Uma Campanha Alegre/I/XLIV

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo XLIV: A Câmara Municipal e o seu zelo cívico


Dezembro 1871.

Respeitamos a câmara. Todavia parece-nos discutível esta maneira zoológica de pôr alguma ordem na confusão do município. Nem se nos afigura lógico que a 300 000 habitantes que pedem higiene, limpeza, polícia, iluminação, passeios, a câmara responda, no seu zeloso cuidado - com um bicho dentro de uma jaula!

A cidade, realmente, não oferece um aspecto próspero.

A iluminação é sepulcral. O gás mostra-se inferior em seus serviços à antiga candeia de lata. Nas principais ruas, parte dos candeeiros repousam, apagados; os que velam bocejam, num dormente bocejo de luzinha mortal; outros nunca se estrearam, e nem sabem que são candeeiros.

Monturos de caliça e de pedregulho tomam nas ruas um espaço abusivo. O entulho tem um certo direito a estar parado nos passeios, vendo as senhoras que passam, mas não deve pelo menos privar de igual regalia os habitantes que pagam décima.

As ruas, pela sua limpeza, mereceram de nós a designação que lhes ficou - canos do avesso. As que são calçadas tomam com a chuva o aspecto gentil de uma missanga de charcos. As macadamizadas, essas, depois de se terem desfeito no Verão numa atmosfera de pó fétido, apressam-se no Inverno a reabilitar-se mostrando que são, como outra qualquer vereda, capazes de saber exercer a profissão de lameiro.

A glória da capital, a maravilha, o Aterro, é ladeado em todo o seu comprimento por duas suaves circunstâncias - o cheiro da imundície dos canos, e o pó de carvão das fábricas; oferecendo assim o caso de uma sociedade rica e dândi que passeia no brilho da riqueza e nos vagares do luxo - com a palma da mão sobre a boca e o lenço sobre o nariz!

As obras que a câmara constrói são talvez excelentes: mas ela vai-as erguendo tanto em segredo, tão longe das curiosidades imprudentes, que muita gente supõe que a câmara abre as suas ruas, planta as suas árvores, alarga os seus passeios - na sala do conselho, debaixo da mesa, em sessão secreta!

A canalização merece da parte da câmara o respeito - de relíquia. Não se lhe toca, nem de leve. A ilustre câmara pratica com os canos a mesma delicada reserva que os escravos dos haréns com os perfumes preciosos e evaporáveis. A cidade por baixo está podre: aí habitam na sentina as epidemias, os tifos, a cólera, a anemia, a deterioração da raça: através da delgada película das calçadas, Lisboa sua a morte. Nós vivemos sobre um furúnculo: onde quer que se pique, isto é, que se escave, sai uma vaporização torpe, que perturba. Há dias assim foi, ao pé da Casa Havanesa. E, no entanto, a câmara mantém ao domicílio da imundície a inviolabilidade que a Carta só garante ao cidadão.

Os bairros pobres são por si uma acusação cruel. As vielas negras e sujas; os casebres imundos e caducos; os destroços de vitualhas e de farrapagens; a vadiagem dos cais; a exalação das sarjetas; a humidade infecta, tudo faz daqueles lugares - uma espécie de depósito da miséria pública. Como para o vão da escada se atiram nas casas os restos de trapos, de louças, de chinelos velhos - para aqueles bairros se atira

A Câmara Municipal de Lisboa, segundo se afirma, compenetrada da necessidade iniludível de melhorar as condições da cidade, trata com toda a solicitude de fazer a aquisição de um leopardo. Diz-se ainda que depois procurará alcançar, para completar a obra da regeneração municipal, araras do Brasil. desapiedadamente com os restos da plebe!

Lisboa é a cidade mais suja da Europa. A própria Constantinopla, com o torpe desleixo turco, a própria Atenas, com a indolente miséria grega - são mais limpas. E se não fosse o Tejo que lhe faz uma certa toilette, e este sol maravilhoso que tudo alegra e doura - Lisboa, aqui ao canto, junto do mar, como um cano, seria a sentina da Europa.

E perante esta situação, o município, penetrado da sua responsabilidade, e resolvido a dotar a cidade de condições habitáveis - o que lhe dá?

Um leopardo.

É talvez interessante, mas não excessivamente prático, este facto: a fera em substituição da obra pública.

Porque a verdade é que, quando se expuser convincentemente à câmara que a cidade de noite está escura, a câmara não pode em sua honra -em vez de mais gás, adquirir mais leões.

Não queremos mal às feras: e quanto mais conhecemos os homens mansos, mais estimamos os bichos bravos... Mas entendemos que as feras se portam mal, entram no domínio do ilícito, mostram uma ambição indesculpável, excedem as suas atribuições de fera - querendo acumular a qualidade de melhoramentos municipais. Um crocodilo é decerto estimável: mas ver-se-ia superiormente embaraçado quando a câmara, no seu zelo febril, o encarregasse de substituir um passeio público. E por seu lado o habitante não se daria por extremamente satisfeito, no dia em que nos passeios, para fazer as vezes de árvores, se enfileirassem lobos!

A câmara, na sua inteligência, deve compreender que o bicho não é inteiramente o equivalente do edifício.

Nunca a câmara viu, por exemplo, S. M. El-Rei passear as ruas a cavalo no

Arsenal. Portanto não é justo que nas praças, em lugar de dar ao habitante fatigado um banco de madeira - ela lhe ofereça o dorso de um rinoceronte.

Deste modo toda a cidade corria o risco de ser em breve mordida pelos melhoramentos municipais. E seria desagradável que os jornais noticiassem: «Ontem, a última obra em construção devorou na Rua Nova da Palma uma criança de cinco anos, ficando depois a lamber os beiços, de regalada...

Que a câmara medite (porque a sua inteligência é para muito), que se ela der o exemplo funesto de substituir as construções pelos animais - pode levar o habitante a substituir os animais pelas instituições. E no dia seguinte àquele em que a câmara, para mandar abrir um chafariz, comprar, em substituição, um elefante - qualquer sujeito, em vez de dizer ao criado: - «O António, põe o selim no ruço... - pode esquecer-se a ponto de gritar:

— O António, aparelha a câmara!

O que prejudicaria fortemente os interesses constitucionais!