As Mulheres de Mantilha/XL

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XL)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Quatro ou cinco dias depois do carnaval, o conde da Cunha, tendo recebido e lido o misterioso e anônimo relatório da semana, passou algumas horas em febril irritação, fazendo gemer as salas do palácio sob seus passos pesados e acelerados.

Os servos, as ordenanças, os próprios empregados que trabalhavam na Secretaria, tremiam.

— A tempestade ronca; sobre quem cairá o raio? dizia um.

— O sr. vice-rei em idas e voltas, tem passeado hoje duas léguas, observava outro.

— É a medida de sua cólera, acrescentava um terceiro.

Mas a tempestade serenava sem que caísse raio sobre alguém.

O vice-rei deixou de passear; a tarde correu tranqüila, e ao anoitecer, Germiano foi chamado ao gabinete do conde da Cunha.

Os dois se acharam a sós.

— Escuta, disse o vice-rei.

E tomando a carta ou relatório que recebera das mãos do próprio Germiano, leu-lhe uma página, que continha a história de quanto se passara entre Alexandre Cardoso e Clélio Írias, e do modo por que a este haviam sido roubados os três documentos falsos.

Acabando de ler, o conde da Cunha tornou, dizendo:

— Quero saber se isso é verdade e preciso simular ignorância destes fatos, é indispensável interrogar o velho Clélio Írias; eu me atraiçoaria, se o fosse procurar, e só tenho confiança em ti; mas tu és mudo, e Clélio Írias está a morrer: que farás?...

Germiano ficou imóvel e refletindo; no fim de alguns minutos sorriu-se: tinha resolvido o problema.

O mudo dividiu uma folha de papel em oito pedaços, correu com o dedo duas linhas do relatório e com o mesmo dedo fingiu escrever no primeiro dos oito pedaços de papel, e assim foi igualmente trazendo com os outros.

O vice-rei compreendeu Germiano, tanto mais facilmente, que tinha tido a mesma idéia.

— Entendo: copiarei a denúncia que me dão, fazendo perguntas, cada uma das quais escreverei em papel separado.

O mudo fez sinal afirmativo.

O vice-rei escreveu muitas perguntas, e cada uma em um oitavo de papel.

Germiano quando viu terminado este trabalho, e que o vice-rei lhe entregava os papéis, apontou com o dedo indicador para este, depois para si, e depois para a rua, na direção da casa do velho Clélio Irias.

O conde da Cunha escreveu em uma folha de papel, que Germiano ia por ordem do vice-rei, interrogar daquele modo a Clélio Írias, como o inteligente mudo acabava de indicar-lhe, e ajuntou a isso garantia de perdão ao velho usurário, uma vez que ele não procurasse ocultar a verdade, e impondo-lhe, enfim, ordem de absoluto segredo.

Acabando de assinar o que escrevera, o vice-rei leu tudo a Germiano, e perguntou-lhe:

— Queres mais alguma coisa?

O mudo fez sinal que não.

— Sabes onde mora Clélio Írias?

O mudo sorriu-se.

— Até amanhã à noite, dar-me-ás conta desta comissão.

Germiano curvou-se respeitosamente e retirou-se, levando todos os papéis escondidos no peito, por baixo da farda.

Passadas duas horas, bateram à porta do gabinete do vice-rei.

— Quem é? Perguntou este.

Nenhuma voz respondeu; mas os dedos de alguém arranhavam a porta.

— É Germiano, disse o conde da Cunha.

E foi abrir a porta.

O mudo fez sua vênia ao vice-rei, entregou-lhe os papéis que lhe tinham sido confiados e ficou imóvel.

O conde da Cunha examinou os papéis e no fim da maior parte das perguntas, encontrou, feita a lápis, uma cruz, em duas um risco passado sobre a pergunta, em uma absoluta falta de sinal.

— Que quer dizer a cruz?

O mudo fez com a cabeça movimento afirmativo.

— Portanto, a estas perguntas, Clélio Írias respondeu que era verdade?

O mudo repetiu com a cabeça o movimento afirmativo.

— E o risco passado sobre as palavras destas duas perguntas?

O mudo moveu a cabeça em sinal negativo.

— Quer dizer que não; muito bem; mas esta pergunta, que não traz sinal de resposta?...

O mudo moveu ambos os braços em abandono, e tendo as mãos abertas, levou-as um pouco para trás.

— Não entendo, disse o vice-rei.

O mudo fechou os olhos e com as mãos tapou os ouvidos.

— Queres dizer que o homem não viu, nem ouviu, e respondeu que não sabe?

Germiano sorriu-se, indicando sim.

O conde da Cunha bateu com a mão no ombro do mudo e disse-lhe:

— Aqui, como em toda parte, desde que te conheço, és fidelidade inteligente que Deus concedeu para o meu serviço e defesa. Vai dormir, meu velho amigo!

Duas grossas lágrimas correram pelas faces rugosas de Germiano, que beijou a mão do conde da Cunha e foi dormir, como ele lhe ordenara.

Germiano, orgulhoso e ufano, lembrou-se acordado e em sonhos dormindo, o titulo de meu velho amigo, que lhe dispensara o alto senhor conde da Cunha, vice-rei do Brasil.