Anexo:Imprimir/Os sonetos completos de Antero de Quental
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| Os sonetos completos de Antero de Quental por Antero de Quental |
[editar] Índice
- Os captivos
- Os vencidos
- Entre sombras
- Hino da manhã
- A fada negra
- Ignoto deo
- Lamento
- Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa
- A Santos Valente
- Tormanto do Ideal
- Aspiração
- Se comparo poder ou ouro ou fama
- Psalmo
- No céu, se existe um céu para quem chora
- Se é lei, que rege o escuro pensamento
- Só! - Ao ermita sozinho na montanha
- Sempre o futuro, sempre! e o presente
- Por que descrês, mulher, do amor, da vida?
- Não me fales de glória: é outro o altar
- Só males são reais, só dor existe
- Não busco n'esta vida glória ou fama
- Ad amicos
- A um crucifixo
- Desesperança
- Beatriz
- Amor vivo
- Visita
- Pequenina
- A Sulamisa
- Sonho oriental
- Quinze anos
- Idílio (Antero de Quental)
- Noturno (Antero de Quental)
- Sonho (Antero de Quental)
- Amaritudo
- Abnegação
- Aparição
- Acordando
- Mãe...
- Na capela
- Velut Umbra
- Mea culpa
- O Palácio da Ventura
- Jura
- Ideal
- Enquanto outros combatem
- Despondency
- Das Unnennbare
- Metempsicose
- Uma Amiga
- A uma mulher
- Voz do Outomno
- Sepultura romântica
- A idéia
- A um crucifixo
- Diálogo (Antero de Quental)
- Mais luz!
- Tese e Antítese
- Justitia Mater
- Palavras d'um certo Morto
- A um poeta (Antero de Quental)
- Hino à Razão
- Homo
- Disputa em familia
- Mors liberatrix
- O Inconsciente
- Mors - Amor
- Estoicismo
- Anima mea
- Espiritualismo
- O Convertido
- Espectros
- Á Virgem Santissima
- Nox
- Em viagem
- Quia aeternus
- No turbilhão
- Ignotus
- No circo
- Nirvana
- Consulta
- Divina comédia (Antero de Quental)
- Visão
- Transcendentalismo
- Evolução
- Elogio da Morte
- Contemplação
- Lacrimae Rerum
- Redenção
- Voz interior
- Lucta
- Logos
- Com os Mortos
- Oceano Nox
- Comunhão
- Solemnia Verba
- O que diz a morte
- Na mão de Deus
| Os captivos por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Encostados ás grades da prisão,
Olham o céo os palidos captivos.
Já com raios obliquos, fugitivos,
Despede o sol um ultimo clarão.
Entre sombras, no longe, vagamente,
Morrem as vozes na extensão saudosa.
Cae do espaço, pesada, silenciosa,
A tristeza das cousas, lentamente.
E os captivos suspiram. Bandos de aves
Passam velozes, passam apressados,
Como absortos em intimos cuidados,
Como absortos em pensamentos graves.
E dizem os captivos: Na amplidão
Jamais se extingue a eterna claridade...
A ave tem o vôo e a liberdade...
O homem tem os muros da prisão!
Aonde ides? qual é vossa jornada?
Á luz? á aurora? á immensidade? aonde?
— Porém o bando passa e mal responde:
Á noite, á escuridão, ao abysmo, ao nada! —
E os captivos suspiram. Surge o vento,
Surge e perpassa esquivo e inquieto,
Como quem traz algum pezar secreto,
Como quem soffre e cala algum tormento.
E dizem os captivos: Que tristezas,
Que segredos antigos, que desditas,
Caminheiro de estradas infinitas,
Te levam a gemer pelas devezas?
Tu que procuras? que visão sagrada
Te acena da soidão onde se esconde?
— Porém o vento passa e só responde:
A noite, a escuridão, o abysmo, o nada! —
E os captivos suspiram novamente.
Como antigos pezares mal extinctos,
Como vagos desejos indistinctos,
Surgem do escuro os astros, lentamente.
E fitam-se, em silencio indecifravel,
Contemplam-se de longe, mysteriosos,
Como quem tem segredos dolorosos,
Como quem ama e vive inconsolavel...
E dizem os captivos: Que problemas
Eternos, primitivos vos attrahem?
Que luz fitaes no centro d'onde saem
A flux, em jorro, as intuições supremas?
Por que esperaes? n'essa amplidão sagrada
Que soluções esplendidas se escondem?
— Porém os astros tristes só respondem:
A noite, a escuridão, o abysmo, o nada! —
Assim a noite passa. Rumorosos
Susurram os pinhaes meditativos,
Encostados ás grades, os captivos
Olham o céo e choram silenciosos.
| Os vencidos por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Tres cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.
Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.
A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com mão potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.
E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz n'um soluço: «Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!
Com largo vôo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.
Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!
A flor rubra e olorosa da paixão
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.
Irmãos, amei — amei e fui amado...
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.»
Responde-lhe o segundo cavaleiro,
Com sorriso de tragica amargura:
«Amei os homens e sonhei ventura,
Pela justiça heroica, ao mundo inteiro.
Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças opprimidas,
Fi-las surgir, como um clarim fremente.
Quando ha de vir o dia da justiça?
Quando ha de vir o dia do resgate?
Trahio-me o gladio em meio do combate
E semeei na areia movediça!
As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como em leito de purpura real.
Irmãos, amei os homens e contente
Por eles combati, com mente justa...
Por isso morro á mingoa e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, inglóriamente.»
Diz então o terceiro cavaleiro:
«Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro
Invoquei-a nas horas affrontosas
Em que o mal e o peccado dão assalto.
Procurei-o, com ancia e sobresalto,
Sondando mil sciencias duvidosas.
Que vento de ruina bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrosanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céo, frios e escuros!
Vacila o sol e os santos desesperam...
Tedio reçuma a luz dos dias vãos...
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!
Irmãos, amei a Deus, com fé profunda...
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.»
E os três, unindo a voz n'um ai supremo,
E deixando pender as mãos cançadas
Sobre as armas inuteis e quebradas,
N'um gesto inerte de abandono extremo,
Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidavel,
Sumiram-se na selva impenetravel
E no palor da noite silenciosa.
| Entre sombras por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim
— A noite desce, desfolhando as rosas —
Vem ter commigo, ás horas duvidosas,
Uma visão, com azas de setim...
