As Mulheres de Mantilha/VII
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo VII) por |
Irene contava dezessete anos. Inês ia fazer dezesseis e, embora resplendessem com todo o viço da mocidade, que tão doce se ostenta sob a e influência do nosso clima, eram ambas inocentes e puras, como os amores da infância; duas avezinhas irmãs nascidas no mesmo ninho, criadas presas, mas no meio de mil desvelos na mesma gaiola, tinham asas para voar, e não conheciam, nem sabiam desejar o espaço; eram lindas com seus longos cabelos pretos, suas frontes lisas e altas, sua tez moreno-clara, e com a delicadeza e justas proporções de seus corpos esbeltos; ambas se pareciam muito: Irene, porém, tinha os olhos pardos e de suavíssimo brilho, e a cor um pouco menos morena que Inês, cujos olhos eram negros, maiores e mais ardentes, além de que esta lastimava-se de um buçozinho mimoso que lhe ornava o lábio superior.
Irene era um pouco menos alegre de gênio, Inês mais viva e curiosa; qualquer das duas, muito acanhadas diante de estranhos, amando com temor o pai, com expansão a expansiva mãe e com enlevo indizível uma à outra diríeis duas belas flores abertas à luz da mesma aurora em dois pedúnculos unidos no mesmo ramo.
Jerônimo Lírio e sua esposa guardavam no retiro doméstico os dois belos frutos de sua união. Só os amigos íntimos e suas famílias eram admitidos à companhia das duas meninas; fora dessas relações prediletas e escrupulosamente escolhidas a muralha do zelo defendia Irene e Inês a toda e qualquer sociedade. Se algum homem velho ou moço ia passar um domingo ou dia santificado na chácara da Gamboa, desde que não era dos excetuados pela amizade, Irene e Inês não se mostravam nem à mesa do jantar.
Todavia, muitas vezes por santo dever, e algumas por notável contradição entre esses costumes de clausura doméstica e os costumes de certos folguedos tradicionais, Jerônimo Lírio levava a mulher e as filhas, onde a multidão concorria.
Por santo dever, em todos os domingos e dias santificados, a família Lírio, embarcando em suas cadeirinhas que eram levadas aos ombros de escravos possantes, trajando véstia e calças brancas, mas com os pés descalços, descia à porta da Igreja da Matriz da paróquia do Sacramento para assistir ao sagrado sacrifício da Missa, e além do cumprimento do preceito do decálogo, Jerônimo concorria, com sua esposa e filhas, às grandes solenidades religiosas, e a todas as procissões, em que o culto católico se ostentava nas ruas, nem sempre com proveito real da religião.
E também, por obediência ao império tradicional dos costumes, as duas meninas, sistematicamente clausuradas, eram no entanto vistas, olhadas e admiradas através de seus véus, que muitas vezes cediam ao ímpeto da curiosidade, em divertimentos profanos e públicos, como os presepes da festa do Natal, a serração da velha, as corridas de touros e outros, que, por herança do passado, se usavam no século décimo-oitavo.
Assim, pois, Jerônimo, contraditoriamente escondia as filhas em casa, e as mostrava nas Igrejas e nos grandes espetáculos públicos.
Os véus transparentes e de finíssima renda, mal podem eclipsar a beleza, e tanto mais que o sopro de uma aragem traiçoeira, aproveitando um descuido feliz, enrola ou levanta o véu, e patenteia o rosto que se reserva e procura ocultar-se na sombra.
A lindeza e as graças naturais das duas filhas de Jerônimo Lírio eram desde algum tempo geralmente conhecidas e apregoadas no Rio de Janeiro, e, como já dissemos, o povo, ou antes primeiro os mancebos entusiastas e depois todos adotaram a denominação dada por algum apaixonado ou simples admirador do belo às duas meninas, que foram conhecidas pelo nome poético_ os dois lírios.
Irene e Inês não eram brancas, como o lírio; mas a denominação ou amorosa alcunha fizera do nome da família um nome de flores.
No lar doméstico eram outros ímpetos ou nomes familiares dados às meninas ou pelos pais ou pelas escravas: a Irene chamavam nhanhã, diminutivo feminino que quer dizer filha do senhor; a Inês, que recebera no batismo o nome de sua mãe, a quem os escravos tratavam por sinhá, corrução do nome senhora — chamavam sinhazinha, que, como se vê, é o diminutivo de sinhá.
Tenho quase a certeza de que hoje haverá de sobra quem me censure por estas explicações do que todos sabem, visto como ainda atualmente existe o cancro da escravidão, ainda há população escrava, e portanto, ainda há também nas famílias — nhanhãs e sinhazinhas, há senhores pais de — nhonhôs e sinhás, ou senhoras mães de — sinhazinhas; mas no século vigésimo os romancistas historiadores, que são os professores da história do povo, hão de agradecer estes e outros esclarecimentos da vida íntima das famílias do nosso tempo.
E uma vez que tocamos neste assunto, que parece mais que muito insignificante e que por certo o não é, deixem-me escrever uma página alheia ao romance, e toda reveladora dos costumes domésticos da antiga colônia e ainda do nosso tempo.
O nhonhô, a nhanhã e a sinhazinha, os filhos e as filhas dos senhores e das sinhás ou senhoras são de ordinário elos de amor que prendem, como eram e prendiam, alguns escravos aos senhores e fontes de reconhecimento dos senhores que aproveitava aos escravos.
Aleitados às vezes por escravas, o filho e a filha do senhor, o nhonhô e a nhanhã e a sinhazinha eram e são os protetores de suas amas de leite, que freqüentemente por esse serviço recebiam e recebem a sua emancipação, merecendo ainda depois continuados benefícios.
O nhonhô, a nhãnhã, a sinhazinha têm nos escravos e escravas de sua idade companheiros e sócios nos brincos e travessuras da infância, e sabem amá-los então, e protegê-los depois, tornando-se providências desses desgraçados pela escravidão.
O nhonhô, a nhanhã, a sinhazinha são os anjos de compaixão e de caridade, que impõem o seu celeste veto de lágrimas aos castigos que seus pais querem impor aos escravos; são os agentes do bem, e os pais os deixam ser, e se aplaudem de que eles o sejam, e exageram furores fingidos e desarmados por aquela angélica influência, para também exagerar a influência dos filhos, e a poderosa e santa intervenção destes a favor daqueles infelizes.
O nhonhô, a nhanhã, a sinhazinha em casa de seus pais significam alegria da família, patronagem dos escravos, perdão de castigos, emancipação para um ou outro, e esperança para muitos desses míseros condenados. O nhonhô é o travesso que assegura impunidade aos cúmplices; a nhanhã é quem às vezes acalenta em seus braços a filha ou o filho da escrava de sua predileção: o nhonhô, a nhanhã, a sinhazinha são quase sempre amados pelos escravos da casa
Cada escravo traz ao nhonhô o passarinho que apanhou no laço, à nhanhã uma fruta e uma flor silvestre, um ninho de beija-flores, pombinhas-rolas a criar, o pouco, que é muito, porque é tudo quanto ele pode dar.
E essa afeição que alguns escravos tributavam aos senhores moços a quem tinham visto nascer e crescer, era (como ainda se observa) talvez o único sentimento generoso contrastador do ódio que todos os escravos naturalmente votam aos senhores.