Um ambicioso/VI

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Um ambicioso por Machado de Assis
Capítulo VI


Chegou o dia; José Cândido não dormiu a noite antecedente; deixou a cama com a aurora. Preparou-se; atou ao pescoço a gravata mais amarela de sua coleção e foi animar as fileiras. Pelos seus cálculos tinha quinhentos votos certos; a estes deviam acrescer uns duzentos votos de simpatia, ou pessoal ou produzida pelas mofinas dos jornais. Vários amigos ainda lhe filaram alguns mil-réis, que ele entregou em dobro, para fortalecer as opiniões. As horas corriam, ele esperava ansioso o momento fatal.

E, coisa curiosa! não esperavam com menos ânsia o pai e a namorada. A idéia de o ver triunfante, sem que eles dessem por isso, já lhes fazia cócegas no coração. O sr. Mateus amaldiçoara o filho, mas não se lhe daria de abençoar o eleitor. Quanto a Emília, havia um pouco de vaidade e um pouco de interesse; o interesse era a reconciliação possível da família.

José Cândido foi ao barbeiro, que o recebeu um pouco melancólico.

O capitão arranjara no bairro um rival de José Cândido, e mandara-o contraminar o trabalho deste, não por medo de que a candidatura vencesse, mas para não perder alguns votos, que dariam mais forças à vitória da chapa. Ora, esse agente secreto estivera nessa manhã na loja do barbeiro, e abrira-lhe os olhos de tal modo, que o barbeiro estava aterrado, não com a idéia da derrota, mas com a do ridículo.

Não foi difícil a José Cândido restabelecer o fervor do barbeiro cujo espírito viera a este mundo, destinado a mover-se a todos os ventos do horizonte.

— Tem razão, disse ele; você tem razão. São tricas!

— Ora, você ainda vai com cantigas! O que eles querem é justamente assustar e desanimar a gente. Nada de fugir de caretas.

— Apoiado!

— Vamos à igreja!

— Vamos!

Fechou-se a loja; os dois oficiais tiveram sueto para ir votar. Alguns fregueses, dando com a porta fechada, praguejaram contra a indolência do Fígaro eleitoral; mas não lucraram nada com isto. A porta não se abriu.

A luta foi longa, renhida, desesperada. José Cândido pôs em ação todas as molas de seu gênio cabalista; ia, vinha, andava, parava, chapéu na mão ou na cabeça, bolso cheio de cédulas, dando-as a um, trocando a de outro, enchendo as algibeiras dos votantes. A cada instante dava o sinal dos rolos; apoiava um e outro partido, quando se tratava de denunciar um fósforo e impedi-lo de votar. Nem nesse dia nem no seguinte comeu coisa que pudesse razoavelmente alimentá-lo. Todo ele era agitação, esperança, ambição, sonho. As vinte pessoas que o rodeavam freqüentemente, por uma dessas ilusões do desejo, afiguravam-se-lhe todo o corpo dos votantes; e dizendo-lhe elas que ele tinha uma maioria formidável, ele cria e sorria.

Nas primeiras horas o barbeiro esteve mole e pacato; mas o ardor de José Cândido comunicou-se-lhe; a esperança fez o resto.

— Que tal irá a coisa? perguntava-lhe às vezes José Cândido.

— Soberba! dizia invariavelmente o barbeiro. Vai como se quer!

Enfim, a agitação cessou; começou a apuração dos votos.

— Vamos ver quem tem garrafas vazias, dizia José Cândido na véspera da apuração.

Não obstante essa convicção do triunfo, José Cândido tremia às vezes; olhava um pouco desconfiado para a urna, em cujo ventre estava a glória ou a ignomínia. Se em vez de triunfo... Essa idéia negra era felizmente breve; a esperança cobria-o de suas folhas verdes; ele repousava tranqüilo sobre os futuros louros.

Não menos satisfeito andava o barbeiro; e José Cândido nutria esse fogo mais inocente que sagrado. Contudo, ele não contava com a vitória do barbeiro, em outras razões, porque lhe cortara muitos votos. Alguns aceitavam o nome de José Cândido, cabalista conhecido, mas duvidavam das opiniões do outro ou das suas aptidões eleitorais. José Cândido insistia frouxamente; e quando via o seu nome em perigo lançava ao mar o nome do aliado. Ora, o aliado, que nada disso viu nem suspeitou, nadava em júbilo e sentia em si um coro de gratidão pela notoriedade que José Cândido ia dar-lhe. Não cessava de lhe apertar as mãos, de dizer que ele era um homem superior.

— Não é verdade? acudia José Cândido ouvindo nas palavras do outro o eco de seus próprios pensamentos.