Pousa de leve a delicada mão
— Rescende amena a noite socegada —
Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração...
E diz-me essa visão compadecida
— Ha suspiros no espaço vaporoso —
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?
Vem commigo! Embalado nos meus braços
— Na noite funda ha um silencio santo —
N'um sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços...
Porque eu habito a região distante
— A noite exhala uma doçura infinda —
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante...
Habito ali, e tu virás commigo
— Palpita a noite n'um clarão que offusca —
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alivio, pobre amigo...
Assim me fala essa visão nocturna
— No vago espaço ha vozes dolorosas —
São as suas palavras carinhosas
Agua correndo em crystalina urna...
Mas eu escuto-a immovel, somnolento
— A noite verte um desconsolo immenso —
Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento...
Fito-a, n'um pasmo doloroso absorto
— A noite é erma como campa enorme —
Fito-a com olhos turvos de quem dorme
E respondo: Bem sabes que estou morto!
| Hino da manhã por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no céo, pura e vibrante,
E enche de força o coração triumphante
Dos que ainda esperam, luz immaculada!
Mas a mim pões-me tu tristeza immensa
No desolado coração. Mais quero
A noite negra, irmã do desespero,
A noite solitaria, immovel, densa,
O vacuo mudo, onde astro não palpita,
Nem ave canta, nem susurra o vento,
E adormece o proprio pensamento,
Do que a luz matinal... a luz bemdita!
Porque a noite é a imagem do Não-Ser,
Imagem do repouso inalteravel
E do esquecimento inviolavel,
Que anceia o mundo, farto de soffrer...
Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento.
E olvida, como quem está já morto...
E, interrogando intrepido o Destino,
Como reu o renega e o condemna,
E virando-se, fita em paz serena
O vacuo augusto, placido e divino...
Porque a noite é a imagem da Verdade,
Que está além das cousas transitorias.
Das paixões e das formas ilusorias,
Onde sómente ha dor e falsidade...
Mas tu, radiante luz, luz gloriosa,
De que és symbolo tu? do eterno engano,
Que envolve o mundo e o coração humano
Em rede de mil malhas, mysteriosa!
Symbolo, sim, da universal traição,
D'uma promessa sempre renovada
E sempre e eternamente perjurada,
Tu, mãe da Vida e mãe da Ilusão...
Outros estendam para ti as mãos,
Supplicantes, com fé, com esperança...
Ponham outros seu bem, sua confiança
Nas promessas e a luz dos dias vãos...
Eu não! Ao ver-te, penso: Que agonia
E que tortura ainda não provada
Hoje me ensinará esta alvorada?
E digo: Porque nasce mais um dia?
Antes tu nunca fosses, luz formosa!
Antes nunca existisses! e o Universo
Ficasse inerte e eternamente immerso
Do possivel na nevoa duvidosa!
O que trazes ao mundo em cada aurora?
O sentimento só, só a consciencia,
D'uma eterna, incuravel impotencia,
Do insaciavel desejo, que o devora!
De que são feitos os mais belos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? de ilusões, de dores,
De miserias, de maguas, de agonias!
O sol, inexoravel semeador,
Sem jamais se cançar, percorre o espaço,
E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes innumeras da Dor!
Oh! como cresce, sob a luz ardente,
A seara maldita! como treme
Sob os ventos da vida e como geme
N'um susurro monotono e plangente!
E cresce e alastra, em ondas voluptuosas,
Em ondas de cruel fecundidade,
Com a força e a subtil tenacidade
Invencivel das plantas venenosas!
De podridões antigas se alimenta,
Da antiga podridão do chão fatal...
Uma fragrancia morbida, mortal
Lhe reçuma da seiva peçonhenta...
E é esse aroma languido e profundo,
Feito de seducções vagas, magneticas,
De ardor carnal e de attracções poeticas,
É esse aroma que envenena o mundo!
Como um clarim soando pelos montes,
A aurora acorda, placida e inflexivel,
As miserias da terra: e a hoste horrivel,
Enchendo de clamor e horisontes.
Torva, cega, colerica, faminta,
Surge mais uma vez e arma-se á pressa
Para o bruto combate, que não cessa,
Onde é vencida sempre e nunca extincta!
Quantos erguem n'esta hora, com esforço,
Para a luz matinal as armas novas,
Pedindo a lucta e as formidaveis provas,
Alegres e crueis e sem remorso,
Que esta tarde ha-de ver, no duro chão
Cahidos e sangrentos, vomitando
Contra o céo, com o sangue miserando,
Uma extrema e importante imprecação!
Quantos tambem, de pé, mas esquecidos,
Ha-de a noite encontrar, sós e encostados
A algum marco, chorando aniquilados
As lagrimas caladas dos vencidos!
E porque? para que? para que os chamas,
Serena luz, ó luz inexoravel,
Á vida incerta e á lucta inexpiavel,
Com as falsas visões, com que os inflamas?
Para serem o brinco d'um só dia
Na mão indifferente do Destino...
Clarão de fogo-fatuo repentino,
Cruzando entre o nascer e a agonia...
Para serem, no páramo enfadonho,
Á luz de astros malignos e enganosos,
Como um bando de espectros lastimosos,
Como sombras correndo atraz d'um sonho...
Oh! não! luz gloriosa e triumphante!
Sacode embora o encanto e as seducções,
Sobre mim, do teu manto de ilusões:
A meus olhos, és triste e vacilante...
A meus olhos, és baça e luctuosa
E amarga ao coração, ó luz do dia,
Como tocha esquecida que alumia
Vagamente uma crypta monstruosa...
Surges em vão, e em vão, por toda a parte,
Me envolves, me penetras, com amor...
Causas-me espanto a mim, causas-me horror,
E não te posso amar — não quero amar-te!
Symbolo da Mentira universal,
Da apparencia das cousas fugitivas,
Que esconde, nas moventes perspectivas,
Sob o eterno sorriso o eterno Mal,
Symbolo da Ilusão, que do infinito
Fez surgir o Universo, já marcado
Para a dor, para o mal, para o peccado,
Symbolo da existencia, sê maldito!
| A fada negra por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Uma velha de olhar mudo e frio,
De olhos sem cor, de lábios glaciais,
Tomou-me nos seus braços sepulerais.
