Til/IV/XII

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Til por José de Alencar
Quarto Volume, Capítulo XII: Despedida

Abriu-se a janela da alcova de Linda.

Assustada e inquieta a menina aproximava-se do parapeito, mas não se anima a debruçar. Com a face unida à ombreira, e o corpinho oculto pelo relevo do portal para que não a vejam dos lados do edifício, alonga o olhar ansioso pelas plantações.

Não tarda a hora do almoço.

É esse o momento em que D. Ermelinda costuma determinar o serviço doméstico. A menina aproveita-o para escapar à vigilância materna, que desde véspera de São João a acompanhava incessante como a própria sombra.

Grande alteração havia sofrido a família depois da festa. O interior da casa, que dantes respirava tão serena alegria, tornou-se triste e sombrio. Em vez da cordialidade que dantes ali reinava, nota-se o afastamento, que isola uns dos outros corações habituados à mútua efusão.

D. Ermelinda ainda recalcava no íntimo o segredo que a torturava. Por vezes tentara exprobrar a Galvão aquela mácula do passado; e no momento fugia-lhe o ânimo de que se revestira anteriormente. Uma explicação naquelas circunstâncias podia romper o vínculo que a prendia ao esposo. Temia, pois, rasgar o véu já tão ralo de uma ilusão em que ela ainda se embebia, para refugiar-se contra o desespero.

A inclinação de Linda por Miguel também a fortalecia no obstinado silêncio que persistia em guardar, apesar das insistências de Luís Galvão. Carecia do conselho do marido e da autoridade do pai, naquele árduo empenho de arrancar a filha a uma paixão funesta.

De seu lado, Luís Galvão não vivia menos contrariado e aborrecido. A causa da tristeza de D. Ermelinda não era para ele um mistério; embora a senhora se recusasse a declara-la, tinha ele perscrutado o segredo da súbita mudança.

Combinando certos pormenores, como os remoques dos camaradas junto à janela, na noite de São João; e lembrandose que vira D. Ermelinda aproximar-se naquele instante, suspeitou do que havia acontecido; e as alusões que às vezes escapavam à senhora não deixavam a menor dúvida.

Imagine-se quanto não sofreu Luís Galvão, humilhado assim na estima da mulher, ele que sentia-se rebaixado ante a própria consciência, quando recordava aquela vergonha de sua mocidade!

Outrora, se lhe passara pela mente que sua mulher viria a conhecer aquele segredo, havia em sua alma um acerbo confrangimento. Por vezes, quis arredar para longe a Berta, cuja intimidade na casa pelas relações com nhá Tudinha, lhe avivava a cada instante a lembrança de Besita.

Mas Luís Galvão era desses homens que vivem muito à superfície d’alma, onde o contentamento do mundo, os prazeres efêmeros e as impressões do momento formam uma camada que sopita alguma reminiscência mais profunda.

Ao cabo de algum tempo, a presença de Berta já não lhe despertava nenhuma triste recordação; ao contrário, produzia nele uma doce emoção. O aspecto dessa gentil menina, retrato vivo de sua mãe, refloria para ele as rosas da sua mocidade.

Toda a tristeza de seu amor por Besita ficava no fundo d’alma como um sentimento, e só flutuava a suave fragrância daquele afeto da juventude.

Às vezes, contudo, pensando no futuro daquela menina, um remorso o pungia; bradava-lhe a consciência que um meio ainda lhe restava, um único, de expiar seu crime: era resgatar o abandono da mãe pelo amor da filha.

Em véspera de partir para Campinas, impressionado um momento com os pressentimentos de D. Ermelinda a propósito de tocaias, escreveu ele seu testamento reconhecendo Berta. Fora esse o papel esquecido, à cata do qual voltou a pretexto de amostrar, levando-o consigo para faze-lo aprovar por um tabelião.

Essa resolução serenara de todo seu ânimo; e o remordimento que às vezes o confrangia de todo aplacar-se quando sobreveio a ocorrência da noite de São João perturbar, não somente o sossego de seu espírito, como a calma felicidade de sua mulher.

Nestas circunstâncias reconhecia Luís Galvão que só havia um meio de resolver a crise: era confessar o fato à sua mulher, franca e lealmente; mostrar-se a ela qual fora, e reconquistar a sua estima pela sinceridade dessa confissão, que exprimia o seu arrependimento.

Mas também ele hesitava no momento de provocar a declaração; e retraía-se vivamente, receoso de que essa revelação cavasse entre a mulher e ele o abismo da separação eterna.

Assim ansiavam por uma explicação, que os aterrava a ambos; e por isso evitavam-se, temendo que uma palavra escapa os arrastasse ao precipício onde podia se despenhar a paz e a ventura de sua mútua existência.

A estes motivos de mágoa e desgostos acrescia a lúgubre impressão, que tinham deixado o incêndio do canavial e as atrocidades de Jão Fera.

Todos o acusavam, exceto Luís Galvão, que lhe devia a existência; mas calava-se a respeito dos sucessos da noite fatal.

Nestas circunstâncias lembrara-se Luís Galvão de propor à mulher uma viagem à corte; e ela aceitara com fervor a idéia. Deixar as Palmas era um meio de escapar à tirania das pungentes recordações, e de afastar Linda de Miguel.

Ouvindo na véspera à noite o anúncio da viagem, a moça, cujo coração pressentia a oposição da mãe à sua escolha, compreendeu toda a extensão de seu infortúnio.

Ansiosa, pois, esperava Miguel, que havia uma semana, depois de São João, furtivamente vinha todas as manhãs até à cerca da horta para vê-la por entre as árvores.

Nessa manhã, avistando-o de longe, Linda correu ao quintal, e trêmula aproximouse da cerca, além da qual se ocultava o moço. Ali, defronte, um do outro, os dois amantes não se animavam a quebrar o silêncio, nem mesmo a se olhar.

— Linda!... murmurou o moço afinal.

— O senhor não sabe? interrompeu a voz trêmula da menina. Vamos para o Rio de Janeiro.

— A senhora?... exclamou o rapaz sucumbido.

Linda soltou uma exclamação de susto. D. Ermelinda, vendo a filha passar, a acompanhara e surpreendera os dois amantes.

Não se irritou a senhora, que viu a aflição pintada no rosto da filha.

Ao contrário, abraçando-a com ternura, chamou a Miguel, o qual procurava esconder-se à sua vista. Aproximou-se o moço, pálido e confuso, para ouvir estas palavras pronunciadas com um tom de meiga severidade:

— Diga adeus a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela não pode pertencer-lhe!...

O moço abraçou Linda e partiu soluçando. A menina escondeu o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os olhos.