Valério/II

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Valério por Machado de Assis
Capítulo II


Costuma a fortuna complicar estas misérias com amores impossíveis; desta vez foi propícia, arredando do rapaz qualquer dessas aventuras que pudessem agravar-lhe o mal. Além disso, Valério era um tanto artista e poeta na maneira de apreciar as mulheres; amaria Safo., porque era musa — desdenharia a princesa de Talleyrand, apesar de formosa, porque era parva. Queria as mulheres inteligentes e instruídas — não as mulheres sabichonas, que é a pior casta de mulheres deste mundo, e Valério odiava o pedantismo, qualquer que fosse o seu sexo.

Odiar o pedantismo é entrar em luta com uma boa parte da gente que neste mundo dá cartas. Valério conheceu praticamente esse mal uma vez que sorriu à socapa, ouvindo no Carceller, onde almoçava, um doutor entre doutores. O orador de café percebeu o sorriso do estranho, levantou-se e disse-lhe dois impropérios literários, que Valério suportou com uma paciência mais estóica que evangélica, porque não era humilde, senão filósofo.

O incidente não alterou as opiniões do escrevente de cartório; pelo contrário, confirmou-lhas.

Não encontrara até então nenhuma mulher nas condições em que ele a desejava, e se encontrasse seria o remate do seu infortúnio. Ainda quando viesse a ser amado por ela, que futuro podia oferecer-lhe um pobre rapaz sem eira nem beira, sem proteção nem amizade neste mundo?

Pensava em tudo isto Valério, e, se tinha em si mundos de ternura, recalcava-os no mais íntimo do coração. Como não freqüentava nenhuma casa, não tinha ocasião de ser tentado pelo amor.

Aconteceu uma vez que o escrivão do cartório onde ele trabalhava, reunindo em casa algumas pessoas para jantar e dançar, convidou os seus escreventes, entre os quais o nosso Valério, que recusou o convite. Ofendido no seu melindre de anfitrião, o escrivão franziu a testa e murmurou:

— Está bem.

Compreendeu o pobre escrevente a causa daquele movimento, e não convindo zangar-se com o homem que lhe dava meios de vida, confessou ingenuamente que a causa da recusa era simplesmente uma questão de sapateiro. O escrivão desrugou a testa, meteu a mão no bolso, tirou dez mil-réis e entregou-os ao escrevente, dizendo-lhe:

— Podia dizê-lo logo; sabe que não sou unhas de fome, e além disso temos contas entre nós. Descontaremos isto no traslado de falência que lá tem consigo.

Saiu Valério com os dez mil-réis no bolso e dirigiu-se a um sapateiro para munir-se de um par de botas que substituísse os sapatos velhos que fingiam calçar-lhe os pés. Ia pensando no aborrecimento que lhe causaria passar a tarde e a noite em casa do escrivão, sem conhecer ninguém, quando foi detido por um indivíduo que lhe disse:

— Ia agora mesmo procurá-lo. Quando me dá aquela continha?

A continha de que falava o sujeito era o resto de um paletó que Valério comprara quinze dias antes: cinco mil-réis.

Valério balbuciou algumas palavras de desculpa, e o indivíduo acostumado a ouvi-las de muita gente não se abalou com elas, e insistiu na pergunta. No fim de dez minutos, o devedor não tinha conseguido abalar o credor, puxou do bolso a nota de dez mil-réis e com ela pagou os cinco que devia.

Estava, pois, reduzido a cinco mil-réis. Não era difícil comprar com esse dinheiro um par de sapatos, nem os seus eram de maior preço. Dirigiu-se a um sapateiro de décima classe, e aí mercou um par de sapatos de bezerra, que o sapateiro afirmava serem novos, mas que Valério supôs terem já alguma experiência do mundo e das calçadas. Com um bilhete de gôndola, perdido no bolso do colete, pagou Valério a um barbeiro que lhe limpou a cara; depois foi vestir-se como pôde, e às quatro horas estava em casa do escrivão.

Sabem todos com que cara aparece um homem quando vai pela primeira vez dans le monde. O acanhamento é visível; não dá um passo que não olhe para todos; esconde-se voluntariamente e sempre que pode. Valério estava nessa situação, acrescendo que o seu vestuário aumentava o contraste da sua pessoa no meio da sociedade em que se achava. Não havia luxo nem elegância nas pessoas convidadas pelo escrivão; a reunião era familiar, e o escrivão não estava em grandes relações com Botafogo. Mas, apesar de tudo, havia entre a sociedade e Valério um abismo. O escrivão recebeu o rapaz com certa afabilidade de superior, que mostrava da parte do homem um vício de educação ou de caráter — porquanto o escrevente do cartório era um convidado da casa, e, como tal, estava nivelado com os outros. Nem o escrivão notava essa diferença nem Valério deu por ela; o cumprimento do escrivão causou grande prazer ao rapaz, que já estava embaraçadíssimo quando se viu alvo dos olhares das moças e dos rapazes.

O jantar foi animado, e Valério achava-se satisfeito vendo a alegria dos outros. Dentro de uma hora cederam os estômagos a palavras e às línguas, e começou uma série de brindes ao dono da casa que foi designado por várias metáforas descabeladas, entre outras a de um funcionário municipal que lhe chamou camarista de Têmis. O escrivão sorriu com um ar de quem ignorava o que era Têmis; mas a palavra camarista soou-lhe bem ao ouvido. O orador de sobremesa é um tipo universal; entre nós tem já alcançado uma posição sólida e brilhante. Valério que não conhecia o tipo, admirou muito a loqüela dos oradores e a compridez dos speechs, e mais ainda os aplausos e risadas dos circunstantes, conforme os discursos fossem patéticos ou gaiatos. Todos tiveram parte nas saúdes; e o último brinde foi levantado pelo escrivão, que falou neste termos:

— Meus senhores! Se há na vida de um homem instantes de felicidade é certamente este em que os amigos se reúnem à roda de nós, para cumprimentar-nos e partilhar conosco as afeições sinceras e profundas. (Muito bem!) Folgo de ver-vos esquecer outros cuidados para entregar-vos todos a festejar o meu dia, que, como é natural e usual na sociedade, é o primeiro dia da existência, desta existência, senhores, que apesar de amaldiçoada, é sempre cara ao nosso coração, cara, repito, principalmente quando os amigos nos servem de lenitivo. Eu bebo aos meus amigos.

Cada um bebeu à sua saúde e preludiou-se a debandada. Seguiu-se mais tarde um pequeno concerto em que um flautista arrebatou o auditório tocando umas variações sobre o já secante Carnaval de Veneza; e às nove horas começou a primeira quadrilha.

Valério foi simples espectador do baile; não sabia dançar, nem que soubesse não dançaria logo da primeira vez que se achava em sociedade. Encostou-se a uma porta que dava para a sala e contemplou os movimentos de toda aquela gente alegre. A única pessoa, que, apesar de tudo, estava um tanto inquieta, era o dono da casa. Esperava um convidado que não viera. Um convidado que era a verdadeira cúpula do edifício festival, o coronel Borges, militar reformado, ex-deputado, ex-quase-ministro, figura que devia impor à reunião e levantá-lo muito alto no ânimo dos convidados.

O tempo corria com essa rapidez máxima que costuma ter em certas ocasiões, e o escrivão, semelhante à célebre esposa do conto, perguntava à irmã Ana, que era neste caso um moleque, se não via rien venir lá-bas.

Nesta ânsia foram ouvidas as dez horas.