Tomou-me sobre o seio ermo e vazio.
E beijou-me em silêncio, longamente,
Longamente me uniu à face fria...
Oh! como a minha alma se estorcia
Sob os seus beijos, dolorosamente!
Onde os lábios pousou, a carne logo
Mirrou-se e encaneceu-se-me o cabelo,
Meus ossos confrangeram-se. O gelo
Do seu bafo secava mais que o fogo.
Com seu olhar sem cor, que me fitava,
A Fada negra me qualhou o sangue.
Dentro em meu coração inerte e exangue
Um silêncio de morte se engolfava.
E volvendo em redor olhos absortos,
O mundo pareceu-me uma visão,
Um grande mar de nevoa, de ilusão,
E a luz do sol como um luar de mortos...
Como o espectro d'um mundo já defunto,
Um farrapo de mundo, nevoento,
Ruina aerea que sacode o vento,
Sem cor, sem consistencia, sem conjunto...
E quanto adora quem adora o mundo,
Brilho e ventura, esperar, sorrir,
Eu vi tudo oscilar, pender, cair,
Inerte e já da cor d'um moribundo.
Dentro em meu coração, n'esse momento,
Fez-se um buraco enorme — e n'esse abismo
Senti ruir não sei que cataclismo,
Como um universal desabamento...
Razão! velha de olhar agudo e cru
E de halito mortal mais do que a peste!
Pelo beijo de gelo que me deste,
Fada negra, bemdita sejas tu!
Bendita sejas tu pela agonia
E o luto funeral d'aquela hora
Em que eu vi baquear quanto se adora,
Vi de que noite é feita a luz do dia!
Pelo pranto e as torturas benfazejas
Do desengano... pela paz austera
D'um morto coração, que nada espera,
Nem deseja tambem... bendita sejas!
1860 — 1862
| Ignoto deo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Que beleza mortal se te assemelha,
Ó sonhada visão d'esta alma ardente,
Que reflectes em mim teu brilho ingente,
Lá como sobre o mar o sol se espelha?
O mundo é grande — e esta ancia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu, pobre crente,
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...
Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos...
Pura essencia das lagrimas que chóro
E sonho dos meus sonhos! se és verdade,
Descobre-te, visão, ao céo ao menos!
| Lamento por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Um diluvio de luz cae da montanha:
Eis o dia! eis o sol! o esposo amado!
Onde ha por toda a terra um só cuidado
Que não dissipe a luz que o mundo banha?
Flor a custo medrada em erma penha,
Revolto mar ou golfo congelado,
Aonde ha ser de Deus tão olvidado
Para quem paz e alivio o céo não tenha?
Deus é Pae! Pae de toda a creatura:
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre é lembrado...
Ah! se Deus a seus filhos dá ventura
N'esta hora santa... e eu só posso ser triste...
Serei filho, mas filho abandonado!
| Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
A M. C.
Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
O que fada o poeta e o soldado
Volveu a ti o olhar, de amor velado,
E disse-te: «vae, filha, sê formosa!»
E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste n'este solo angustiado,
Estrela envolta n'um clarão sagrado,
Do teu limpido olhar na luz radiosa...
Mas eu... posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! Deu-te o Senhor um mundo á parte.
E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais... a mim o que me ha dado?
Voz, que te cante, e uma alma para amar-te!
| A Santos Valente por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Estreita é do prazer na vida a taça:
Largo, como o oceano é largo e fundo,
E como ele em venturas infecundo,
O cális amargoso da desgraça.
E contudo nossa alma, quando passa
incerta peregrina, pelo mundo,
Prazer só pede à vida, amor fecundo,
É com essa esperança que se abraça.
É lei de Deus este aspirar imenso...
E contudo a ilusão impoz à vida.
E manda buscar luz e dá-nos treva!
Ah! se Deus acendeu um foco intenso
De amor e dor em nós, na ardente lida,
Porque a miragem cria... ou porque a leva?
| Tormanto do Ideal por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a côr, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à fórma, em vão, a idea pura,
Tropéço, em sombras, na materia dura.
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o baptismo dos poetas,
E assentado entre as fórmas incompletas
Para sempre fiquei palido e triste.
| Aspiração por Antero de Quental |
| Poema publicado em autor=Os sonetos completos de Antero de Quental |
Meus dias vão correndo vagarosos
Sem prazer e sem dor, e até parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gosos.
Minh'alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém do presentir dá-me a certeza.
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
| Se comparo poder ou ouro ou fama por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
A Florido Teles
Se comparo poder ou ouro ou fama,
Venturas que em si têm occulto o damno,
Com aquele outro affecto soberano,
Que amor se diz e é luz de pura chama,
Vejo que são bem como arteira dama,
Que sob honesto riso esconde o engano,
E o que as segue, como homem leviano
Que por um vão prazer deixa quem ama.
Nasce do orgulho aquele esteril goso
E a glória d'ele é cousa fraudulenta,
Como quem na vaidade tem a palma:
Tem na paixão seu brilho mais formoso
E das paixões tambem some-o a tormenta...
Mas a glória do amor... essa vem d'alma!
| Psalmo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Esperemos em Deus! Ele ha tomado
Em suas mãos a massa inerte e fria
Da materia impotente e, n'um só dia,
Luz, movimento, acção, tudo lhe ha dado.
Ele, ao mais pobre de alma, ha tributado
Desvelo e amor: ele conduz á via
Segura quem lhe foge e se extravia,
Quem pela noite andava desgarrado.
E a mim, que aspiro a ele, a mim, que o amo,
Que anceio por mais vida e maior brilho.
Ha-de negar-me o termo d'este anceio?
Buscou quem o não quiz; e a mim, que o chamo,
Ha-de fugir-me, como a ingrato filho?
Ó Deus, meu pae e abrigo! espero!... eu creio!
| No céu, se existe um céu para quem chora por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
A M.C.
No céo, se existe um céo para quem chora.
Céo, para as magoas de quem soffre tanto...
Se é lá do amor o foco, puro e santo,
Chama que brilha, mas que não devora...
No céo, se uma alma n'esse espaço mora.
Que a prece escuta e encharga o nosso pranto...
Se ha Pae, que estenda sobre nós o manto
Do amor piedoso... que eu não sinto agora...
