As Mulheres de Mantilha/II
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo II) por |
Às duas horas da madrugada do dia 6 de janeiro de 1766, apinhava-se o povo da cidade, que já era capital do Brasil, no pátio do convento da Ajuda. Quatro sociedades de cantatas dos Reis tinham-se encontrado ali, e estreitado jubilosamente seus laços de fraternidade; todas cantaram por sua vez, e de cada vez houve três a aplaudir a que cantara, e todas quatro se fizeram uma só na execução das suas danças; as freiras batiam palmas, e a multidão de curiosos louvava as sociedades, admirava o presepe, e vitoriava as pobres freiras, que estavam das grades a olhar para o mundo, de que se achavam perpétua e desumanamente banidas.
O concurso imenso ostentava no pátio do convento da Ajuda o que havia de mais nobre ou de mais belo e distinto na população da capital. Pouparemos aos leitores deste romance a descrição dos calções e dos sapatos com fivelas, e dos grandes jalecos, casacas e cabeleiras com rabicho dos velhos e dos mancebos elegantes da época; relativamente ao belo sexo limitar-nos-emos a dar uma noticia curiosa às nossas leitoras: as damas elegantes daquele tempo vestiam-se um pouco ou muito à moda da atualidade, calçavam sapatos de saltos de cor à fantasia, como os têm as botinas dos pés mimosos de hoje, traziam vestidos estreitos e como os nesgados de agora e arrastando caudas mais ou menos longas como exatamente se observava há pouco tempo; mas também usavam trazer ricos pendentes às orelhas, e profusão de ouro e pedras preciosas com especialidade no colo e nos dedos cheios de anéis; em muitas a protetora e romanesca mantilha escondia a parte superior do corpo, a cabeça e quase totalmente o rosto; mas no modo de trajá-la e na graça dos movimentos as moças sabiam atraiçoar-se.
Quanto aos dotes físicos das senhoras dava-se o caso de todos os tempos e de todas as cidades grandes ou pequenas, havia feias e bonitas e poucas formosas, mas os belos olhos, a cintura delicada e fina e os pés mimosos tão comuns nas brasileiras faziam-se admirar, como também hoje se admiram. Não se reparava então; agora porém muito se notaria naquela numerosa reunião a falta de variedades de tipos; a razão era simples: o Brasil colônia só se comunicava com a metrópole; não se admitia comércio estrangeiro e por exceção apenas alguma família espanhola se misturava com as famílias portuguesas e brasileiras; mas ainda assim a raça era no fundo a mesma, e os caracteres físicos obedeciam às leis da sua origem natural: umas senhoras eram mais engraçadas, mais esbeltas, mais bonitas do que outras somente por aquele segredo, aliás explicável, que faz com que a mesma árvore, ou o mesmo arbusto, apresente flores mais ou menos defeituosas e mais ou menos perfeitas.
Encantonado em um dos ângulos do pátio estava um grave ancião trajando com a séria elegância dos homens ricos, tendo a seu lado, mas um pouco para trás, uma senhora trazendo rica mantilha e que como ele observava zelosa duas belas meninas de dezoito a vinte anos de idade, vestidas com esmero, sem mantilhas, e unidas uma a outra e com as mãos dadas, como a medo de se separarem embora estivessem entre o ancião e a senhora que as guardavam, sentinelas à vista, cuidando ainda mais delas do que do presepe que já tinham apreciado bastante, e das cantatas e danças que as duas donzelas aplaudiam com inocente encantamento.
O ancião era conhecido de todos e portanto sabiam muitos e adivinharam os outros que a senhora de mantilha era a esposa e as meninas as duas filhas de Jerônimo Lírio, português e rico negociante da praça do Rio de Janeiro. Muito raramente Jerônimo Lírio mostrava a família em público; mas a fama da beleza das filhas corria pela cidade ainda mais porque se ajuntava com a fama, a riqueza do pai, e as duas donzelas tinham recebido de um bem inspirado admirador, uma denominação que foi adotada, e que não podia chamar-se alcunha, porque em suma era o plural do sobrenome de Jerônimo, e tinha alguma coisa de poético; pois lembrava duas flores irmãs: chamavam às duas meninas — os dois lírios.
Muitos amigos tinham cumprimentado Jerônimo e sua família; os velhos gracejaram com as donzelas e lhes ofereceram doces; as moças as saudaram respeitosas, contentando-se com o direito geral de contemplá-las à distância, e sempre com precaução para não ofender o exagerado melindre dos pais.
A despeito das duas desconfiadas sentinelas, grupos de mancebos e mancebos isolados aqui e ali, prestavam aos dois lírios o devido culto à beleza. Jerônimo e sua esposa maldiziam em monossílabos que lhes escapavam, do que lhes parecia atrevida licença de mocidade desmoralizada; como porém suas filhas só tinham olhos para as danças, deixavam-se ficar no pátio.
Mas de súbito pai e mãe estremeceram: entrara no pátio já atopetado de povo um grupo de oficiais militares, à frente dos quais vinha o oficial-de-sala do vice-rei conde da Cunha; Jerônimo Lírio olhou para as duas filhas, como se um abutre se tivesse aproximado do ninho, onde se achavam inocentes e ainda implumes avezinhas; pensou logo em retirar-se, mas o oficial-de-sala do vice-rei avançou para ele, e foi apertar-lhe a mão.
