Tintas marinhas

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Tintas marinhas
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

Mar manso, pelo fim da tarde.

O ouro fulvo dos horizontes no ocaso a pouco e pouco esmaece.

Pela manhã chovera, mas antes do pôr do sol o dia levantara e as perspectivas úmidas e frescas embebem-se agora no eflúvio salutar das marés.

No espaço há uma grande acumulação de nuvens áureas e róseas de um forte colorido de silforama.

Para além, da outra banda do mar, a faixa larga e prateada da praia, em curvas, coleando, está de uma extrema doçura e nitidez inefável. A retina mal pode apanhá-la.

Os olhos pestanejam, nas infinitas vertigens e nos prismas visuais sutis e cambiantes de míope, diante do encanto dos tons de luz leve, rarefeita, espiritualizante e fina, como um tecido tenuíssimo.

Há em toda a marinha um aspecto amável, uma suavidade de aquarela d’après nature, quase êxtase.

Dá um esplêndido efeito à visão ótica e um revigoramento humorado às faculdades artísticas, este belo trecho sadio e agradável de vagas, em cuja superfície a luz frouxa da tarde se encarrega, com as suas pinceladas de fantasista, de fazer as mais extravagantes e rendilhadas decorações.

O mar, aquietado, sereno, está de um verde glauco ativo e salgado, convidando a viajar, e, sobre ele, navios balouçantes, embarcações, soltas como aves, de delicadas formas artísticas, com afinidades abstratas de certas linhas fugidias de um perfil de mulher, conservam, então, como lenços de adeuses, as suas velas brancas estendidas, os seus panos a secar da chuva da manhã.

Balançam-se um pouco, numa cadência harmônica, num ritmo musical, com os altos mastros erguidos para o céu em posição de vigia.

E, assim, com os mastros e as velas, na aglomeração das adriças e dos cabos, os navios fazem vagamente lembrar, na calma da tarde, enormes e estranhas plantas de ornamentação.

Ao fundo, na recortada e esfuminhada linha das montanhas, uma queimada faz evolar para os ares o seu azulado penacho de fumo.

E, no meio da pitoresca delícia da marinha alegre e lavada, de um acre sabor de azote, uma ou outra gaivota esvoaça, além num vôo incisivo, rápido, ou pousa junto aos liquens ou junto às algas, mergulhando e roçando na vítrea vaga a nevada plumagem de arminho.

Então, de toda a paisagem, larga, aberta, revigorativa e cheia de uma grande ar primitivo de virilidade, vem um sopro intenso, confortador e pagão de Heroísmo e de Mocidade, fazendo inflar o peito, e um sentimento anelante e virgem de pesca, no bravo Mar Alto, entre tropicalismos primaverais de sóis sangrentos e de dias azuis, sobre as rasgadas ondas mormurejosas.