Trovas do Bandarra/Aos verdadeiros portugueses devotos do encuberto

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Trovas do Bandarra
Aos verdadeiros portugueses devotos do encuberto


Divida he forçosa, Senhores, offerecer vos o amor da Patria esta insigne, e mysteriosa obra: porque se seu Author fôra vivo neste venturoso tempo assim o fizera em satisfação de tão dilatadas esperanças, que por mais de sessenta annos alentarão o animo daquelles, que com tanta razão, e justiça desejavão, que a Real Coroa de Portugal tornasse a illustrar a cabeça de Principe natural, e verdadeiro. Tudo merece uma firme, e longa esperança pois não ha couza que mais custe, e atormente. Assim o affirma Estacio no Livro I.

...."Spes anxia mentem
Extrahit, et longo consummit guaudia voto."

Tambem se vos offerece nestas Trovas do Bandarra uma verdade cumprida para recompensa de vossos desejos continuos, merecedores sempre de desempenhos grandes, quaes são as certas posses de esperanças continuas. Para sua maior estimação he precisamente nescessario o conhecimento, e noticia do sazonado fructo que se possue, procedido da flor do que se esperou: porque não ha amar sem conhecer diz o Principe da Filosofia: Nihil volitum, quin praecognitum. O Libertador do nosso captiveiro, captiveiro, o remedio de nossos males, o descanço, de nossos trabalhos he o Rei Encuberto, de quem trata Bandarra, e a quem tomou por assumpto, e por objecto de seus versos, como nelles se vê, e particularmente na Estancia LXXII. dizendo:

Este Rei tão excellente,
De quem tomei minha teima.

Val o mesmo que dizer: Deste Rei trato somente, delle escrevo, posto que as figuras, e acções sejão muitas, e differentes. O teimoso sempre porfia, e teima: assim Bandarra sempre falla neste Rei, ao qual chama o Encuberto, como consta do Verso LXXV. fallando do Porco, que fará fugir para o deserto:

Demostra que vai ferido
Desse bom Rei Encuberto.

A este Rei Encuberto attribue seis propriedades, e signaes, quaes saõ os seguintes: O Primeiro, O Rei novo he alevantado. Verso LXXXVII., diz, que he Rei novo. O Segundo, que será Rei eleito, e naõ só por successão. Verso C. O Rei novo ho escolhido, e elegido. O Terceiro, que he Infante, como se lê no Verso LXXXVIII. Saia, saia esse Infante, bem andante. O Quarto, que se chamará D. João, Verso LXXXVIII.: O seu nome he D, João, nome, de que tanto gostou o Author, que seis vezes falla nelle, como se vê nos Versos XXV. XXXVIII. XLIV. LV. LXXXVIII. XCIII. O Quinto, que terá um irmão bom Capitão, Verso CII.: Este Rei tem um irmão bom Capitão. Diz ultimamente, que este Rei será acclamado, e alevantado, quando se cerrarem os quarenta annos, como consta do Verso LXXXVII.:

Ja se cerraõ os quarenta
Que se e[m]menta
Por um Doutor ja passado:
O Rei novo he alevantado.

Todos estes signaes evidentemente convem só a El Rei D. João IV., nosso Senhor, o qual he Rei novo, porque antes não reinava, posto que era Rei de juro. Rei elegido foi pela commum inspiração, e geral acclamação de todo o Reino; Infante era tambem, porque os Principes de Bragança são Infantes, como tambem por bisneto do Infante D. Duarte, filho nono do Senhor Rei D. Manoel. Chama se alem disto D. João. Tem um irmão valeroso Capitão qual he o Senhor Infante D. Duarte, que Deos livre. A eleição, ou commum inspiração, e acclamação (que tudo he o mesmo conforme a Direito) foi quando cerravão quarenta annos, pois foi Sabbado (e havia de ser Sabbado) dia setimo, em que Deos descançou da creação do Universo, como em mysterio, e em signal, que nossas afflicções o cançarão, e que descançava com o Rei, que naquelle dia nos deu para nosso descanço liberdade; pois o dia em que primeiro descançou foi, como se sabe Sabbado. Assim nos restituiu o nosso legitimo Rei Sabbado primeiro dia de Dezembro, mez em que cerrou o anno de 1640.

Conclue se logo com toda a certeza, e moral evidencia, que El Rei D. João o IV., nosso Senhor he o esperado, e tão desejado Rei Encuberto, de quem Santo Isidoro fallou na era de 636., escrevendo muitas couzas futuras de Hespanha[1], e Bandarra tantas vezes repitiu. Não ha mais esperar outro Encuberto; porque he couza vã, e aerea; e o mesmo Rei de Castella chamou a El Rei, nosso Senhor Encuberto duas vezes, quando antes de ser Rei o mandou governar ás armas de Portugal á Villa de Almada, em a Carta dizia fosse encuberto; e pois os signaes, que delle se apontão de nenhuma maneira convem a El Rei D. Sebastião, nem he Rei novo mas velho; não foi Rei de eleição senão de successão, e que nasceu Rei, porque não se chamava João, nem teve outro irmão bom Capitão. Conheção logo todos esta clara verdade; e farão toda a devida estimação das Trovas do celebrado Bandarra, qua neste particular ja vemos desempenhadas, e cumpridas.

VALETE.

Notas[editar]

  1. Estas Profecias de Santo Isidoro, Arcebispo de Sevilha, de que aqui falla, em que vaticinou successos de Castella, podem ler se na Ressurreição de Portugal por Fernão Homem, que tambem foi impressa em Nantes pelo mesmo impressor Guillelmo do Monnier; e ahi se diz forão tiradas de um Livro, que se havia impresso em Valença no anno de 1520., e que andavão nas lições de sua vida no Breviario Dominicano, e em outros. O anno de 636., que tambem aqui se a ponta, foi o mesmo da morte deste Santo Prelado, mui esclarecido pelo zelo da Fe, e inteireza da disciplina Ecclesiastica. [Nota do Autor]