As Mulheres de Mantilha/XLI

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XLI)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Emiliana estava cumprindo zelosamente o seu dever de caridade e, primeiro prêmio de Deus, os cuidados incessantes que exigia o velho usurário a faziam esquecer por vezes o seu infortúnio.

Marcos Fulgêncio, que ia sempre melhor, não só aprovara a nobre tarefa incumbida por Fernanda a sua filha, como ordenara que esta não desamparasse um só instante a Clélio Írias, e apenas, cauteloso e prudente, quisera que a velha tia de sua mulher fosse acompanhar Emiliana, que não devia ficar só em uma casa estranha.

Clélio Írias se achava no estado mais perigoso: o descuido com que se deixara molhado até secarem-lhe as roupas no corpo, o sono dormido as visitas ao relento, a excitação nervosa e o desespero que lhe tinham causado as violências sofridas no entrudo e o roubo dos seus papéis, prepararam-lhe moléstia gravíssima.

O facultativo chamado era prático, hábil, e desenvolvia com energia todos os recursos que os seus conhecimentos médicos e o livro magistral da experiência de longos anos de clínica punham à sua disposição mas debalde lutava com a morte, que parecia ter marcado a sua vítima.

Clélio Írias, ardendo em febre e caído em sono comatoso, passara quarenta e oito horas nesse estado, que indicava próxima agonia; mas, à luz do terceiro Sol, a febre diminuiu, o sono horrível cessou, e dores atrozes o atormentaram; o facultativo concebeu algumas esperanças de salvar o doente e continuou a luta contra a morte.

Gemendo pelas dores que sofria, abrasando-se na febre que se abatia sem cessar de todo, durante breves horas, para agravar-se logo depois, banhando-se em viscoso suor, agitando-se no leito, e algumas vezes delirando, Clélio Írias tinha sempre ao pé de si Emiliana, que, paciente, delicada, compassiva, animadora, velava noite e dia cuidando dele como a filha mais extremosa.

Muitos improvisados amigos ao saberem que o velho usurário escapara ao sono precursor da morte e voltara à consciência da vida e da sua situação, correram a oferecer-se para tratá-lo; este, porém, apontava para Emiliana e dizia com voz trêmula:

— Basta ela.

Uma vez, tendo respondido do mesmo modo a um novo oferecimento, Clélio Írias chamou Emiliana, e tomando-lhe uma das mãos, beijou-a com enternecimento.

O facultativo proibiu ao doente receber visitas e fez parar assim a procissão dos fingidos amigos do usurário, que somente estabeleceu uma exceção da regra para o seu vizinho compadre, aquele que lhe emprestara a cadeirinha.

Emiliana era quem recebia e despedia as visitas na pobre sala de jantar do rico usurário, cujo leito passara de um quartinho escuro e úmido para a sala principal, que lhe servia de escritório.

Uma noite, pouco depois do toque de Ave-Maria, uma senhora trazendo mantilha apresentou-se na casa de Clélio Írias e foi levada para a sala de jantar.

Emiliana recebeu-a e a fez sentar.

— Venho visitar o Sr. Clélio Írias, disse a mulher de mantilha.

— Eu darei parte da visita da senhora, e peço o favor de dizer o seu nome.

— Então ele não pode receber-me?

— Não, minha senhora; o sr. licenciado proibiu absolutamente as visitas ao doente.

A mulher fez um movimento de desagrado.

— Perdão, minha senhora; eu cumpro ordens que me deram.

— A menina é a enfermeira?..

— Sim, minha senhora.

— É parenta de Clélio Írias?

— Não, minha senhora.

— Sua afilhada talvez?...

— Também não, minha senhora.

Uma velha que trabalhava a um canto da sala, na sua almofada de rendas, disse:

— É Emiliana, filha do mestre carpinteiro Marcos Fulgêncio, que é um homem muito honrado e amigo do sr. Clélio Írias.

A mulher de mantilha levantou-se, estremecendo:

— Ah! exclamou; o mestre Marcos? a vitima do incêndio?...

— É verdade, minha senhora, respondeu Emiliana: mas não sei por que minha tia deu agora em apregoar o meu nome.

— Cala-te aí, enfezadinha! tornou a velha; nós não temos motivo para andar escondendo quem somos, graças a Deus!

— Menina, disse a mulher de mantilha, sua tia tem razão; o seu mister nesta casa é uma tarefa de anjo de caridade.

— Oh! não, minha senhora, é apenas o pagamento de uma dívida de gratidão, e o cumprimento da santa lei do amor do próximo.

A mulher lançou a mantilha no banco de pau, onde estivera sentada e mostrou seu rosto de peregrina beleza e seu corpo de suaves e maravilhosos contornos.

Emiliana contemplou-a admirada; com ingenuidade que valeu mais que todas as lisonjas dos salões elegantes, foi atiçar a candeia, e voltou a contemplar de novo a senhora.

— Como é formosa, minha senhora!... disse ela.

Maria de... abraçou Emiliana, beijou-a em ambas as faces e respondeu:

— A menina pode, sem inveja, como o faz, reconhecer a beleza de qualquer mulher; porque a nenhuma cede em lindeza.

Emiliana confundiu-se, e abaixou o rosto.

— Mas eu precisava muito falar a Clélio Írias!

— É impossível, minha senhora...

— Oh!... se a menina soubesse...

— Dói-me muito repeti-lo; mas o licenciado não quer, e eu sou responsável...

Maria interrompeu Emiliana, tomando-lhe a mão e levando-a para o corredor, onde, falando-lhe ao ouvido, murmurou:

— Silêncio!... nem uma exclamação, nem um grito, ou despertará suspeitas..

Emiliana tremeu e prestou atenção.

Maria continuou, segredando:

— Nós somos irmãs, e sob este teto há três vitimas, e três inimigos do mesmo homem; lá o velho, que vai talvez morrer, aqui uma amante ultrajada e uma donzela ofendida em sua honra.

Maria susteve Emiliana, que titubeava.

— Silêncio e prudência... já lho disse; nós ambas temos o mesmo ódio, e eu preparo a vingança: preciso falar a Clélio Írias antes que ele morra.

Emiliana envergonhada, trêmula, quase sem voz, sentiu horror desse frenesi de vingança que ousava ir perturbar, tempestuar a alma de um velho, talvez próximo a morrer.

— Não, balbuciou ela; por isso mesmo não, minha senhora.

Maria recuou um passo e perguntou com ironia:

— A vítima perdoou ao algoz?...

Emiliana respondeu com vexame profundo e justo despeito:

— Não entendo o que me dizes; mas sei o que me cumpre fazer

O facultativo, licenciado, ou cirurgião, como então indistintamente se dizia, chegou nesse momento; antes de tudo, foi examinar o velho doente, e no fim de alguns minutos dirigiu-se à sala de jantar, onde cumprimentou a velha e as duas moças.

— A febre declina, mas não me engana; é evidentemente traiçoeira e anda a fazer-me negaças; esta resistência de certos sintomas nervosos pode dar de si... o velho Írias conserva na língua uma crosta com cheiro de morte; notem que ele já mudou de cabeceira duas vezes...

— Mas eu precisava falar a Clélio Írias, disse Maria.

— Nada, de modo nenhum, respondeu o licenciado, rindo-se; a srª dª. Maria é bonita demais, e era capaz de fazer pecar por pensamentos o velho, que, amanhã deve receber os socorros da Igreja.

Maria quis teimar; bateram, porem, à porta da casa.

Emiliana mandou entrar, e entrou Germiano.