No céo, ó virgem! findarão meus males:
Hei-de lá renascer, eu que pareço
Aqui ter só nascido para dôres.
Ali, ó lyrio dos celestes vales!
Tendo seu fim, terão o seu começo.
Para não mais findar, nossos amores.
| A João de Deus por Antero de Quental |
Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;
É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.
O que há de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida;
Se procura, só acha... o desatino!
Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degrêdo, o céu destino.
| Só! - Ao ermita sozinho na montanha por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
A Alberto Teles
Só! — Ao ermita sósinho na montanha
Visita-o Deus e dá-lhe confiança:
No mar, o nauta, que o tufão balança,
Espera um sopro amigo que o céo tenha...
Só! — Mas quem se assentou em riba estranha,
Longe dos seus, lá tem inda a lembrança:
E Deus deixa-lhe ao menos a esperança
Ao que á noite soluça em erma penha...
Só! — Não o é quem na dor, quem nos cançaços,
Tem um laço que o prenda a este fadario.
Uma crença, um desejo... e inda um cuidado...
Mas cruzar, com desdem, inertes braços,
Mas passar, entre turbas, solitario,
Isto é ser só, é ser abandonado!
| Sempre o futuro, sempre! e o presente por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
A J. Felix dos Santos
Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!
Ai! que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega... é presente... e só á dor assiste?...
Assim, qual é a esperança que não mente?
Desventura ou delirio?... O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, peor, espectro impuro...
Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.
| Por que descrês, mulher, do amor, da vida? por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
A M. C.
Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvario?
Porque deixas que, aos poucos, do sudario
Te aperte o seio a dobra humedecida?
Que visão te fugio, que assim perdida
Buscas em vão n'este ermo solitario?
Que signo obscuro de cruel fadario
Te faz trazer a fronte ao chão pendida?
Nenhum! intacto o bem em ti assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura;
Bençãos te manda o céo em cada hora.
E descrês do viver?... E eu, pobre e triste,
Que só no teu olhar leio a ventura,
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?
| Não me fales de glória: é outro o altar por Antero de Quental |
| Poema publicado em autor=Os sonetos completos de Antero de Quental |
A Alberto Sampaio
Não me fales de glória: é outro o altar
Onde queimo piedoso o meu incenso,
E animado de fogo mais intenso,
De fé mais viva, vou sacrificar.
A glória! pois que ha n'ela que adorar?
Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso...
Que vislumbre nos dá do amor immenso?
Esse amor que ventura faz gosar?
Ha outro mais perfeito, unico eterno,
Farol sobre ondas tormentosas firme,
De immoto brilho, poderoso e terno...
Só esse hei-de buscar, e confundir-me
Na essencia do amor puro, sempiterno...
Quero só n'esse fogo consumir-me!
| A Germano Meireles por Antero de Quental |
Só males são reais, só dor existe:
Prazeres só os gera a fantasia;
Em nada[, um] imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.
Se buscamos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos num bem, que a mente cria,
Que outro remédio há [aí] senão ser triste?
Oh! Quem tanto pudera que passasse
A vida em sonhos só. E nada vira...
Mas, no que se não vê, labor perdido!
Quem fora tão ditoso que olvidasse...
Mas nem seu mal com ele então dormira,
Que sempre o mal pior é ter nascido!
| Não busco n'esta vida glória ou fama por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
A M. C.
Não busco n'esta vida glória ou fama:
Das turbas que me importa o vão ruído?
Hoje, deus... e amanhã, já esquecido
Como esquece o clarão de extincta chama!
Foco incerto, que a luz já mal derrama,
Tal é essa ventura: eccho perdido,
Quanto mais se chamou, mais escondido
Ficou inerte e mudo á voz que o chama.
D'essa coroa é cada flor um engano,
É miragem em nuvem ilusoria,
É mote vão de fabuloso arcano.
Mas coroa-me tu: na fronte inglória
Cinge-me tu o louro soberano...
Verás, verás então se amo essa glória!
| Ad amicos por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Em vão lutamos. Como névoa baça,
A incerteza das coisas nos envolve.
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas próprias redes se embaraça.
O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvae e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do Amor, nossa alma é como um hino
À luz, à liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um presentir divino;
Mas n'um deserto só, árido e fundo,
Ecoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassível sobre o mundo.
| A um crucifixo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!
Por que morreu sem eco, o eco de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojáras de nova á campa os membros lassos...
Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...
E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar — de que servio o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? —
| Desesperança por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Vai-te na aza negra da desgraça,
Pensamento de amor, sombra d'uma hora,
Que abracei com delírio, vai-te, embora,
Como nuvem que o vento impele... e passa.
Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora
D'essa alma o sangue, com que vigora,
Como amigo comungue á mesma taça!
Que seja sonho apenas a esperança,
Enquanto a dor eternamente assiste.
E só engano nunca a desventura!
Se era silêncio sofrer fora vingança!..
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,
Talvez sem esperança haja ventura!
| Beatriz por Humberto de Campos |
Bandeirante a sonhar com pedrarias
Com tesouros e minas fabulosas,
Do amor entrei, por ínvias e sombrias
Estradas, as florestas tenebrosas.
Tive sonhos de louco, à Fernão Dias...
Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
Selvas, o outro encontrei, e o ônix, e as frias
Turquesas, e esmeraldas luminosas...
E por eles passei. Vivi sete anos
Na floresta sem fim. Senti ressábios
De amarguras, de dor, de desenganos.
Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
Com o rubi palpitante dos seus lábios
E os dois grandes topázios dos seus olhos!
| Amor vivo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Amar! mas d'um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delirios e desejos
D'uma douda cabeça escandecida...
Amor que vive e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser — e não só beijos
Dados no ar — delírios e desejos —
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipa-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol á chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra débeis amores... se têm vida?
| Visita por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Adornou o meu quarto a flor do cardo,
Perfumei-o de almiscar recendente;
Vesti-me com a purpura fulgente,
Ensaiando meus cantos, como um bardo;
Ungi as mãos e a face com o nardo
Crescido nos jardins do Oriente,
A receber com pompa, dignamente,
Mysteriosa visita a quem aguardo.
Mas que filha de reis, que anjo ou que fada
Era essa que assim a mim descia,
Do meu casebre á humida pousada?...
