Uma Campanha Alegre/I/XXXI

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo XXXI: O príncipe Humberto


Setembro 1871.

A população de Lisboa, ficou desconfiada, sem saber se a abstenção de S. A. significava economia, se desdém. No primeiro caso queria propô-lo deputado reformista por Vouzela ou Palhares, ficando assim definitivamente acomodada na península a casa de Sabóia: no segundo desejaria simplesmente voltar-lhe umas costas democráticas, ficando assim exuberantemente vingado o café Martinho.

Calmai-vos, Portugueses, e escutai-nos! A abstenção de S. A. a respeito do café e de outros inefáveis encantos da Baixa - só significa timidez. Tantos tronos aluídos, tantos reis errantes, tantos palácios onde o musgo nasce, têm tornado a espécie timorata.

Um rei, um príncipe, não se afoita assim pelo meio das populações, com a despreocupação de um homem que entra na Deusa dos Mares. Os reis hoje passam de largo, cosidos com a parede, tiquetique, em passinho miúdo, colhendo a respiração, olho no povo, olho na porta - como quem passa por um cão de fila, que dorme ao pé de um muro de quinta, largamente envolto no sol.

O príncipe Humberto teve estas precauções delicadas: chegou devagarinho, esteve quietinho, partiu escondidinho. E aí está, Portugueses, porque S. A. não foi bater com a ponteira da sua bengala no mármore de uma mesa do Martinho - bradando «genebra a um!»

Que S. A. R. se tranquilizasse, porém! Nós vamos no nosso trigésimo primeiro rei, e ainda não devorámos nenhum. E decerto não iríamos experimentar o dente sobre um príncipe de outras terras! Tínhamos em nossa honra entregá-lo, escorreito e são, ao único país legitimamente autorizado a devorá-lo - o belo país de Itália, Italia mater!

Tragar um príncipe alheio seria indelicadeza e esquecimento das boas relações internacionais. Os compêndios de civilidade, Alteza, ensinam-nos que se não mete a mão no prato do vizinho! Sabemos, Alteza, que, quando nos mostram um fruto raro, nãoé da etiqueta abocanhá-lo, e quando nos mandam um gentil príncipe, não é polido engoli-lo de um bocado! Podia V. A. passar tranquilo no meio deste doce povo: podia

V. A. mesmo ter sido mais afável com os cavaleiros da tourada de Sintra, para quem, dizem os despeitados, V. A. não teve senão charutos abomináveis atirados com mão enfastiada. E creia V. A. que não seria estrancinhado! Portugal sabe respeitar o príncipe do seu próximo. Ser-nos-ia mais fácil, instados pela gula revolucionária, tomar o mesmo

Sr. Melício às colheres - o mesmo Sr. Vaz Preto às fatias! Mas cravar o queixal sôfrego num príncipe de Itália, nossa irmã... Nunca! Se tal fizésseis, o Sr. João Félix, lente de civilidade, jamais vo-lo perdoaria, ó Lusos!

Os jornais de Madrid contaram que S. A. R. o príncipe Humberto, todas as noites, em Madrid, ia tomar o seu sorvete a um café onde geralmente se reúnem os italianos.

Esta familiaridade, inteiramente contemporânea da Internacional, enchia de um júbilo espumante a imprensa monárquica e o dono do estabelecimento. Em Lisboa lia-se isto - e esperava-se o príncipe Humberto, se não como um príncipe, ao menos como um consumidor! S. A., porém, chegou, esteve, partiu devagarinho, em bicos de pés, para não despertar ninguém, e se tomou café, não teve a inspiração de o tomar no Martinho!

(Tanto a etiqueta coíbe os instintos mais naturais!)