As Mulheres de Mantilha/LIII

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo LIII)
por Joaquim Manuel de Macedo
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A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro despertou festiva no dia 19 de março, acordando ao ribombo das salvas de artilharia das fortalezas embandeiradas.

A Praça do Carmo ou Largo do Paço estava margeada de imenso povo que ocupava suas quatro faces, olhando e admirando as tropas que se desenvolviam no centro; as janelas do palácio, do convento do Carmo, e das casas particulares, se mostravam armadas, e as últimas atopetadas de senhoras; junto do palácio e perto da porta, onde soberbo cavalo esperava o conde da Cunha, mais compacta era a multidão de curiosos, e encostado à parede tinham muitos mostrado o carpinteiro Marcos Fulgêncio com semblante carregado; o carpinteiro não se fizera acompanhar nem pela esposa, nem pela filha: tinha a um lado uma mulher de mantilha, e do outro um padre velho que lhe eram ou pareciam desconhecidos.

Marcos Fulgêncio trazia uma determinação criminosa e horrível; viera armado de uma pistola, de um punhal, e decidido a assassinar o conde da Cunha, aproveitando os momentos, em que ele montasse a cavalo; deixara em casa Fernanda chorando desesperadamente e Emiliana em violenta agitação nervosa.

Na tarde da véspera Maria tinha ido entender-se com Marcos Fulgêncio; mas debalde o aconselhara a adiar a sua vingança, garantindo-lhe o próximo castigo de Alexandre Cardoso.

O carpinteiro respondera com aterradora frieza estas únicas palavras sempre repetidas:

— O prazo da espera termina hoje: o vice-rei conhece o criminoso, e o deixa impune; amanha hei de matar o vice-rei e, se eu puder escapar, depois de amanha matarei Alexandre Cardoso.

A descrença da justiça pública inspirava a vindita particular e um homem honrado, perdendo a razão pela impunidade do perverso algoz de sua honesta filha, ia ser criminoso de assassinato.

Maria deixara preocupada e aflitíssima o carpinteiro Marcos Fulgêncio, de cujo vingativo empenho fora ela a própria provocadora.

Maria não era celerada, e a idéia de um assassinato a horrorizava; mais ainda além disso, o crime que Marcos Fulgêncio premeditava, devia em todas as hipóteses contrariar as tramas que ela enredava para sacrificar Alexandre Cardoso.

A despeito das instâncias de Maria, e das lágrimas de Fernanda, o carpinteiro fora tomar o seu posto na manhã de 19 de março, e com a mão no peito, onde trazia a pistola, esperava o vice-rei.

Às onze horas da manhã em ponto, o grito da guarda e a continência dos soldados anunciaram a presença do conde da Cunha, que mostrou-se, e avançando para o cavalo, pôs o pé no estribo.

Aclamações gerais saudaram o vice-rei.

E Marcos Fulgêncio fez tal movimento com a mão que trazia ao peito, que rebentou alguns botões da véstia; mas a mulher de mantilha que estava a seu lado imediatamente lançou-se diante dele, e disse-lhe em voz baixa:

— Não quero... não quero... isso!

Marcos Fulgêncio recuou um passo e quando reconheceu Maria na mulher de mantilha, já o conde da Cunha estava longe.

— Que pretendia fazer este homem? perguntou o padre que perto se achava.

— Atirar este ramalhete de flores sobre o vice-rei, disse Maria, apresentando um ramalhete ao padre.

— Pois era isso?

— E então? o fogoso cavalo em que vai o senhor conde da Cunha poderia espantar-se, e talvez acontecesse algum infortúnio.

O padre voltou-se, e daí a pouco a mulher de mantilha seguia par e passo o carpinteiro que deixara a posição que, para tentar contra a vida do conde da Cunha, havia tomado.

Marcos Fulgêncio seguiu em direção à praia, e quando se achou bastante afastado da multidão para não ser ouvido, voltou-se para Maria e perguntou-lhe irado:

— Que tem a senhora com o meu proceder e com o meu destino?

— Em todas as hipóteses faria o que fiz; mas nesta, o sangue derramado do vice-rei cairia também sobre a minha cabeça; porque fui eu que acendi a sua vingança.

Está bem, senhora, já cumpriu o seu dever; agora deixe-me em paz.

— Não.

O carpinteiro travou do braço de Maria, e com um rir feroz:

— Julga-me seu escravo? perguntou.

— A sua mão de ferro me contunde o braço, disse pacificamente a moça.

Marcos Fulgêncio abriu a mão, e voltou os olhos, ouvindo o ruído de uma pisada.

O padre que fora testemunha do que pouco antes se passara, tinha-se aproximado sem ser visto e estava junto do carpinteiro e da mulher de mantilha.

— Marcos Fulgêncio, disse ele; tu precisas de mim, meu irmão.

— Eu, senhor reverendo?

— Não era um ramalhete que ias atirar sobre o vice-rei.

O carpinteiro olhou espantado para o padre.

— Conheço-te, meu irmão, continuou o padre; és homem chão e temente a Deus; mas o demônio te persegue sem dúvida e não estás em ti.

— Abençoada seja a intervenção do ministro do Senhor! murmurou Maria.

— Pecador! disse ainda o padre ao carpinteiro; as portas da igreja de São José estão abertas; é Deus que me envia a ti: vem confessar-te e contrito receber o corpo e o sangue de Jesus que te há de salvar.

E tomou pela mão a Marcos Fulgêncio que humilde e absolutamente dominado se deixou conduzir.

Maria respirou, e caminhando apressadamente, desapareceu no seio da multidão.