Arreda que lá vai um vate!

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Arreda que lá vai um vate!
por Luís da Gama
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Poema publicado em Primeiras Trovas Burlescas de Getulino

Quis um pobre sandeu apatetado
Sobre as grimpas guindar-se do Parnaso;
Empunha uma bandurra desmanchada,
E nas ancas se encaixa do Pégaso.

As crinas se aferrando, como doido,
No bandulho do bruto as pernas cerra;
Manquejando na prosa, em verso rengo,
Ufanoso da glória exclama e berra:

Ao Parnaso! Ao Parnaso subir quero!
Sonoroso anafil empunho ousado,
Para a fama elevar do sacrilégio
Com meu fofo bestunto estuporado.

Os gatos mostrarei fugindo aos ratos,
Vistosos frutos em arbusto peco;
Jumentos a voar, touros cantando,
E grandes tubarões nadando em seco!

Espanta-se o cavalo ao som da asneira,
E cuidando em si ter outro que tal,
Com saltos e corcovos desmedidos
O pateta lançou num tremedal.

Todo em lama, o coitado, besuntado,
A bandurra tocou destemperada,
E, por fim do descante, só ficaram
Asneiras e sandices — patacoada.