Um deus de rasto

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Um deus de rasto
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


Foras minha sultana favorita,
Mas em ti só eu tendo o meu serralho
Sendo de todas sempre a mais bonita,
Não me deras na escolha algum trabalho.

Em teu cálix de neve o branco orvalho
Bebera, ó lírio, que esta terra habita:
Vales os sóis da abóbada infinita,
E o pó, que pisas, para ti não valho...

Fosse eu um Lear, rei inda que louco,
Vulcano, um deus inda que coxo, a troco
Do que tenho a viver; — rei, deus, sim! eu

De rasto, humilde, curvo, ao chão bem rente,
Tu me negaras desdenhosamente
O lamber-te um dos pés, como um lebreu...