As Mulheres de Mantilha/VIII

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo VIII)
por Joaquim Manuel de Macedo
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A fama da beleza dos dois lírios tinha chegado aos ouvidos de Alexandre Cardoso, que em breve mais de uma vez, pelos próprios olhos, se convenceu da verdade que todas as vozes proclamavam; impressionou-se principalmente da graça e dos encantos de Inês, e amando-a ou presumindo amá-la, o sedutor costumeiro e impune planejou essa nova e difícil conquista.

As duas meninas tinham aprendido que não lhes era lícito nas igrejas e nos espetáculos públicos, olhar com atenção para mancebo algum e ou obedeciam à risca a exageradamente austera lição, ou Alexandre Cardoso apesar de seus dotes naturais e do seu bonito uniforme militar, não conseguia delas a glória almejada do mais furtivo reparo.

Jerônimo, ancião venerando por suas virtudes, e negociante de grande consideração pela sua riqueza, não era homem contra cuja família se tentasse escandalosa violência ofensiva da honra.

O leão fez-se raposa: para as diversas obras de abertura de ruas, de melhoramento da Vala, fundação do arsenal junto ao monte de São Bento, reconstrução e aumento de fortalezas, edificação de armazéns para guarda de pólvora que se retirou da cidade, o vice-rei mandava prender homens bem ou mal declarados vadios, e escravos apanhados nas ruas, e os empregava naqueles trabalhos, além de pedir, o que era exigir e mandar, o concurso dos negociantes e proprietários em tributos de materiais ou de dinheiro que se recebiam como voluntários donativos.

Provando a má fortuna dos seus companheiros do comércio e dos proprietários desde 1763 até 1765, Jerônimo notou que a começar da semana santa desse último ano, era ele poupado às costumadas exigências e arbitrariedades do governo; não lhe pediam mais donativos, e nenhum dos seus caixeiros, como nenhum dos seus escravos era agarrado para o serviço das obras do rei; o nobre ancião, sem explicar o motivo do seu ressentimento, sem falar e menos queixar-se em silêncio contra a exceção obsequiosa, e para as obras em andamento e a cada nova obra do governo mandou o dobro dos donativos que de ordinário fazia, e o dobro do maior número de escravos que à força lhe haviam tomado para aqueles ou outros trabalhos nos três primeiros anos.

Poucos meses depois, em um dia prenderam quatro escravos de Jerônimo para os trabalhos públicos; mas logo depois, no mesmo dia, dois soldados acompanharam os escravos à casa comercial do negociante, a quem os entregaram, com o seguinte bilhete:

"O senhor Vice-Rei condena como injusta a prisão destes escravos do mais dedicado vassalo del-Rei nosso Senhor na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. — Alexandre Cardoso de Meneses, oficial-de-sala."

Na manhã seguinte, Jerônimo enviou oito trabalhadores para as obras do rei.

Passados alguns dias, um mancebo, afilhado de batismo de Jerônimo, foi recrutado e no fim de algumas horas levou ao negociante este outro bilhete:

"A bênção do padrinho benemérito poupa este excelente soldado ao tribunal da guerra. — Alexandre Cardoso."

Algumas horas depois, Jerônimo tinha, a elevado preço, conseguido contratar para o serviço do exército dois portugueses recém-chegados do reino, e os mandava diretamente a Alexandre Cardoso.

O oficial-de-sala, vencido na luta dos favores, recorreu a outro meio: obteve do vice-rei ordem para uma visita oficial de agradecimento a Jerônimo, e na manhã de um domingo, apresentou-se na chácara da Gamboa, para desempenhar a comissão, e foi recebido com respeito e consideração, cercado de obséquios, instado, como era de regra inalterável, para aceitar o jantar, a que polidamente se recusou, retirando-se sem ter visto nem a mulher, nem as filhas do negociante.

Jerônimo foi, na manhã seguinte, cortejar o vice-rei conde da Cunha, e visitar Alexandre Cardoso, a quem convidou para jantar em sua chácara em dia aprazado: deu-lhe com efeito o mais rico banquete a que concorreram todos os homens notáveis por sua posição oficial, nobreza e riqueza da cidade do Rio de Janeiro; mas faltaram à mesa a mulher e as filhas do zeloso e austero ancião.

Alexandre Cardoso voltou três vezes à chácara da Gamboa e ali três vezes aceitou o jantar de Jerônimo: nem uma só vez, porém, mereceu ser recebido na sociedade da família; a senhora Inês e suas filhas nunca lhe apareceram.

Naquele tempo, semelhante reserva não era motivo de queixa ou de reparo; porque a abstenção da presença das senhoras no recebimento e nas honras que se faziam ao hóspede, entrava nos costumes de muitas casas, mas evidentemente essa prática anunciava ao hóspede que ele era um homem obsequiado, talvez bem aceito pelo dono da casa, não era, porém ainda um amigo, cavalheiro da confiança íntima da família.

Alexandre Cardoso, inteligente e atilado, compreendeu o procedimento do pai de Inês; adivinhou que Jerônimo pressentira o seu amor ou a sua paixão condenável e que nem lhe aprovava o amor honesto, nem toleraria culto menos respeitoso a qualquer de suas duas filhas; simulou, porém, desconhecer a contrariedade, e, cultivando suas relações com o nobre velho, tornou impossível um rompimento, esmerando-se em escrupulosas delicadezas.

A oposição, os obstáculos, a resistência produziram seus naturais resultados: Alexandre Cardoso amou ou desejou mil vezes mais ardentemente

Inês e por Inês sacrificaria tudo.

Amante feliz de Maria de...Alexandre Cardoso, preso ainda nos laços dessa encantadora sereia, vaidoso da sua posse muito invejada, mas saciada de gozos impuros, não hesitaria em esquecer a Vênus da inconstância e da libertinagem pela flor mimosa, cândida e rescendente de inocência e de pureza.

Na noite dos Reis, em 1766, ainda Alexandre Cardoso contemplara inutilmente e sem merecer ao menos passageiro olhar, o lindo rosto e a figura graciosa de Inês.

O afortunado sedutor de vinte míseras vítimas começava a irritar-se contra a isenção e fria indiferença da filha de Jerônimo.

Talvez que essa irritação houvesse contribuído para o ímpeto de furor oficial que fizera Alexandre Cardoso arrancar da espada e acometer desastradamente a multidão em cujo seio se escondia o poeta improvisador da décima terrível.

E para mais vivo incitamento da paixão de Alexandre Cardoso, a ciumenta Maria lhe lançara no coração veneno semelhante ao que a estava abrasando, dizendo-lhe à mesa da ceia festiva: "feliz no jogo, infeliz no amor..." O lírio indiferente não pendia para ele, que, perdido e cego, não viu, não soube ver, se bem perto, para alguém a furto, pendia o lírio...