Uma Campanha Alegre/I/XXXV

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Uma Campanha Alegre por Eça de Queirós
Volume I, Capítulo XXXV: A polícia


Outubro 1871.

Quando os dois espanhóis passavam, os fadistas rompem a chasquear e, para variar um pouco os seus prazeres, esbofeteiam um espanhol. O outro então, surpreendido, ergue a mão, e, com um vigor castelhano, dá em redor algumas bofetadas sonoras e fulminantes que fizeram rolar na lama os magros tocadores de guitarra.

Nisto uma patrulha, que descia o Chiado, vem pé ante pé, faz um cerco, e tomando as espingardas pela coronha, começa por atirar às costas do espanhol uma pancada horrível, que o deixa rendido, sufocado, a arquejar. A esse tempo já Um fadista gania, escalavrado, sob outra coronhada municipal. Ninguém foi preso. Um dos solda-dos, depois, queixava-se de ter escangalhado a arma!

Respeitemos, submissos, este processo policial.

O redactor de um dos mais vivos jornais de Lisboa contava-nos pouco depois, na redacção, que vira na véspera alguns polícias, diante de um homem com um acidente, tratando de lhe fazer voltar os espíritos à força de pontapés na cabeça: o homem rebolava no chão; os polícias então davam-lhe pontapés no estômago. Talvez a Medi-cina não siga inteiramente este sistema de curar acidentes: no entanto a polícia tem essa opinião terapêutica, e nós não podemos contestar a ninguém o direito de divergir, em questões de ciência, da Escola Médico-Cirúrgica. O acidente tratado pelo espancamentoé uma teoria. E boa? É má?... Em todo o caso é respeitável.

Somente nos parece que, visto a polícia possuir este método específico, que ela decerto julga proveitoso porque o usa, não lhe poderia custar muito um pequeno trabalho a mais - e o Governo deveria encarregá-la de tratar os cidadãos enfermos.

Poupávamos assim a despesa com a Escola de Medicina. Quando alguém se sentisse doente, chamava da janela o polícia da esquina; e este benemérito, depois de tomar o pulso e reconhecer a autenticidade do mal, arregaçava a calça, mandava pôr o doente em posição, e escalavrava-o a pontapés!

Uma economia paralela nos ocorre a respeito da municipal. Coronhadas como as que vimos estalar, com um som baço e gemente, nas ilhargas de dois cidadãos, podem muito naturalmente matar um homem fraco, que sofra do peito, de uma lesão, de um aneurisma, de um vício de construção. Ora não queremos dizer que a patrulha não tenha a faculdade de matar, à coronhada, os cidadãos que destranquilizam as ruas! Seria esse mesmo o meio mais eficaz de estabelecer na cidade uma paz inalterável. O cidadão estendido morto, com a espinha partida ou o crânio aberto, aos pés do municipal, dá garantias superiores do seu sossego e da sua cordura. E decerto a melhor maneira de fazer entrar um cidadão na ordem -é fazê-lo entrar no cemitério.

Mas então (economia!) suprimamos os tribunais. Recolha-se definitivamente a magistratura ao seio das suas famílias e das suas torradas. Não é necessário que haja juiz para julgar os cidadãos - quando a municipal previamente se encarrega de desfazer esses cidadãos às coronhadas! O mais subtil magistrado ficaria pálido de embaraço se lhe apresentassem o corpo despedaçado de um desordeiro - para ele lhe fazer perguntas!

E como poderia um cadáver pagar a multa? Poupemos à justiça estas colisões vexatórias!

Saíamos do Antony Um pouco adiante de nós, subindo a Rua Nova do Carmo, vinham conversando dois espanhóis, espadaúdos e robustos. No alto da rua, ao fundo do

Chiado, alguns fadistas, num grupo ruidoso, tocavam guitarra.