Ubirajara/VI

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Ubirajara por José de Alencar
O combate nupcial


Chegou o dia, em que os noivos de Araci deviam disputar a posse da formosa virgem.

Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha, estende pelo vale sua araçóia d'ouro.

A grande nação tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os anciões, que formam o grande carbeto.

Em frente aparece Araci, a estrela do dia, que há de ser o prêmio da constância e fortaleza do mais destro guerreiro.

Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos tocantins.

De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um cerca-se da esposa, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao combate.

É a única das festas guerreiras, em que o rito de Tupã consente a presença das mulheres, porque trata-se de sua glória.

Contemplando o esforço heróico dos mais nobres guerreiros para conquistar a formosura de uma virgem, as outras virgens aprendem a prezar a castidade, e as esposas se ufanam de guardar a fé no primeiro amor.

Itaquê, o grande chefe dos tocantins, preside ao combate, orgulhoso pela valente nação que dirige, como pela formosa virgem de que é pai.

Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de Araci, que se preparam a disputar a esposa, o grande chefe ergue a fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flores.

Os noivos se distinguem dos outros guerreiros pelo bracelete de contas verdes, que o guerreiro cinge ao pulso da esposa, quando rompe a liga da virgindade.

Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem obedece o manati e o golfinho.

Junto dele ergue-se Uiraçu, que tomou este nome do valente guerreiro dos ares, pelo ímpeto do assalto.

Vem depois Araribóia, a grande serpente das lagoas, Cauatá, o corredor das florestas, Cori, o altivo pinheiro, e tantos outros, ainda mancebos, e já guerreiros de fama.

Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da serrania.

Os músicos fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa; e os servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina.

Então os nhengaçaras levantaram o canto nupcial.

"A esposa é a alegria e a força do guerreiro. Ela acende em suas veias um fogo mais generoso que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouso da cabana.

"Por isso, o primeiro desejo do mancebo, quando ganha nome de guerra, é conquistar uma esposa.


"Não basta ser valente guerreiro para merecer a virgem formosa, filha de um grande chefe; é preciso a paciência para sofrer e a perseverança no trabalho.

"Araci, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e a glória do mais forte e do mais valente.

"Os filhos que ela gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande chefe, serão os maiores guerreiros das nações."



Itaquê deu o sinal; o combate começou.

Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape;

- Araci, estrela do dia, tu serás esposa do guerreiro Pirajá, que te vai conquistar pela força de seu braço.

Avançou Uiraçu, e disse:

- A virgem formosa ama ao guerreiro Uiraçu e há de pertencer-lhe. A noiva cantou.

- Araci ama o mais forte e mais valente. Ela pertencerá ao vencedor, que vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da esposa.

A voz maviosa da virgem afagou a esperança de todos os campeões; mas seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de sua alma.

Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira.

Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversário, recuou um passo do lugar em que se postara. Pela lei do combate estava vencido, e teve de deixar o campo.

Araribóia tomou o seu lugar; e o combate prosseguiu com vária fortuna, até Cori que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram disputá-lo.

Faltava Jurandir. O estrangeiro avançou gravemente, como convinha a um grande guerreiro da nação araguaia.

Ele queria dar ao vencedor de tantos combates, o tempo preciso para descansar.

A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava erguer para um combate sem glória.

Quando Jurandir achou-se em face do vencedor, levantou a voz e disse:

- Para merecer Araci, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem guerreiros, e não, combater um guerreiro fatigado.

"Tu empunhas um tacape; toma outro, habituado a vencer; ele restituirá a teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te arrebatar todas as tuas vitórias. "

Disse, e arremessou a arma aos pés do adversário.

Cori, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas Jurandir aparou-o na mão firme e, arrebatando o tacape que o ameaçava, arrancou o guerreiro do chão.

Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de partir o tronco, desprende a raiz da terra, onde nada o abalava.

Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado valentes guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores.



Os músicos tocaram os borés; e os jovens caçadores trouxeram para o meio do campo a figura da noiva.

Era um grosso toro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhara, com o dente da cutia, a cabeça de uma mulher.

Três caçadores vergavam com o peso da carga e foram precisos dez para trazê-lo desde a cabana do pajé até o campo, onde ficou semelhante a uma mulher sentada.

Na véspera, o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o toro de madeira, e o esfregara com a banha do teiú, para que ele escorregasse da mão do guerreiro como o lagarto da mão do caçador.

Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo, troncos de árvores cortadas com as ramas e as folhas; e fincaram cercas de estacas entre os barrancos da várzea que ia morrer à margem do rio.

Itaquê deu o sinal; e os guerreiros começaram a nova prova, mais difícil que a primeira.