Nem princezas, nem fadas. Era, flor,
Era a tua lembrança que batia
Ás portas de ouro e luz do meu amor!
| Pequenina por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Eu bem sei que te chamam pequenina
E tenue como o véo solto na dança,
Que és no juizo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina...
Que és o regato de agua mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cança,
A fronte que ao soffrer logo se inclina...
Mas, filha, lá nos montes onde andei,
Tanto me enchi de angustia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecchos,
Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E subditos, criança, em teus bonecos!
| A Sulamisa por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Ego dormio, et cor meum vigilat. CANTICO DOS CANTICOS.
Quem anda lá por fora, pela vinha
Na sombra do luar meio cacoberto,
Sutil nos passos e espreitando incerto,
Com brando respirar de criancinha?
Um sonho me acordou... não sei que tinha...
Pareceu-me senti-lo aqui tão perto...
Seja alta noite, seja n'um deserto,
Quem ama até em sonhos adivinha...
Moças da minha terra, ao meu amado
Correi, dizei-lhe que eu dormia agora,
Mas que póde ir contente e descançado,
Pois se tão cedo adormeci, conforme
É meu costume, olhae, dormia embora,
Porque o meu coração é que não dorme...
| Sonho oriental por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsamica e fulgente
E a lua cheia sobre as aguas brilha...
O aroma da magnolia e da baunilha
Paira no ar diaphano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...
E emquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto n'um scismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descanças debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
| Quinze anos por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Eu amo a vasta sombra das montanhas,
Que estendem sobre os largos continentes
Os seus braços de rocha negra, ingentes,
Bem como braços colossaes aranhas.
D'ali o nosso olhar vê tão estranhas
Cousas, por esse céo! e tão ardentes
Visões, lá n'esse mar de ondas trementes!
E ás estrelas, d'ali, vê-as tamanhas!
Amo a grandeza mysteriosa e vasta...
A grande idea, como a flor e o viço
Da arvore colossal que nos domina...
Mas tu, criança, sê tu boa... e basta:
Sabe amar e sorrir... é pouco isso?
Mas a ti só te quero pequenina!
| Idílio por Antero de Quental |
Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;
Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:
Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces
O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
| Noturno (Antero de Quental) por Antero de Quental |
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
| Sonho (Antero de Quental) por Antero de Quental |
Sonhei - nem sempre o sonho é coisa vã -
Que um vento me levava arrebatado,
Através desse espaço constelado
Onde uma aurora eterna ri louçã...
As estrelas, que guardam a manhã,
Ao verem-me passar triste e calado,
Olhavam-me e diziam com cuidado:
Onde está, pobre amigo, a nossa irmã?
Mas eu baixava os olhos, receoso
Que traíssem as grandes mágoas minhas,
E passava furtivo e silencioso,
Nem ousava contar-lhes, às estrelas,
Contar às tuas puras irmãzinhas
Quanto és falsa, meu bem, e indigna delas!
| Amaritudo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Só por ti, astro ainda e sempre oculto,
Sombra do Amor e sonho da Verdade,
Divago eu pelo mundo e em anciedade
Meu próprio coração em mim sepulto.
De templo em templo, em vão, levo o meu culto,
Levo as flores d'uma íntima piedade.
Vejo os votos da minha mocidade
Receberem somente escárneo e insulto.
À beira do caminho me assentei...
Escutarei passar o agreste vento,
Exclamando: assim passe quando amei! —
Oh minh'alma, que creste na virtude!
O que será velhice e desalento,
Se isto se chama aurora e juventude?
| Abnegação por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Chovam lírios e rosas no teu colo!
Chovam hínos de glória na tua alma!
Hinos de glória e adoração e calma,
Meu amor, minha pomba e meu consolo!
Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!
E nem sequer te lembres de que eu choro...
Esquece até, esquece, que te adoro...
E ao passares por mim, sem que me olhes,
Possam das minhas lágrimas cruéis
Nascer sob os teus pés flores fiéis,
Que pises distraida ou rindo esfolhes!
| Aparição por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Um dia, meu amor (e talvez cedo,
Que já sinto estalar-me o coração!)
Recordarás com dor e compaixão
As ternas juras que te fiz a medo...
Então, da casta alcova no segredo,
Da lamparina ao tremulo clarão,
Ante ti surgirei, espectro vão,
Larva fugida ao sepulcral degredo...
E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos
E afflictos ais, estenderás os braços
Tentando segurar-te aos meus vestidos...
— «Ouve! espera!» — Mas eu, sem te escutar,
Fugirei, como um sonho, aos teus abraços
E como fumo sumir-me-hei no ar!
| Acordando por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta
Este meu vão sofrer; esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céu a minh'alma sobe e canta.
Canta a luz, a alvorada, a estrela santa,
Que ao mundo traz piedosa mais um dia...
Canta o enlevo das cousas, a alegria
Que as penetra de amor e as alevanta...
Mas, de repente, um vento humido e frio
Sopra sobre o meu sonho: um calafrio
Me acorda. — A noite é negra e muda: a dor
Cá vela, como d'antes, ao meu lado...
Os meus cantos de luz, anjo adorado,
São sonho só, e sonho o meu amor!
| Mãe... por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Mãe — que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas ate o fio
Do meu pobre existir, meio partido...
Que me leve comsigo, adormecido,
Ao passar pelo sitio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...
Eu dava o meu orgulho de homem — dava
Minha esteril sciencia, sem receio,
E em debil criancinha me tornava.
Descuidada, feliz, docil tambem,
Se eu podesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!
| Na capela por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Na capela, perdida entre a folhagem,
O Christo, lá no fundo, agonisava...
Oh! como intimamente se casava
Com minha dor a dor d'aquela imagem!
Filhos ambos do amor, igual miragem
Nos roçou pela fronte, que escaldava...
Igual traição, que o affecto mascarava,
Nos deu supplicio ás mãos da vilanagem...
E agora, ali, em quanto da floresta
A sombra se infiltrava lenta e mesta,
Vencidos ambos, martyres do Fado,
Fitavamo-nos mudos — dor igual! —
Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual
Mais palido, mais triste e mais cançado...
| Velut Umbra por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Fumo e scismo. Os castelos do horizonte
Erguem-se, á tarde, e crescem, de mil cores,
E ora espalham no céo vivos ardores,
Ora fumam, vulcões de estranho monte...
Depois, que formas vagas vêm defronte,
Que parecem sonhar loucos amores?