Não havia recurso possível fora de cerimonioso acolhimento; o oficial-de-sala do vice-rei era a cabeça e o braço do violento conde da Cunha; a imediata retirada de Jerônimo poderia parecer ofensa, e a ofensa não ficaria impune; o ancião não teve sorrisos; mas simulou voluntária tolerância, recebendo os cumprimentos do muito respeitoso oficial, que ousava já dirigir olhos ardentes e cobiçosos às duas meninas, quando felizmente para o zeloso pai começou a última parte da folgança pública.
Dez vozes gritaram: — Motes! motes!...
As freiras acudiram ou já estavam às grades; uma delas disse com voz alta e argentina:
— Deus no berço da humildade.
— Ouçamos! exclamou Jerônimo, puxando com força o braço do oficial-de-sala; ouçamos! Eu aposto que é Mariano Antunes que vai improvisar.
O oficial-de-sala cedeu ao puxão e fingiu atender; Mariano Antunes ou outro qualquer mostrou-se na escada do tablado das danças, e bateu palmas.
Silêncio geral. O poeta do outeiro improvisou:
Enquanto os grandes da terra
Ostentando vã nobreza,
Em vaidade sempre acesa
Trazem sempre o mundo em guerra;
Enquanto as nações aterra
De cem reis a potestade,
A celeste majestade
Dos reis o orgulho fulmina,
Mostrando em lição divina
Deus no berço da humildade.
A multidão batia palmas ao poeta.
— Que insolente, murmurou o oficial-de-sala, pondo as mãos no copo da espada; falar dos reis assim!.
— Em comparação com Deus... tolera-se, disse Jerônimo.
Subira ao tablado outro poeta, bateu palmas, e logo disse em voz altissonante.
Foi um poeta infeliz
O que há pouco improvisou;
Outra explicação vos dou
Do que o Evangelho nos diz:
Deus mostrar ao mundo quis
Que às avessas da verdade,
Aviltando a dignidade
O mundo vil vai e vem,
E assim nasceu em Belém
Deus no berço da humildade.
O segundo improvisador foi como o primeiro vivamente vitoriado; acudiram outros poetas, renovaram-se os motes das freiras e as glosas dos poetas do outeiro.
Ainda uma voz de freira proclamou da grade, donde estava olhando e ouvindo:
— Viva o bispo e o vice-rei.
O mote era uma provocação ao desgosto geral do povo; não houve poeta que subisse os degraus do tablado; mas do meio da multidão compacta alguém bateu palmas, e rompendo o silêncio que imediatamente se fez, falou em voz alta, mas fanhosa, e como para disfarçá-la:
Quando em casas e conventos
Prende o bispo as raparigas,
E o vice-rei por intriga
Recruta moços aos centos;
Quando o bispo faz tormentos,
E o vice-rei não tem lei,
Quando o pastor mata a grei
E é todo povo infeliz,
Maldito seja quem diz
— Viva o bispo e o vice-rei!
Estrondosa aclamação vitoriou o poeta; mas o atrevimento insólito deste provocou as fúrias da gente oficial que estava na reunião popular.
O poeta reproduzira em seus rudíssimos versos a opinião e o sentimento de todos, e fora por isso entusiástica e espontaneamente festejado; logo porém o oficial-de-sala desembainhou a espada, e imitado pelos oficiais que o seguiam, um e outros lançaram-se no encalço do revoltado e audacioso improvisador.
A importância oficial do homem que à frente dos seus sequazes se atirava contra o povo em procura do órgão do povo, o susto e o terror das famílias, o movimento da multidão que procurava fugir e que se esmagava no ímpeto da fuga, o choro das crianças, os gritos e clamores das mulheres, os gemidos da gente que se pisava, e de alguns que eram feridos pelas espadas dos agressores, os brados de misericórdia! soltados pelas freiras, o furor de muitos do povo que atiravam pedradas sobre os oficiais que loucamente perturbavam a ordem do divertimento público produziram assustadora confusão, e fizeram recear lamentáveis conseqüências.
No fim de poucos minutos o pátio do convento da Ajuda estava quase deserto; as freiras tinham-se retirado das grades; todo o povo conseguira fugir e o oficial-de-sala do vice-rei conde da Cunha sem ter podido encontrar o poeta revoltador via apenas diante de si e de seus companheiros de prazeres e de orgia uns oito pobres feridos e esmagados que estendidos no chão bradavam por socorro.
— Que faremos destes miseráveis? perguntou ao oficial-de-sala um dos seus sequazes.
— Pois que nenhum deles parece ter sido o poeta que nos escapou, deixemo-los, que há de haver quem deles se ocupe, e vamos acabar a noite, onde nos espera melhor folia.
Os oficiais retiraram-se e quando não se ouviu mais o tinir das bainhas das espadas, seis homens e duas mulheres de mantilha que jaziam por terra foram-se levantando: nenhum deles tinha sofrido ferimento grave, nem contusão que molestasse muito; o mais infeliz tinha recebido um leve golpe na fronte, os outros apenas arranhões sem conseqüência, mas haviam como de concerto gemido e bradado dolorosa e aflitivamente para se verem livres do oficial-de-sala.
Um a um esgueiraram-se os seis homens que nem sequer olharam para as duas mulheres de mantilha; estas porém quando se julgaram sós, levantaram-se também, e depois de observar o pátio, que acharam deserto, disse uma dessas à outra:
— Ah! Guido Vaz! fizeste-la bonita! De que escapamos!... Se nos descobrem, pelo menos éramos expulsos do seminário e tínhamos fardas às costas!
— Mas que inspiração, Manuel Dias! Que décima! Nunca farei outra igual!...
As duas mulheres de mantilha eram dois estudantes do seminário de São José!