As Mulheres de Mantilha/III

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo III)
por Joaquim Manuel de Macedo
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D. Antônio Álvares da Cunha, conde do mesmo titulo, era um varão de costumes rígidos e de caráter severo, honesto, bem intencionado, mas déspota no governo; nomeado primeiro vice-rei do Brasil na capital do Rio de Janeiro trouxe, infelizmente, para o desempenho de tão alto cargo, prevenções contra os negociantes portugueses desta cidade, e vendo por isso em todos e em tudo indícios de oposição e desobediência exagerou o sistema de rigor até a opressão e o despotismo cruel; por maior desdita sua chamou para oficial-de-sala o tenente-coronel do regimento velho, Alexandre Cardoso de Meneses, e dentro em pouco vivamente impressionado pela inteligência, atividade e energia deste, aplaudiu-se na escolha que fizera e depositou no escolhido a mais plena e cega confiança.

Alexandre Cardoso reunia felizes condições para agradar e tornar-se o braço direito do vice-rei: suficientemente instruído e talentoso poupava o conde da Cunha a muito trabalho; infatigável e diligente dava asas à ação do governo; sempre de acordo com o vice-rei, déspota como ele, e fazendo executar todas as suas ordens e resoluções com a prontidão e o rigor que aprendera na disciplina militar, nada deixava a desejar ao chefe do governo da grande colônia; além de tudo isso moço ainda, pois que apenas ia tocar os quarenta anos, muito agradável de feições, tendo elegante figura, graça no falar e nas maneiras, e como belo lavor de tudo isso, bravura natural abrilhantando o dever do soldado, exercia uma espécie de fascinação sobre o velho Conde da Cunha.

O vice-rei tinha dito a si mesmo cem vezes: "tenho o meu homem!"

Pudera antes dizer: "tenho a meu lado um mau gênio".

Alexandre Cardoso era com efeito o mau gênio do conde da Cunha.

Em pouco tempo estudara e conhecera as fraquezas do caráter do seu chefe, que era sobretudo orgulhoso, soberbo e dominador; pôs-lhe de freio as fraquezas e dirigiu-as em seu proveito: adulou sem exageração nas lisonjas, admirou incessantemente a sabedoria de consumado administrador, deu sempre conselhos sem dizer que os dava, nunca pretendeu parecer mais do que submisso e dedicado executor das ordens do vice-rei, e este deixou-se mil vezes arrastar e dominar pelo seu oficial-de-sala sem pensar que o fazia. Alexandre Cardoso abusava em nome do conde da Cunha e o conde da Cunha carregava com a responsabilidade dos abusos.

A fascinação era tão forte que ninguém se animava a queixar-se do oficial-de-sala depois que dez ou vinte exemplos demonstraram que as queixas além de desatendidas eram fundamentos para cruéis perseguições.

Alexandre Cardoso não podia ser perfeito, e julgava-se o melhor dos homens, porque os seus principais senões, a que não chamava vícios, eram três amores que o obrigavam ainda a um quarto amor; amava as mulheres bonitas, amava o luxo, amava o jogo, e por causa das mulheres, do luxo e do jogo, amava o dinheiro.

Os três amores eram exigentes e o soldo de tenente-coronel não os satisfazia; o oficial-de-sala do vice-rei conde da Cunha pôs a justiça e a administração à venda em seu proveito: dava empregos e empreitadas de obras públicas a preço ajustado, como negócio seu; fazia prender e soltar, recrutava e dispensava do serviço militar, ameaçava e anulava a ameaça a troco de favores pecuniários, explorava enfim o governo de que era oficial, centuplicando os lucros legais com os lucros da prevaricação e da infâmia.

Era fácil assim amontoar tesouros; mas a Alexandre Cardoso nunca sobrava o dinheiro; porque ele tinha as mãos sempre abertas para animar seus três amores: ao luxo, e ao jogo não há riqueza que chegue, e o amor das mulheres é também um abismo que nunca se enche de ouro.

Alexandre Cardoso abusando das suas vantagens e da sua influência de oficial-de-sala do vice-rei tornou-se o perigoso inimigo das famílias, o sedutor ousado que levava a desonra aos lares domésticos; para essa guerra imoral e pervertida tinha ele por armas seus dotes pessoais, o seu poder no governo da colônia, a ameaça de perseguição aos pais, e de recrutamento aos irmãos das donzelas, cuja beleza o encantava: as famílias pobres de ordinário eram vítimas da violência, quando não cediam à garantia de proteção; as ricas nem sempre escapavam à audácia daquele amor das mulheres e precisavam às vezes lutar contra o ressentimento e o furor do desenfreado e impune oficial-de-sala do vice-rei.

Pior que tudo isso ainda Alexandre Cardoso por suas paixões do jogo e da luxúria, tinha sócios de jogo e de orgias e estendia sobre eles o encanto da sua impunidade; era portanto o chefe de uma banda de mancebos imorais, corrompidos e audazes, recrutados principalmente na oficialidade dos corpos militares da guarnição da cidade do Rio de Janeiro, e essa banda perigosa, ousada, petulante , era o terror das famílias, e o testemunho vivo da perversão do governo.

O conde da Cunha, retirado, quase sepulto na solidão da casa que tinha de ser no século seguinte palácio de reis e de imperadores, ignorava completamente as tropelias e os crimes do seu oficial-de-sala e dos sequazes que este comandava, e era força que os ignorasse, porque à semelhança dos pais extremosos e cegos, que se irritam quando lhes denunciam os abusos e os vícios dos filhos, reputava caluniosas as censuras e acusações que se faziam ao seu querido oficial-de-sala, e violento se revoltava contra os censo­res e acusadores dele.

A obstinação e a parcialidade do vice-rei abriram fontes de suspeitas e de calúnias; porque muitos supuseram e alguns propalaram que o conde da Cunha ganhava como sócio principal nas toleradas prevaricações de Alexandre Cardoso, cuja desenvoltura permitia em atenção aos lucros que lhe dava a sociedade infame.

A probidade do Conde da Cunha triunfou dos botes dessa calúnia atroz, mas desculpável por circunstâncias atenuantes; é porém certo que o oficial-de-sala Alexandre Cardoso foi o mau gênio do primeiro vice-rei mandado à capital do Brasil.