Artigo de Euclides da Cunha de 19 de março de 1892

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(Artigo de Euclides da Cunha de 19 de março de 1892)
por Euclides da Cunha
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Acabo de ler uma página iluminada de Spencer, em que o eminente evolucionista — como bom filósofo crente na perfectibilidade humana — vaticina uma idade de ouro, durante a qual por um mais dilatado domínio das forças naturais se satisfaçam mais facilmente as necessidades imperiosas da existência e menos assoberbada de trabalhos, tenha afinal a humanidade tempo de aformosear a vida, pela contemplação do belo na natureza e na arte.

O ilustre mestre deixou-se arrebatar demais, pelas tendências profundamente humanas de seu grande espírito.

O stuggle for life, a fórmula majestosa da nossa elevação constante, terá a mesma feição autoritária e fatal, embora atuando entre os deslumbramentos da mais alta civilização.

O grande domínio do homem sobre as forças naturais, a que ele se refere, é ilusório, ante o princípio geral da relatividade.

As forças ou leis descobertas criaram fatalmente a necessidade de outras e a humanidade — se tornando cada vez mais forte, para uma luta cada vez maior — realizará através dos séculos a dolorosa lenda de Ahasverus, subjugada às leis que a impulsionam, com o mesmo fatalismo das que fixam no espaço a órbita dilatada do insignificante planeta que a conduz...

Não descansará. Aproximar-se-á da época sonhada pelos filósofos como as assíntotas do ramo desmesurado das hipérboles — indefinidamente — sem nunca atingi-la.

Decorem-na embora os sábios — os incruentos batalhadores que vão através das inúmeras modalidades da existência geral, em busca da verdade — com a cintilação imperecível das leis descobertas ou com as dádivas preciosas da indústria — cada uma destas conquistas é um estimulante enérgico para outras mais ousadas e difíceis.

O mito de uma época ideal toda de paz e descanso afasta-se à proporção que adquirimos meios de atingi-lo e a moderna civilização européia por exemplo — dista tanto dele quanto a barbaria medieval.

O que se dá — assim de um modo geral, no vasto conjunto humano — evidencia-se ainda mais limpidamente, pela consideração especial de cada sociedade.

Cada uma conquista realizada tem, inevitáveis como corolários, outras, relativamente iguais e realmente mais difíceis.

Pelo que nos diz respeito ascendemos rapidamente, vertiginosamente mesmo, pela reforma social da abolição e pela transformação política da República, a toda a deslumbrante grandeza da civilização atual.

Não é para espantar, pois, a ninguém, que o Governo, por mais sólida que seja a sua vontade e correta a sua postura ante o dever — lute para debelar a crise que nos assaltou e que é no entanto tão natural como fenômeno fisiológico da vertigem, nos que atingem rapidamente as grandes altitudes.

Seria realmente adorável, mas ilógico, que a República feita num quarto de hora de audácia — fizesse de pronto a grande felicidade da pátria e não tivéssemos agora, ameaçadores e constantes partidos da sombra, os brados desses que não foram vistos ontem entre os clarões da batalha.

Todo esse acréscimo de fadigas e trabalhos, que requerem a pertinácia estóica dos crentes e dos fortes, há de entretanto ceder, embora não se extingam com ele os que impõem à República a grandeza dos seus próprios destinos.

Ainda bem que o Governo tem a impassibilidade magnífica de Glauco, ante o referver das ondas estrepitosas de ódios e velhas ambições malogradas, que vão lhe estourar aos pés.

Elas passaram afinal — inofensíveis e estéreis e os tristes cavaleiros andantes da discórdia, que se agitam por aí a braços com os moinhos de vento da tresloucada fantasia, choraram afinal sobre a niilidade dos dias sacrificados a uma agitação infecunda.