Era preciso que o guerreiro, à disparada, levantasse do chão, sem parar, o toro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para tomá-lo.

Esse jogo era o emblema da agilidade e robustez, que o marido devia possuir, para disputar a esposa e protegê-la contra os que ousassem desejá-la.

Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rápido chegou. Como o condor que, rebatendo o vôo, leva nas garras a tartaruga adormecida; assim o veloz guerreiro suspendeu a figura da esposa e com ela arremessou-se pela campina.

Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a presa. Na planície aberta seria vão intento porque nenhum corria como o estrangeiro.

Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as árvores derrubadas, os barrancos profundos e outros obstáculos de propósito acumulados.

Não hesitou, porém, o destemido mancebo. Saltou as corcovas, galgou as caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o chão.

Uma vez os guerreiros aproximaram-se tanto, que Jurandir sentiu nos cabelos o sopro da respiração ofegante. Em frente, erguia-se a alta estacada.

Se tentasse subir, carregado como estava, os guerreiros com certeza o alcançariam a tempo de arrancar-lhe a presa.

Então arremessou pelos ares o toro de madeira, como se fosse o tacape de um jovem caçador; e seguiu após.

Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta campina, e foi colocar a figura da esposa no meio do carbeto dos anciões.

Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a sua carga, saía triunfante da prova.

Ele mostrava como arrebataria a esposa do meio dos inimigos e a defenderia contra seus ataques até recolhê-la em um asilo seguro.

De todos os guerreiros só Cori e Uiraçu conseguiram ganhar a prova; mas nenhum com a galhardia de Jurandir.

Cori por vezes foi alcançado, e só à confusão dos outros deveu escapar-se. Uiraçu recuperou a presa já perdida, porque Pirajá, que havia empolgado, falseou na corrida e tombou.

Os três vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O triunfo não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a presa que disputam duas serpes.

Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçaras, os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores.



Quando voltou o silêncio, Ogib, o grande pajé dos tocantins, estava em pé no meio do campo.

Junto dele, uma das velhas mães dos guerreiros segurava o camucim da constância, que tinha o bojo pintado de vermelho.

O pajé disse:

- Não basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a esposa.

"É preciso que tenha a constância do varão, e não se perturbe com o sofrimento.

"É preciso que ele tenha a paciência do tatu, e suporte sereno as mortificações das mulheres, e as importunações das crianças.

"O guerreiro que não tem constância e paciência, depressa gasta suas forças.

"O rio que se derrama pela várzea, nunca verá suas margens cobertas de grandes florestas.

"Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma em lamentações.

"Nunca ele será pai de uma geração forte e gloriosa, nem verá sua cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.

"Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão ainda maior do que o famoso guerreiro que todos admiram."

O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura, bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro.

Jurandir meteu a mão no vaso. O semblante sempre grave do guerreiro cobriu-se de um sorriso doce como da luz a alvorada; e seus olhos, mais contentes que dois saís, pousaram no rosto de Araci.

O camucim da constância continha um formigueiro de saúvas, que o pajé havia fechado ali na última lua.

Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam para dilacerar a primeira vítima que lhes caísse nas garras.

A dentada da saúva, que anda solta no campo, dói como uma brasa; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira.

Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro para espreitar-lhe o mínimo gesto de sofrimento.

Mas Jurandir sorria; e seus lábios ternos soltaram o canto do amor. De propósito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o gemido com o rumor do grito guerreiro.

Assim cantou ele:

- A dor é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco da craúba, da qual o guerreiro fabrica o arco e o tacape.

"A juçara tem setas agudas, mas Araci quando atravessa a floresta, colhe o coco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão.

"O ferrão da saúva dói mais do que o espinho da juçara; mas Jurandir acha o mel dos lábios de Araci mais doce do que o coco da palmeira.

"Quando Jurandir era jovem caçador, gostava de tirar a cutia da toca, embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne.

"O ferrão da saúva não dói como o dente afiado; e Jurandir sabe que o pêlo dourado da cutia, não é tão macio como o colo de Araci.

"Jurandir despreza a dor. Seus olhos estão bebendo o sorriso da virgem, mais suave que o leite do sapoti. Sua mão está sentindo o roçar dos cabelos da virgem formosa."

Os anciões deram sinal para concluir a prova da constância; mas o guerreiro continuou o seu canto de amor.

- A cumari arde no lábio do guerreiro; mas torna mais gostosa a carne do veado assado no moquém.

"O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro d'alma.

"A saúva arde como a cumari e queima como o cauim; porém torna os beijos de Araci mais saborosos e o amor de Jurandir espuma como o vinho generoso.

"Araci há de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe rasgar o seio.

"Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorriso de Araci lhe enche a alma de amor."

Foi preciso quebrar o camucim para que o guerreiro pudesse retirar a mão, de inflamada que ficara.

O grande pajé esfregou na pele vermelha o suco de uma erva dele conhecida; e logo desapareceu a inchação.



Faltava a última prova, chamada a prova da virgem.

As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do guerreiro, assim como a força de seu amor.

Nesta era que a virgem podia mostrar seu agrado pelo vencedor; ou livrar-se de um esposo, que não soubera ganhar-lhe o afeto.

Os cantores disseram:

"Tupã deu asas à nambu para que ela escape às garras do carcará.

"Tupã deu ligeireza à virgem, para que ela fuja do guerreiro que não quer por esposo.

"Mas a nambu, quando ouve o canto do companheiro, espera que ele chegue para fabricar,seu ninho.

"A virgem, quando segue o guerreiro que ela prefere, pensa na cabana do esposo e corre devagar para chegar depressa."

Araci deixou a mãe, e avançou até o meio do campo.

O grande pajé colocou Jurandir na distância de uma muçurana, que cinge dez vezes a cintura do guerreiro.

Estrela do dia lançou para as espáduas as longas tranças negras que voaram ao sopro da brisa.

Arqueou os braços mimosos, vestidos com franjas de penas, como as asas brilhantes do arirama, e quando soou o sinal, desferiu a corrida.

Jurandir seguiu-a. Ele conhecia a velocidade do pé gentil de Araci, que zombava do salto do jaguar.

Nem que pudesse alcançá-la, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor, queria dever a esposa ao amor dela e não a seu esforço.

Disputaria Araci não só a todos os guerreiros das nações, como a todas as nações das florestas; só à vontade da própria virgem não a disputaria, pois a queria rendida e não vencida.

Mas sua glória mandava que ele, o chefe de uma grande nação, se mostrasse digno da formosa virgem, que o aceitasse por esposo.

Araci voava pela campina. Às vezes trançava a corrida como o colibri que adeja de flor em flor, outras vezes fugia mais rápida do que a seta emplumada de seu arco.

Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ela quisesse fugir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.

Jurandir abriu os braços e recebeu a esposa que se entregava a seu amor.

O guerreiro suspendeu a virgem formosa ao colo; e levou-a à cabana do amor que ele construíra à margem do rio.



As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana e matizavam o chão de flores.

Araci foi buscar a rede nupcial, que ela tecera de penas de tucano e arara; e Jurandir conduziu os utensílios da cabana.

Então o estrangeiro sentou-se com a virgem no terreiro e, antes de passar a soleira da porta, revelou a Araci quem era o guerreiro que ela aceitara por esposo.

- Araci pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ela teve a glória de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ela será mãe dos filhos de Ubirajara; e terá por servas as virgens mais belas, filhas dos chefes poderosos.

"A palmeira é formosa quando se cobre de flores e o vento agita as suas folhas verdes que murmuram; mais formosa, porém, quando as flores se mudam em frutos, e ela se enfeita com seus cachos vermelhos.

"Araci também ficará mais formosa quando de seu sorriso saírem os frutos do amore quando o leite encher seus peitos mimosos, para que ela suspenda ao colo os filhos de Ubirajara."

Araci ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a fronte do esposo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.

Depois, sentindo os olhos de Ubirajara, que bebiam a sua formosura, ela vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça.

A túnica de algodão, entretecida de penas de beija-flor, desce das espáduas até a curva da perna, cingida pela liga da virgindade.

Quando Araci passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ela não corava, porque sua castidade a vestia, como a flor à sapucaia.

Mas agora, em presença do guerreiro a quem ama e para quem guardou sua virgindade, tem pejo, e esconde sua formosura às vistas de Ubirajara.

- Os olhos do esposo são como o sol, disse o guerreiro; eles queimam a flor do corpo de Araci.

"Araci tem medo que os olhos do esposo não a achem digna de seu amor; e vestiu seus enfeites.

"Araci queria ser como a juriti, e ter no corpo uma penugem macia, que só a deixasse ver em sua formosura.

"Foi por isso que tua esposa se cobriu com o seu aimará. Os olhos de Ubirajara não lhe queimarão mais a flor de seu corpo."

O guerreiro respondeu:

- A flor do igapê é mais formosa quando abre, e se tinge de vermelho aos beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes.

Ubirajara tomou nos braços a esposa e pôs o pé na soleira da porta.

Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o vencedor à presença de Itaquê.

O carbeto dos anciões tinha decidido que o vencedor antes de receber a esposa, devia declarar quem era; pois fora recebido como estrangeiro, e ninguém na taba o conhecia.