Almas que vão, por entre luz e horrores,
Passando a barca d'esse aereo Acheronte...
Apago o meu charuto quando apagas
Teu facho, oh sol... ficamos todos sós...
É n'esta solidão que me consumo!
Oh nuvens do Occidente, oh cousas vagas,
Bem vos entendo a cor, pois, como a vós,
Beleza e altura se me vão em fumo!
| Mea culpa por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.
Não chamo a Deus tyranno, nem me queixo,
Nem chamo ao céo da vida noite fria;
Não chamo á existencia hora sombria;
Acaso, á ordem; nem á lei desleixo.
A Natureza é minha mãe ainda...
É minha mãe... Ah, se eu á face linda
Não sei sorrir: se estou desesperado;
Se nada ha que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza...
É de crer que só eu seja o culpado!
| O Palácio da Ventura por Antero de Quental |
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
| Jura por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Pelas rugas da fronte que medita...
Pelo olhar que interroga — e não vê nada...
Pela miseria e pela mão gelada
Que apaga a estrela que nossa alma fita...
Pelo estertor da chama que crepita
No ultimo arranco d'uma luz minguada...
Pelo grito feroz da abandonada
Que um momento de amante fez maldita...
Por quanto ha de fatal, que quanto ha mixto
De sombra e de pavor sob uma lousa...
Oh pomba meiga, pomba de esperança!
Eu t'o juro, menina, tenho visto
Cousas terriveis — mas jamais vi cousa
Mais feroz do que um riso de criança!
| Ideal por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Aquela, que eu adoro, não é feita
De lyrios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas languidas, divinas
Da antiga Venus de cintura estreita...
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortaes entre ruinas,
Nem a Amazona, que se agarra ás crinas
D'um corcel e combate satisfeita...
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...
É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpavel do Desejo...
| Enquanto outros combatem por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Empunhasse eu a espada dos valentes!
Impelisse-me a acção, embriagado,
Por esses campos onde a Morte e o Fado
Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!
Respirariam meus pulmões contentes
O ar de fogo do circo ensanguentado...
Ou cahira radioso, amortalhado
Na fulva luz dos gladios reluzentes!
Já não veria dissipar-se a aurora
De meus inuteis annos, sem uma hora
Viver mais que de sonhos e anciedade!
Já não veria em minhas mãos piedosas
Desfolhar-se, uma a uma, as tristes rosas
D'esta palida e esteril mocidade!
| Despondency por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as azas partidas a levaram...
Deixá-la ir, a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgio da imensidade,
Quando os ventos do Sul levantaram...
Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, á morte silenciosa...
Deixá-la ir, a nota desprendida
D'um canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... Deixá-la ir, a vida!
| Das Unnennbare por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Oh chimera, que passas embalada
Na onda de meus sonhos dolorosos,
E roças co'os vestidos vaporosos
A minha fronte pálida e cançada!
Leva-te o ar da noite socegada...
Pergunto em vão, com olhos anciosos,
Que nome é que te dão os venturosos
No teu paiz, misteriosa fada!
Mas que destino o meu! e que luz baça
A d'esta aurora, igual á do sol posto,
Quando só nuvem lívida esvoaça!
Que nem a noite uma ilusão consinta!
Que só de longe e em sonhos te presinta...
E nem em sonhos possa ver-te o rosto!
| Metempsicose por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Ausentes filhas do prazer: dizei-me!
Vossos sonhos quaes são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
Do que fostes, em vós se agita e freme?
N'outra vida e outra esphera, aonde geme
Outro vento, e se accende um outro dia,
Que corpo tinheis? que materia fria
Vossa alma incendiou, com fogo estreme?
Vós fostes nas florestas bravas feras,
Arrastando, leôas ou pantheras,
De dentadas de amor um corpo exangue...
Mordei pois esta carne palpitante,
Feras feitas de gaze fluctuante...
Lobas! leôas! sim, bebei meu sangue!
| Uma Amiga por Antero de Quental |
Aqueles que eu amei, nao sei que vento
Os dispersou no mundo, que os nao vejo...
Estendo os bracos e nas trevas beijo
Visoes que a noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que tem pejo
Da minha soledade e abatimento!
Daquela primavera venturosa
Nao resta uma flor so, uma so rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu so foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnece-lo!
| A uma mulher por Antero de Quental |
| Poema publicado em autor=Os sonetos completos de Antero de Quental |
Para tristezas, para dor nasceste.
Podia a sorte por-te o berço estreito
N'algum palácio e ao pé de régio leito,
Em vez d'este areal onde cresceste:
Podia abrir-te as flores — com que veste
As ricas e as felizes — n'esse peito:
Fazer-te... o que a Fortuna ha sempre feito...
Terias sempre a sorte que tiveste!
Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos,
Que não são d'este mundo e onde eu leio
Uns mistérios tão tristes e infinitos,
Tua voz rara e esse ar vago e esquecido,
Tudo me diz a mim, e assim o creio,
Que para isto só tinhas nascido!
| Voz do Outomno por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Ouve tu, meu cançado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
— «Mais te valera, nú e sem defeza,
Ter nascido em asperrima soidão,
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel
deveza, Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!
Mais valera á tua alma visionaria
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia,
(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com odio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideaes que tu sonhaste!» —
| Sepultura romântica por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Ali, onde o mar quebra, n'um cachão
Rugidor e monotono, e os ventos
Erguem pelo areal os seus lamentos,
Ali se ha-de enterrar meu coração.
Queimem-no os sóes da adusta solidão
Na fornalha do estio, em dias lentos;
Depois, no inverno, os sopros violentos
Lhe revolvam em torno o arido chão...
Até que se desfaça e, já tornado
Em impalpavel pó, seja levado
Nos turbilhões que o vento levantar...
Com suas luctas, seu cançado anceio,
Seu louco amor, dissolva-se no seio
D'esse infecundo, d'esse amargo mar!
1864 — 1874
| A idéia por Antero de Quental |
| Poema publicado em autor=Os sonetos completos de Antero de Quental |
I
Pois que os deuses antigos e os antigos
Divinos sonhos por esse ar se somem,
E á luz do altar da fé, em Templo ou Dolmen,
A apagaram os ventos inimigos;
Pois que o Sinai se enubla e os seus pacigos,
Secos à mingua de água, se consomem,
E os profetas d'outrora todos dormem
Esquecidos, em terra sem abrigos;
Pois que o céu se fechou e já não desce
Na escada de Jacob (na de Jesus!)
