Versos da mocidade (Vicente de Carvalho, 1912)/Relicário/Æternum Carmen
«Amanhece... No ceu, lá fóra, é madrugada,
A noute se dilue numa poeira dourada.
Em derredor de mim toda a floresta acorda,
Sussurra, adeja, esvoaça, agita-se, transborda
De alegria ruidoza e de vida triunfante.
As aves, ensaiando o vôo titubeante,
Saltam do ninho fôfo ás tremulas ramadas,
Espanejam ao sol as azas orvalhadas...
E eu, misera que sou! da sombra em que desvivo,
Para mal entrever, remoto e fugitivo,
Num cantinho de ceu um vislumbre de aurora,
Sonho, dezejo, anceio — á espera que a folhajem
Se entreabra num bafejo inconstante de arajem.
Aves que ergueis o vôo errante ceus em fóra,
Vós, livres dos grilhões de hastes e de raizes,
Que adejais gorjeando, afoutas e felizes;
— Da sombra do meu ermo e do chão do meu brejo,
Prizioneira e infeliz, aves, eu vos invejo!
Se eu pudesse voar... voar!...
Ai, quem pudéra
Ir no rastro do sol seguindo a primavera!
Quem te pudéra ver fiel e duradouro,
Tempo alegre e fugaz das madrugadas de ouro!
Quando brilhas no ceu, pipilas no meu seio,
E’ um sonho meu olhar, minha vida é um gorjeio...
Passas, e chega o inverno... Amortece o meu vôo.
Veem as noutes sem fim... O sol que eu abençôo,
Palido e triste, róla atraz dos montes... Déce
Funebremente a noute. O ceu dezaparece
Na sombra. No silencio e na treva, amedronta
O uivo dos matagais... Apavorada, tonta,
Desmaio sobre o ninho; e a sós, triste abandono!
Sonho sombras de abutre a adejar-me no sono...
O’ manhãs côr de roza e de ouro! quem pudera
Ir no rastro do sol seguindo a primavera!...
Nesta prizão da minha órbita estreita, passo
Anos, seculos, toda a eternidade!... O espaço
— Rede de fios de ouro em torno se me enrosca
Como teia de aranha encarcerando a mosca.
A minha vida é bem a vida condenada
De um cativo infeliz numa prizão dourada.
Pelo tempo sem fim, cançado e solitario,
Refaço eternamente o mesmo itenario...
Se eu pudesse vogar no espaço livremente
Ir boiando, boiando á toa, na corrente
Branca da Via Lactea!... Ir sempre adiante, adiante;
E emfim, quando o cansaço acaso me avassale,
Achar pelo infinito a fóra, ermo e distante,
Num abismo de sombra o repouzo de um vale...
E’ bem vão o teu sonho, alma que tanto sonhas!
Que importa? Sonha sempre! Ha miragens rizonhas
No dezerto da vida. Enganam-te; que importa?
Segue-as, vai, arquejante, ezausta, semi-morta,
Nunca as alcançarás. Embora! Agonizando,
Corre atraz delas! Sonha, e sucumbe sonhando!
......Ah, se eu pudesse erguer-me
Sobre a poeira do chão e a mizeria do verme,
Fujir de mim que sou verme e poeira...
Vida,
Dezerto, árido chão de areia resequida,
A alma sedenta em vão te pede um pouco d’agua...
O sonho, o proprio sonho, é uma fonte de magua!