Um Bilhete
UM BILHETE
Antes mesmo que acabasse o baile, Maria Adelaide dizia á mãe que não queria ficar um minuto mais que fosse.
— Que é isso? disse-lhe a mãe. Deu uma hora agora mesmo.
— Não quero saber. Vamo-nos embora.
— Ora, meu Deus!
— Vamos, vamos.
Não havia que dizer; a mãe era governada pela filha, e perderia o lugar no ceu, se tanto fosse preciso, para não desgostal-a. Note-se que não cedia pouco desta vez; cedia a ceia, que era excellente, e a boa viuva professava esta philosophia: —— que as ceias excellentes são preferiveis ás boas, as boas ás más e as más ás que não têm existencia. Sacrificava a melhor parte do baile; mas, emfim, com tanto que a filha não padecesse.
Padecer, padecia. No carro, logo que as duas entraram, Maria Adelaide começou a ralhiar com tudo, com o carro, com a capa, com o calor, com o pó, com a mãe e comsigo mesma. A mãe entendeu logo: era algum desgosto que o Chico Alves lhe dera. Realmente, lembrou-se que o Chico Alves, indo despedir-se dellas, nem alcançou que Maria Adelaide olhasse para elle. A moça deu-lhe os dedos, a pontinha apenas, e fallou-lhe de costas; naturalmente estavam brigados.
A viagem foi attribulada. Nunca o máu humor da moça foi tamanho nem tão explosivo. A mãe pagon pelo namorado, mas como era prudente e estava com fome, preferiu não dizer nada.
Em casa, continuou o máu humor. A pobre creada da moça padeceu como nunca. Maria Adelaide entrou para os seus aposentos, furiosa, despiu-se ás tontas, dizendo cousas duras, rasgando uma das mangas do vestido, atirando as flores ao chão, raivosa e indignada sem causa apparente. No fim, disse á creada que se fosse embora, e ficando só rebentaram-lhe as lagrimas. Assim mesmo sosinha, ia fallando, mordendo os labios, dando punhadas nos joelhos. Depois arrancou da cadeira, foi á secretaria e escreven este bilhete:
«Nunca pensei que o senhor fosse tão perfido. Nunca imaginei que pudesse proceder como fez no baile; creia que não manifestei o meu desgosto, por dous motivos: — o primeiro, porque ainda tive força de me dominar; segundo, porque depois do que o senhor me fez, nada pode haver mais entre nós. Case-se com a viuva, se quer. Mande as minhas cartas e adeus. Esta determinação é irrevogavel. Qualquer tentativa de reconciliação obrigar-me-ha ao que não quero.»
Tinha dado expansão á colera, deitou-se para dormir. O sono não veiu logo; a raiva agitou a pobre moça, e só quando começou a madrugada foi que ella pôde dormir um pouco. No dia seguinte, o Chico Alves recebia este bilhete:
«Desculpa algumas palavras que te disse hontem no baile. Estava muito zangada. Vem hoje tomar chá, e eu te explico tudo.»
Z. Z. Z.