Um só anjo, que aceite a nossa prece;
É que o lírio da Fé já não renasce:
Deus tapou com a mão a sua luz
E ante os homens velou a sua face!
II
Pálido Cristo, oh condutor divino!
A custo agora a tua mão tão doce
Incerta nos conduz, como se fosse
Teu grande coração perdendo o tino...
A palavra sagrada do Destino
Na boca dos oraculos secou-se:
A luz da sarça ardente dissipou-se
Ante os olhos do vago peregrino!
Ante os olhos dos homens — porque o mundo
Desprendido rolou das mãos de Deus,
Como uma cruz das mãos d'um moribundo!
Porque já se não lê seu nome escrito
Entre os astros... e os astros, como ateus,
Já não querem mais lei que o infinito!
III
Força é pois ir buscar outro caminho!
Lançar o arco de outra nova ponte
Por onde a alma passe — e um alto monte
Aonde se abre á luz o nosso ninho.
Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! é largo, imenso esse horizonte...
Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,
E em toda a parte ha luz, vida e carinho!
Avante! os mortos ficarão sepultos...
Mas os vivos que sigam, sacudindo
Como o pó da estrada os velhos cultos!
Doce e brando era o seio de Jesus...
Que importa? havemos de passar, seguindo,
Se além do seio d'ele houver mais luz!
IV
Conquista pois sósinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado,
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem — proscrito rei — mendigo escuro!
Se não tens que esperar do céo (tão puro,
Mas tão cruel!) e o coração magoado
Sentes já de ilusões desenganado,
Das ilusões do antigo amor perjuro:
Ergue-te, então, na magestade estoica
D'uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heroica!
Faze um templo dos muros da cadeia,
Prendendo a imensidade eterna e viva
No círculo de luz da tua Idéia!
V
Mas a Idéia quem é? quem foi que a viu,
Jamais, a essa encoberta peregrina?
Quem lhe beijou a sua mão divina?
Com seu olhar de amor quem se vestiu?
Pálida imagem, que a água de algum rio,
Refletindo, levou... incerta e fina
Luz, que mal bruxulêa pequenina...
Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio...
Estendei, estendei-lhe os vossos braços,
Magros da febre d'um sonhar profundo,
Vós todos que a seguis n'esses espaços!
E entanto, oh alma triste, alma chorosa,
Tu não tens outra amante em todo o mundo
Mais que essa fria virgem desdenhosa!
VI
Outra amante não ha! não ha na vida
Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,
Nem balsamo mais doce, que adormeça
Em nós a antiga, a secular ferida!
Quer fuja esquiva, ou se ofereça erguida,
Como quem sabe amar e amar confessa,
Quer nas nuvens se esconda ou apareça,
Será sempre ela a esposa prometida!
Nossos desejos para ti, oh fria,
Se erguem, bem como os braços do proscrito
Para as bandas da pátria, noite e dia.
Podes fugir... nossa alma, delirante,
Seguir-te-ha a travéz do infinito,
Até voltar comtigo, triunfante!
VII
Oh! o noivado bárbaro! o noivado
Sublime! aonde os céus, os céus ingentes,
Serão leito de amor, tendo pendentes
Os astros por docel e cortinado!
As bodas do Desejo, embriagado
De ventura, a final! visões ferventes
De quem nos braços vae de ideais ardentes
Por espaços sem termo arrebatado!
Lá, por onde se perde a fantasia
No sonho da beleza: lá, aonde
A noite tem mais luz que o nosso dia;
Lá, no seio da eterna claridade,
Aonde Deus á humana voz responde;
É que te havemos abraçar, Verdade!
VIII
Lá! Mas aonde é lá? — Espera,
Coração indomado! o céu, que anceia
A alma fiel, o céo, o céu da Idéia.
Em vão o buscas n'essa imensa esfera!
O espaço é mudo: a imensidade austera
De balde noite e dia incendeia...
Em nenhum astro, em nenhum sol se alteia
A rosa ideal da eterna primavera!
O Paraíso e o templo da Verdade,
Oh mundos, astros, sóis, constelações!
Nenhum de vós o tem na imensidade...
A Idéia, o sumo Bem, o Verbo, a Essência,
Só se revela aos homens e ás nações
No céo incorruptível da Consciência!
| A um crucifixo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!
Por que morreu sem eco, o eco de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojáras de nova á campa os membros lassos...
Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...
E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar — de que servio o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? —
| Diálogo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
A cruz dizia á terra onde assentava,
Ao vale obscuro, ao monte aspero e mudo:
— Que és tu, abysmo e jaula, aonde tudo
Vive na dor e em lucta cega e brava?
Sempre em trabalho, condemnada escrava.
Que fazes tu de grande e bom, comtudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, és só fogo e horrida lava...
Mas a mim não ha alta e livre serra
Que me possa igualar!.. amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!
Sou o espirito, a luz!.. tu és tristeza,
Oh lodo escuro e vil! — Porêm a terra
Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza!
| Mais luz! por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
(A Guilherme de Azevedo)
Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossiveis,
E os que inclinam, mudos e impassiveis,
Á borda dos abysmos silenciosos...
Tu, lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis,
Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!
Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.
Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heroes!
| Tese e Antítese por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
I
Já não sei o que vale a nova idea,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, á luz da barricada,
Como bacchante após lubrica ceia...
Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e socegada
Ei-la presa das furias de Medea!
Um seculo irritado e truculento
Chama á epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz...
Mas a idea é n'um mundo inalteravel,
N'um crystalino céo, que vive estavel...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!
II
N'um céo intemerato e crystalino
Póde habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectaculo divino.
Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasphema ou ergue um hymno...
A idea encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos soes!
Combatei pois na terra arida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da lucta,
Té que a fecunde o sangue dos heroes!
| Justitia Mater por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Nas florestas solemnes ha o culto
Da eterna, intima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma captiva,
Do coração, em seu combate inulto:
No espaço constelado passa o vulto
Do innominado Alguem, que os soes aviva:
No mar ouve-se a voz grave e afflictiva
D'um deus que lucta, poderoso e inculto.