A aurora, com seus dedos de rosa, abriu as portas do céu ao sol do grande dia; mas parece que o sol, adivinhando alguma coisa do que se ia passar, não quis alumiar os sucessos desse dia e velou nobremente o rosto. Velou o rosto, enquanto o juiz de paz e mesários iam tomar seus lugares no templo, à roda da mesa, onde estava a urna que continha em seu bojo os destinos de uma existência.

A apuração começou. O presidente lia os nomes dos eleitos, que dois mesários escreviam. Esta leitura monótona era um dos maiores prazeres que José Cândido conhecia na terra; naquela ocasião era o prazer máximo; devia sê-lo ao menos.

As primeiras listas não continham o nome de José Cândido e muito menos o do barbeiro. Este, candidato novel, lançava ao filho do sr. Mateus olhos de angústia e desesperação; mas José Cândido tranqüilizava-o, dizendo-lhe ao ouvido que as primeiras listas não decidem uma eleição.

— Sim, confirmava o barbeiro; o primeiro milho é dos pintos.

Só no outro dia acabou a apuração. Seu resultado, na parte que nos interessa, foi o seguinte:

José Cândido........... 37 votos

O barbeiro ............ 15 votos

Uma ilusão engendra ordinariamente outra. José Cândido escondeu-se de todos, oito dias, persuadido que acabava de obter a celebridade da derrota. No fim esse tempo apareceu; mas andava com os olhos baixos. O primeiro desconhecido que lhe pedia fogo parecia estar dizendo:

— Coitado! Deve ter padecido muito.

Alguns, os conhecidos, falavam da eleição, mas com entusiasmo sincero, porque lhes parecia que o voto de trinta e sete pessoas era um sonho realizado para José Cândido. Este ouvia esses aplausos com um grande desespero na alma, porque era preciso ser muito inferior para achar alguma coisa significativa em 37 votos.

Contudo, esses dois algarismos, com o tempo, tornaram-se menos ínfimos aos olhos de José Cândido. Eram ínfimos, durante a convalescença da derrota; mas os dias passam, o desgosto amortece, a ambição perde as penas, e os 37 votos ficaram sendo um título, uma recordação, uma espécie de aurora eleitoral. José Cândido, que até então não quisera mais pôr os olhos no fatal número, foi ele próprio comprar alguns exemplares das folhas que haviam publicado a apuração. Leu o seu nome; fez-lhe bem a vista desses votos, mais cinco do que os obtidos por um médico, mais sete do que os votos dados a um desembargador; enfim, um proprietário da vizinhança figurava apenas com um voto, lembrança lisonjeira de um inquilino atrasado nos aluguéis.

Um ano depois deste acontecimento, as coisas tinham mudado. O sr. Mateus falecera. José Cândido, que deixara pai, noiva, afeições de família, interesses domésticos, por uma candidatura mais do que problemática, reconciliara-se com o autor de seus dias, de quem herdou as casas e a loja. A sra. Inácia não gastou muito latim para realizar o casamento da filha; ele veio de si mesmo; duplo sonho realizado, porque não só arranjou a filha, como reformou a louça da casa, que estava deficientíssima.

Uma só pessoa faltava: o sr. Mateus; mas a ausência era compensada pela herança.

Os meses correram, depois os anos; vieram os filhos. O barbeiro, que a troco de 15 votos, perdera quinze fregueses, tinha rompido as relações com José Cândido, mas nos últimos tempos reconciliara-se. José Cândido foi perdendo, uma a uma, suas paixões e ilusões da juventude. Sacrificou o amor da vadiação e as eleições. Sobre este ponto, ele explicava tudo e mais que tudo, exceto uma coisa, para ele metafísica e inextricável.

— Por que razão, dizia ele, às vezes, consigo, eu, que ajudei os outros a vencer, não pude vencer naquele dia?

E pensando assim, brilhavam-lhe diante dos olhos os 37 votos. Ele lisonjeava-se já com esse número escasso; falava dele com certa fatuidade. Às vezes, conversando com o barbeiro, diziam ambos, para recordar um fato e uma data:

— Foi no ano da nossa luta eleitoral.

E ao dizer isso, José Cândido parecia inchar, subir, trepar às eminências; sentia-se superior; seus olhos derramavam um olhar satisfeito ao passado. Depois concertava a gravata, a mais e mais amarela, com o gesto de um homem que preencheu seus destinos; puxava o colete para baixo com outro gesto sacudido, rápido, imperioso. E o resto do dia era um deleite, uma vida luminosa, dourada, juvenil... Pobre mortais! Até a ambição é caduca.