Til/I/XIV

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Til por José de Alencar
Primeiro Volume, Capítulo XIV: A vespa

Onde sumira-se Berta, que não a descobria Miguel já cansado e aborrecido de a procurar por quanta moita e sebe ali havia?

Ouvindo Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propósito da viagem de Luís Galvão, sofrera a menina um choque violento, que redobrou quando foi proferido o nome de Jão Fera, o terrível capanga, a quem poucos momentos antes encontrara, e do qual se contavam cousas inauditas.

No olhar que relanceou-lhe Miguel, avivaram-se as palavras que recentemente haviam escapado ao moço, quando falava das desgraças que sempre acompanhavam o aparecimento daquele homem sinistro em qualquer lugar.

É verdade que muitas vezes, como confessara a Miguel dissuadindo-o de tais ideias, costumava ela encontrá-lo naquelas mesmas paragens, durante as longas excursões que fazia pelos campos. Mas, recordando-se do aspecto e modo com que nessas ocasiões lhe aparecia Jão, reconhecia que nessa manhã trazia o capanga no vulto e no semblante o que quer que fosse de soturno e ameaçador.

— Nos outros dias, parecia-me tão bom e humilde. Custava-me a crer todo o mal que dizem dele; e até às vezes dava-me na vontade perguntar-lhe se era verdade. Mas tinha pena dele. Havia de afligi-lo muito. São cousas ruins as que por aí contam. Meu Deus! É possível que se mate gente assim com tamanha barbaridade?... Aquela cara amarrada que ele tinha hoje; e os olhos fundos, e os modos arrebatados... Bem se via que levava uma maldade no pensamento. E para que nos veio seguindo por dentro do mato até junto da tronqueira, e depois sumiu-se para a banda da Ave-Maria, de que Linda falou há pouco, e por onde o Sr. Galvão não tarda a passar?... Ah! o coração me diz: ele está na tocaia, e é para o Sr. Galvão mesmo!

Estas reflexões tumultuavam no espírito de Berta, que rompia o mato, fustigado o rosto pelos ramos das árvores e magoadas as mãos em partir as enrediças.

Ao recobrar-se do soçobro que tivera, escutando as palavras de Linda, ela afastara-se a pretexto de subir de novo o outeiro, e certificar-se da altura em que iam os viajantes. Descendo porém rapidamente a outra encosta, penetrou na floresta e desapareceu, antes que pudesse o Afonso já à cata, seguir-lhe a pista.

Valia a Berta conhecer perfeitamente o sítio, que muitas vezes antes percorrera com Miguel. A Ave-Maria ficava muito perto dali, para quem atalhava o caminho, levando rumo direito por entre a brenha e ao longo do costão que alombava o penhasco até a azinhaga. Uma vereda havia que serpejava pelo dorso do espigão, e saía no tope da garganta.

A estrada principal da fazenda, por onde seguira Galvão, descrevia uma larga curva contornando as terras a que servia de extrema, e vinha passar em pequena distância à direita do Tanquinho, cerca de uma milha da casa das Palmas, situada no recosto da esplanada.

Calculou Berta portanto que tinha sobre o viajante um grande avanço, e podia alcançar antes dele a azinhaga, para certificar-se de que a passara incólume, ou para salvá-lo de qualquer modo, que a menina não podia imaginar.

Para isso, porém, era indispensável que o mato não lhe tolhesse o passo nem embaraçasse a carreira; e pois buscava ela descobrir o trilho no alto do espigão.

Não pôde achá-lo. A perturbação em que a deixara o choque, aumentada com a convicção de estar Jão na tocaia, lhe roubara a calma necessária para orientar-se no meio daquele dédalo inextricável, tecido pelas guitas dos cipós e vergônteas das árvores.

De súbito estremeceu ela, ouvindo estalar os ramos com violência despedaçados, farfalhar a folhagem rudemente agitada e reboar nas abóbadas da floresta o estrupido de um passo duro e pesado.

