar mais justa imagem da formosa menina, do que essa que espontaneamente acudira ao espírito poético do rapaz. Naquele momento com a fronte reclinada, as espáduas ligeiramente curvas, pelo recato, as mãos recolhidas ao seio, parecia-se com a juruti quando arrufa a doce e macia penugem.

À medida porém que a envolvia a carícia do irmão, ia ela outra vez acetinando-se; o talhe delicado esbeltava-se ao natural; as longas pálpebras franjadas erguiam-se desvendando os grandes olhos pardos cheios de uma ternura ebriante; e finalmente o botão de rosa da boca gentil enflorava-se com sorriso encantador, que derramava sobre o formoso semblante da menina uma luz de leite.

Só não sabe o que isto é, quem não admirou a espécie de cútis mais delicada, tez suave de bonina bebendo os orvalhos da manhã.

Tinha a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era tristeza, pois coavam-se através os inefáveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, que lhe aveludava a graça, e influía-lhe um mavioso enlevo. Irmã das flores que vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha.

Não se admira a mulher que a possui, porque não exerce a fascinação esplêndida das formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque ela tem a santidade do amor.

Afonso era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos tinham nascido. Mas nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro, e nas cascatas do riso cordial e folgazão.

Era tal a parecença dos dous irmãos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrou-se de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã, e tomando uns ares hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume. A moça, cuidando ver a amiga, correu a abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, que lhe foram pontualmente retribuídos.

Foi depois de ter a seu gosto recebido as carícias da moça, e comido-lhe a beijos o saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando a capelina da irmã, apresentou a sua cabeça de rapaz, desornada da basta madeixa, que ondulava pelas espáduas de Linda, quando ela a trazia solta no passeio da manhã.

Descobrindo o engano, Berta não se agastou e riu-se gostosamente com o rapaz, da peça que lhe pregara ele; mas desde aí, não beijou mais a Linda sem primeiro olhar-lhe o rosto e os cabelos, para certificar-se que era ela mesma, e não o brejeiro do Afonso.

Depois, tornou-se impossível a confusão, porque não só o talhe do moço hasteou-se com a têmpera viril, como o fino buço começou a ensombrar-lhe o lábio superior e as faces.