As Mulheres de Mantilha/LIV
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo LIV) por |
A grande parada foi magnífica em relação às condições da cidade do Rio de Janeiro, que até então nunca vira tão belo e festivo aparato militar; a diversidade dos uniformes dos corpos de linha e auxiliares, o elegante fardamento dos oficiais e sobre todos os brilhantismo com que se mostrou o conde da Cunha, encantaram tanto o povo, como a disciplina e precisão que ostentaram na marcha, nas manobras, nas descargas e nas continências os regimentos e os terços.
Mas a festa não acabou aí: à noite devia haver no teatro representação gratuita, tendo sido os camarotes oferecidos às principais famílias da cidade, os bilhetes de platéia dados em parte aos oficiais militares e em parte deixados ao povo, ou, melhor, àqueles que primeiro se apressassem a toma-los, ou que mais protegidos fossem.
Além da representação teatral e da iluminação geral da cidade, o vice-rei daria grandiosa ceia, para a qual estavam solenemente convidados todos os oficiais dos diversos corpos e muitas famílias nobres, ou notáveis pela posição social ou riqueza de seus chefes.
Como é sabido, o teatro era então na casa que se chama hoje Tesouraria da Casa Imperial e que olha pela frente para o palácio, pela face direita para o mar, e pela face esquerda para a antiga cadeia, e desde 1823 Paço da Constituinte e da Câmara dos Deputados.
Bem que esse teatro estivesse a quatro braças do palácio, o vice-rei, que não devia tocar com os seus pés o chão que todos pisavam, foi para ele de carruagem, sendo saudado com entusiasmo pelos espectadores que enchiam os camarotes e a platéia.
Na platéia ostentavam-se as fardas; nos camarotes o riquíssimo e pesado luxo dos ornamentos das senhoras, cujos vestidos e sapatos de saltos eram bordados de prata ou de ouro, e nos homens as casacas de veludo, jalecos de cetim também bordados de prata ou ouro e contendo um relógio em cada bolso, dois relógios, pois, presos por cadeias de ouro, que tais eram as modas usadas pelos ricos senhores.
O conde da Cunha sorriu-se levemente, contemplando a esplêndida assembléia, e pareceu satisfeito de encontrar em um dos camarotes Jerônimo Lírio com a mulher e as filhas, tendo ainda a seu lado o velho Antônio Pires e o jovem Isidoro, trajando com a mais perfeita elegância; turvou-se porém um pouco, notando em um dos camarotes, último obséquio que Alexandre Cardoso fizera três dias antes, a muito conhecida e, embora, formosa cortesã Maria de...
Deslumbrante de beleza, esmeradamente vestida, e trazendo em jóias uma riqueza afrontosa, Maria era como um sol a radiar naquela noite.
Causava pena a lembrança da vida licenciosa daquela mulher verdadeiramente encantadora! Só a virtude devia ser bela assim. O vice-rei, que procurou informar-se de quem partira o oferecimento do camarote à mulher reprovada, mostrou-se indiferente, sabendo a verdade da própria boca de Alexandre Cardoso.
— Eu o desculpo, disse; tratava-se de festa, e não se encontraria flor mais linda.
Representou-se a ópera — Labirinto de Creta — do Judeu, isto é, do poeta fluminense Antônio José da Silva.
A representação teatral que começara às sete horas terminou às dez e meia da noite.
Às onze horas serviu-se a ceia no palácio: foi ceia de vice-rei, ostentosa, riquíssima, porém comprimida pela etiqueta, e abafada pela gravidade.
A mesa imensa chegara todavia para os convidados, entre os quais se contavam não poucas senhoras.
A família de Jerônimo Lírio, e os dois amigos, Antônio e Isidoro, que a acompanhavam, estavam presentes.
Às onze horas e meia da noite acabou a ceia.
Reunida a sociedade em outra sala, o conde da Cunha dirigiu-se a Jerônimo Lírio, mostrou-lhe um cravo, e perguntou-lhe se Isidoro quereria prestar-se a cantar.
O desejo do vice-rei era um decreto.
Isidoro cantou; mas delicado e conveniente escolheu para executar música apropriada à cerimoniosa festa.
Desejoso de obsequiar o conde da Cunha, e um pouco vaidoso do merecimento de suas filhas, Jerônimo ofereceu fazê-las ouvir.
Irene cantou melancólica e suavemente a mais terna das suas modinhas.
Inês, ignorante de etiquetas, sem a inspiração das conveniências de uma festa oficial, sem que a tivessem prevenido do que lhe cumpria fazer, escolheu para cantar o que melhor sabia, e com que mais gabos ganhava: cantou o mais engraçado dos lundus.