Gente ou bruto, o que era, rompia pela mata abrindo passagem a rápida carreira, que não encontrava obstáculo para detê-lo.

Dir-se-ia a disparada de uma anta, se não fosse uma certa ondulação do rumor que indicava não levar a corrida alvo certo, mas desviar-se para um e outro lado, fazendo voltas, como se a dirigisse uma vontade, perplexa no rumo, embora impetuosa na investida.

Parando para concentrar um momento a atenção, convenceu-se a menina que a seguiam; e sua fronte decidida vibrou um gesto de soberba contrariedade. Chamando a si toda a energia de seu caráter, e todas as forças de sua fina têmpera, Berta de novo arremessou-se, e rompeu o mato com o desespero de escapar à perseguição.

Infelizmente, quando ela supunha ter ganho vantagem, caiu em uma sebe emaranhada; e aí ficou enleada pelas meadas de enrediças que faziam entre os galhos das árvores um tecido de folhagem. Debalde tentou a menina desvencilhar-se; cada vez mais se prendia.

Entretanto aproximava dela rapidamente o som da outra corrida, e não tardaria muito que chegasse ali.

Ocorreu então a Berta uma ideia, encolhendo-se dentro do escondrijo, que lhe deparara tão propício acaso, quedou-se à espera, sem rumor, cortando sutil com os dentes as cordas dos cipós que a enleavam.

Chegou enfim a corrida e passou como um turbilhão cerca de duas braças do lugar onde ela estava sem que se pudesse distinguir mais do que um vulto pardo, que bruxuleou entre o maciço da folhagem. Algum tempo aquele tropel serpejou cerca, até que perdeu-se na distância.

Surdiu Berta do escondrijo, onde aproveitara o tempo, não só a destrinçar a teia que a envolvia, como a coligir as vagas lembranças daqueles sítios. Lá não muito longe, vira ela sob as crastas de verdura descarnar-se o rochedo; a vereda passava por cima.

Caindo enfim no treito, precipitou a corrida, e de um fôlego chegou à brenha da azinhaga. Aí hesitou um instante. Em que ponto do despenhadeiro estaria de emboscada o capanga? Onde e como descobri-lo? Chegaria a tempo? Não seria frustrada a louca esperança que a trouxera?

A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto dela; e que todo seu impetuoso afã não lhe servira senão para ser testemunha de uma atrocidade infame; e assistir aos últimos arrancos do fazendeiro, a quem viera salvar.

Nisto soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava nas lôbregas socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo à entrada do despenhadeiro. Era Luís Galvão, não podia ser outro.

Cega, desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direção para fazer parar o viajante, e impedir-lhe que passasse. Mas diante dela abria-se um barranco profundo. Lançando olhos ansiados em torno, lobrigou entre a folhagem um vulto negro; e ficou hirta. Reconhecera a camisa de baetão preto que trazia naquela manhã Jão Fera; e a um movimento de cabeça vira o colo musculoso distender-se como uma serpente.

Era, com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais, espreitava, com a faca apunhada, o momento de arrojar-se à frente.

Como dissera Luís Galvão ao almoço, o Bugre não feria de emboscada; lutava de rosto, e corpo a corpo, barateando a vida. O bacamarte descansava encostado ao tronco; e o chapéu caído ao chão, deixava em pleno ar a cabeça revolta, que fervia-lhe com o jorro de sangue arremessado pela sanha a subverter-lhe o coração.

Aproximava-se Luís Galvão; e Berta presa de um espasmo de horror, que lhe sufocara a voz e crispara o corpo, não podia soltar um grito, nem dar um passo para preveni-lo.

Chegara o fatal momento.

Colhendo o lombo como o tigre para distender o salto, Jão Fera arrancou. A nuca, porém, lhe vergara contra os ombros, ao impulso de mão invisível que lhe travara dos cabelos. Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido uma palavra soturna, mas carregada de cólera e desprezo:

— Malvado!...

O capanga voltou-se rábido e feroz como o tigre picado pela vespa. Estava em face de Berta.