Mas nas negras cidades, onde sôlta
Se ergue, de sangue medida, a revolta,
Como incendio que um vento bravo atiça,
Ha mais alta missão, mais alta glória:
O combater, á grande luz da historia,
Os combates eternos da Justiça!
| Palavras d'um certo Morto por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto,
Posto sobre um rochedo, á chuva e ao vento:
Não ha como eu espectro macilento,
Nem mais disforme que eu nenhum aborto...
Só o espirito vive: vela absorto
N'um fixo, inexoravel pensamento:
«Morto, enterrado em vida!» o meu tormento
É isto só... do resto não me importo...
Que vivi sei-o eu bem... mas foi um dia,
Um dia só — no outro, a Idolatria
Deu-me um altar e um culto... ai! adoraram-me.
Como se eu fosse alguem! como se a Vida
Podesse ser alguem! — logo em seguida
Disseram que era um Deus... e amortalharam-me!
| A um poeta (Antero de Quental) por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.
Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...
Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!
Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
| Hino à Razão por Antero de Quental |
Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.
Por ti é que a poeira movediça
De astros, sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
Por ti, na arena trágica, as nações
buscam a liberdade entre clarões;
e os que olham o futuro e cismam, mudos,
Por ti podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
| Homo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Nenhum de vós ao certo me conhece,
Astros do espaço, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece...
Ninguem sabe quem sou... e mais, parece
Que ha dez mil annos já, neste degredo,
Me vê passar o mar, vê-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece...
Sou um parto da Terra monstruoso;
Do humus primitivo e tenebroso
Geração casual, sem pae nem mãe...
Mixto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satanaz; — talvez um filho
Bastardo de Jehovah; — talvez ninguem!
| Disputa em família por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental |
I
Sai das nuvens, levanta a fronte e escuta
O que dizem teus filhos rebelados,
Velho Jeová de longa barba hirsuta,
Solitário em teus Céus acastelados:
« — Cessou o império enfim da força bruta!
Não sofreremos mais, emancipados,
O tirano, de mão tenaz e astuta,
Que mil anos nos trouxe arrebanhados!
Enquanto tu dormias impassível,
Topámos no caminho a liberdade
Que nos sorrio com gesto indefinível...
Já provámos os frutos da verdade...
Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrível.
Não passas d'uma vã banalidade! — »
II
Mas o velho tirano solitário,
De coração austero e endurecido,
Que um dia, de enjoado ou distraido,
Deixou matar seu filho no Calvário,
Sorriu com rir extranho, ouvindo o vario
Tumultuoso côro e alarido
Do povo insipiente, que, atrevido,
Erguia a voz em grita ao seu sacrário:
« — Vanitas vanitatum! (disse). É certo
Que o homem vão medita mil mudanças,
Sem achar mais do que erro e desacerto.
Muito antes de nascerem vossos pais
D'um barro vil, ridículas crianças,
Sabia em tudo isso... e muito mais! — »
| Mors liberatrix por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
(A Bulhão Pato)
Na tua mão, sombrio cavaleiro,
Cavaleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão como um luzeiro.
Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo involto na noite que projectas...
Só o gladio de luz com fulvas betas
Emerge do sinistro nevoeiro.
— «Se esta espada que empunho é coruscante,
(Responde o negro cavaleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.
Firo, mas salvo... Prostro e desbarato,
Mas consólo... Subverto, mas resgato...
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»
| O Inconsciente por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
O Espectro familiar que anda commigo,
Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ancioso espreito e sigo.
É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto...
Ante esse vulto, ascetico e composto
Mil vezes abro a bocca... e nada digo.
Só uma vez ousei interrogal-o:
Quem és (lhe perguntei com grande abalo)
Phantasma a quem odeio e a quem amo?
Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos,
Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos...
Mas eu por mim não sei como me chamo...
| Mors - Amor por Antero de Quental |
Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,
Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?
Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"
| Estoicismo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
(A Manoel Duarte de Almeida)
Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espirito de eterna negação,
Teu halito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras...
Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como n'um sonho mau, só oiço um não,
Que eternamente ecchoa entre as espheras...
— Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Oppor á Sorte a queixa do egoismo...
Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores
A esperança van, seus vãos fulgores...
Sabe tu encarar sereno o abysmo!
| Anima mea por Antero de Quental |
| Poema publicado em autor=Os sonetos completos de Antero de Quental |
Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.
Era de ver a fúnebre bachante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?»
— Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).
Eu não busco o teu corpo... Era um troféu
Glorioso de mais... Busco a tua alma —
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»
| Espiritualismo por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
I
Como um vento de morte e de ruina,
A Duvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de subito, immerso
O mundo em densa e algida neblina.
Nem astro já reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aereo berço.
Um veneno sutil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.
E, no meio da noite monstruosa,
Do silencio glacial, que paira e estende
O seu sudario, d'onde a morte pende,
Só uma flor humilde, mysteriosa,
Como um vago protesto da existencia,
Desabroxa no fundo da Consciencia.
II
Dorme entre os gelos, flor immaculada!
Lucta, pedindo um ultimo clarão
Aos soes que ruem pela immensidão,
Arrastando uma aureola apagada...
Em vão! Do abysmo a bocca escancarada
Chama por ti na gélida amplidão...
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada...
Tu morrerás tambem. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha-de ecchoar, e teu perfume extremo
No vacuo eterno se esvahirá disperso,
Como o alento final d'um moribundo,
Como o ultimo suspiro do Universo.
| O Convertido por Antero de Quental |
Entre os filhos dum século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza...
Mas um dia abalou-se-me a firmeza,
Deu-me um rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!
Amortalhei na Fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
| Espectros por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Espectros que velaes, emquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus somnos curtos e cançados
Me encheis as noites de agonia e susto!...
De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados
Disputar dia a dia á mão dos Fados
Uma parcela do saber augusto,
Se a minh'alma ha-de ver, sobre si fitos,
Sempre esses olhos tragicos, malditos!
Se até dormindo, com angustia immensa,
Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma verter sobre o meu peito
As lagrimas geladas da descrença!
| Á Virgem Santissima por Antero de Quental |
| Poema publicado em Os sonetos completos de Antero de Quental. |
Cheia de Graça, Mãe de Misericordia
N'um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizivel anciedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as ha na natureza...
Um mystico soffrer... uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!
| Nox por Antero de Quental |
Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...
Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,