Uma Campanha Alegre/I/XV

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo XV: Tumultos no Parlamento


Julho 1871.

«As sessões da Câmara não têm seriedade. Aí reinam o tumulto, a confusão..., etc.»

Uma nova justificação desta verdade apareceu na sessão do dia 29.

O sr. presidente do Conselho falava. Houve um momento em que S. Exª, ou cometeu um erro de gramática, segundo o dizer de alguns jornais, ou arremessou desdenhosamente à circulação a eloquente palavra bomba, segundo a afirmação de outros. O facto é que a maioria entendeu que a melhor maneira de manifestar ao sr. presidente do Conselho que não tinha confiança na sua política, era apupá-lo! E a Pátria deve agradecer aos senhores deputados que eles não lhe tivessem dado bengaladas!

Então o sr. presidente, a título de esclarecimento, perguntou timidamente se se achava numa praça pública. Pergunta excessivamente ociosa. Numa praça nunca há nem aqueles gritos, nem aqueles tumultos - porque a polícia intervém e faz evacuar a praça.

Impunemente, ao abrigo das instituições, sem ingerência policial - uma assuada só se pode dar na Câmara dos Deputados. Em mais nenhuma parte é permitido, pelos regu-lamentos da polícia, ser-se tão excessivamente trocista. O caso é que a maioria, para provar ao sr. presidente que se considerava ofendida com a designação de praça, rompeu num alarido tal como não é uso fazer-se na praça de touros -tudo para demonstrar bem claramente que não estava ali um grupo de moços de forcado, mas um corpo de legisladores. A palavra patife fez então pela primeira vez a sua entrada na

Câmara e tomou assento. Foi também então que o sr. presidente do Conselho, em compensação, mandou o epíteto malcriados a cumprimentar e abraçar os eleitos do

País.

A assuada, o motim, o chasco, o charivari, cresceram tão constitucionalmente que o Sr. Aires de Gouveia, eclesiástico, teve de enterrar na cabeça o seu chapéu alto. A este gesto, cheio de dedicação nacional, a tempestade evacuou a sala. Diz-se que alguns srs. deputados foram cumprimentados à saída pelos melhores frequentadores do sol na praça do Campo de Santana, que se achavam presentes. As galerias permaneceram impassíveis. Tal foi esta memorável sessão, em que a altura das ideias competiu com o vigor da eloquência!

Parece pois definitivo que o Parlamento decidiu adoptar o motim e a assuada como a forma parlamentar dos seus trabalhos. Vistes, amigos, a sessão de 29 de Junho.

Quereis assistir à de 29 de Julho? Aí tendes o seu fiel extracto:

O ORADOR (concluindo): - E foi assim, sr. presidente, que se passaram os factos.

O SR. LUCIANO DE CASTRO (interrompendo com grandes punhadas na mesa): - O ilustre deputado diz uma refinadíssima peta...

Vozes: - Apoiado, apoiado!

O ORADOR (voltando-se e desabotoando o colete): - Petas? oh! descarado!

(apoiado, apoiado). Eu, sr. presidente, não posso consentir que esse biltre entre no meu foro interior!

Vozes: - Fora, fora!

O SR. COELHO DO AMARAL (espancando com dignidade o Sr. Barros e

Cunha) : - E assim provo, sr. presidente, que o Sr. Barros e Cunha não tem razão

Escrevemos no primeiro número das Farpas: alguma nos princípios que estabeleceu.

O SR. MARIANO DE CARVALHO: - Mas a ditadura foi nefasta! E não há mariola nenhum que me demonstre o contrário... (acende o cigarro).

O SR. COELHO DO AMARAL (continuando o espancamento): - Não me interrompam o discurso! Não me interrompam!

O SR. PRESIDENTE (aos Srs. Mariano e Santos Silva): - Os senhores não têm direito a interromper sovas que o regimento garante (berreiro).

O SR. PRESIDENTE DO CONSELHO: - A Câmara está-se sepultando na mais profunda abjecção!

(O sr. presidente do Conselho sucumbe, sob uma chuva de bengaladas).

O SR. JOSÉ DIAS (batendo com a bengala sobre a mesa, a um continuo) :-Dois cafés! Um cabaz!

Vozes (atravessando o corpo legislativo). -Salta meia de Colares!

O SE. PINHEIRO CHAGAS (deitado, com ar melancólico):

«Oh virgem pálida e triste

Branca visão doutros Céus!»

O SR. AIRES DE GOUVEIA: - O que diz ele?

Vozes: - Ele cisma! Ele cisma!

A oposição atira cebolas ao Sr. Pinheiro Chagas. Alguns senhores deputados grunhem obscenidades, que o ruído impediu que chegassem à mesa dos taquígrafos.

O ORADOR: - A Câmara não quer escutar-me? Pois bem, eu passo a outros argumentos... (Distribui bengaladas).

Tumulto. O sr. presidente atira a campainha à cara da maioria, e o tinteiro aos queixes da oposição. Alguns senhores deputados miam de gato. O Sr. Santos e Silva, no auge da sua indignação, dá cambalhotas. O Sr. Luís de Campos espalha uma prodigiosa quantidade de pontapés.

O SE. PRESIDENTE: - Para amanhã continua esta interessante discussão.

A Câmara sai correndo, gritando, rebolando pelas escadas abaixo.

Os contínuos levantam as garrafas de Colares.

A política chegou a tal miséria, que nem a polidez instintiva coíbe os homens.