— Se a - modinha - fora mal cabida, o lundu era inteiramente fora de propósito.
Jerônimo Lírio arrependia-se do estouvamento da sua vaidade de pai e olhava severo para a menina Inês, que só via Isidoro.
Mas a inocência, a graça e a beleza de uma jovem têm privilégios quase ilimitados.
O lundu cantado por Inês foi revolta feliz contra a etiqueta.
O vice-rei pôs-se a rir, a assembléia a aplaudir, e a cantora animada pelos aplausos, redobrou de graça e de sainete, e deixou o cravo no meio de uma revolução de alegria, em que o conde da Cunha não era o menos revoltoso.
Mas nesse momento o sino de São Bento anunciou meia-noite.
— Meia-noite! disse o vice-rei com voz forte e severa.
Toda a sociedade se conteve e guardou silêncio respeitoso.
O conde de Cunha em pé no meio da sala continuou, falando grave e solenemente:
— Começa o novo dia; o de ontem foi de festa e devoção ao santo do céu, e ao nome abençoado de el-rei meu senhor; o de hoje, que principia agora, não é mais de festas, nem de folguedos; é de justiça, e de castigo aos culpados.
A companhia enregelara-se e tremia diante do despótico vice-rei que falava assim.
— Senhor tenente-coronel do regimento novo! bradou sinistro o conde da Cunha, chamando.
O tenente-coronel confuso e perturbado aproximou-se do vice-rei que lhe falou em voz baixa, e quando acabou de ouvi-lo, avançou triste e compungidamente para o ajudante oficial-de-sala, e diante de toda a assembléia surpresa, disse-lhe:
— Senhor tenente-coronel Alexandre Cardoso de Meneses, entregue-me a sua espada! Está preso por ordem do senhor vice-rei conde da Cunha.
Alexandre Cardoso trêmulo e lívido desembainhou a espada, entregou-a ao tenente-coronel do regimento novo, e perguntou:
— Posso saber para onde vou ser conduzido?...
— Para a fortaleza de Santa Cruz e incomunicável até segunda ordem.
— E o meu crime?...
O vice-rei deu um passo para aquele que desde esse momento deixava de ser o seu ajudante oficial-de-sala, e disse:
— É um acervo de crimes.
O preso não respondeu; mas simulando força de ânimo que realmente lhe faltava, porque a própria consciência o acusava, saiu com a fronte erguida, acompanhando o tenente-coronel do regimento novo que o conduzia desautorado à prisão.
A assembléia ficara tomada de surpresa.
Quando Alexandre Cardoso desapareceu, o conde da Cunha exclamou:
— Creio que a cidade continuará em festa no dia que vai amanhecer!
Logo depois e a um sinal de despedida feito pelo vice-rei, as famílias e os oficiais se foram retirando sem descuidar-se da profunda vênia a ele devida.
A Jerônimo Lírio tinha o conde ordenado que se demorasse, e quando haviam saído todos os convidados, perguntou-lhe:
— Está satisfeito?
Jerônimo respondeu:
— Não desejo mal a alguém; mas o senhor vice-rei fez justiça.
— Saiba pois que esta ceia foi dada de propósito para que muitos e com especialidade o senhor Jerônimo Lírio fossem testemunhas da prisão solene de Alexandre Cardoso, porque a todos, porém muito especialmente ao senhor, o vice-rei devia uma satisfação pública.
— Ah, senhor vice-rei!
— Eu tentei precipitá-lo a fazer a desgraça de sua filha mais moça, pedindo-lha em casamento para esse homem indigno, e ainda bem que o senhor ma negou; mas juro-lhe que não conhecia nem o caráter, e menos os crimes do meu fatal ajudante oficial-de-sala!
— Eu e minha família somos escravos da bondade do senhor vice-rei.
— Pois bem; dê-me uma prova disso: peça-me um serviço, um favor que esteja nas minhas faculdades satisfazer.
Jerônimo animou-se e disse:
— Peço ao senhor vice-rei o cumprimento de uma promessa que será para nós a honra mais elevada.
— Qual é?
— Que o senhor vice-rei se digne ser padrinho do casamento de minha filha Inês com este mancebo.
E mostrou Isidoro.
— Oh! com o nosso bravo cavalheiro! Perfeitamente: serei o padrinho do casamento.
Saindo do palácio e no ato de embarcarem as senhoras nas cadeirinhas, Jerônimo perguntou a Antônio Pires:
— Então que dizes agora do vice-rei?
— Digo que ele acordou muito tarde; Deus pode perdoar-lhe; a justiça do rei não.