As Mulheres de Mantilha/XLIX

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XLIX)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Durante dois dias, que se passaram depois da noite da serração da velha, a população da cidade do Rio de Janeiro só se ocupou de dois assuntos: do atentado contra a família de Jerônimo Lírio, e do encontro de Alexandre Cardoso com o carpinteiro Marcos Fulgêncio no saguão do palácio; a audiência dada pelo vice-rei a Emiliana foi geralmente sabida, e os fatos, comentados e exagerados, tomaram proporções romanescas, mas em todas ou em quase todas as diversas relações, o ajudante oficial-de-sala era gravemente comprometido.

Assim nas mil histórias do acontecimento do caminho da Gamboa, a parte que tomara na luta o jovem Isidoro, que trajava vestidos feminis, abria espaço a contos de imaginação; corria, porém, como certo que o atentado tinha por exclusivo fim o rapto da menina Inês, determinado por Alexandre Cardoso; relativamente à filha do carpinteiro, contavam-se diversos romances, a começar da noite do incêndio, e cujos últimos capítulos se desenvolviam à custa do casamento do velho usurário Clélio Írias com a pobre Emiliana e da enérgica resolução tomada por esta, de ir pessoalmente dar queixa ao vice-rei contra Alexandre Cardoso; além de outras invenções, pretendiam uns que o conde da Cunha maltratara e despedira com desprezo cruel a pobre moça queixosa; queriam outros que o conde se dispunha a castigar severamente o seu ajudante oficial-de-sala; mas que tendo na mesma ocasião Marcos Fulgêncio esbofeteado no saguão do palácio ao ofensor de sua filha, o vice-rei dera este por suficientemente castigado, e mandara embora a ofendida sem reparação, e o esbofeteador com perfeita impunidade. Havia, enfim, quem assegurasse que esta questão se resolvera, ajustando-se o casamento de Alexandre Cardoso com a viúva de Clélio Írias.

O conde da Cunha tinha mandado chamar Jerônimo Lírio, de quem ouviu por miúdo quanto lhe acontecera, e o verdadeiro motivo do disfarce de Isidoro; garantindo ao negociante a segurança pessoal desse jo­vem, ordenou-lhe que o trouxesse logo à sua presença.

Isidoro recebeu do vice-rei cumprimentos pela sua intrepidez e valor, e passou em seguida por minucioso interrogatório, sendo até obrigado a declarar quantos golpes de espada supunha ter acertado, e que pontos do corpo dos salteadores, com quem se batera, acreditava ter ferido.

Infelizmente, faltava um objeto que estivera em poder de Isidoro e que talvez pudesse indicar os criminosos: a espada que o jovem arrancara das mãos de um deles, e com que combatera, tinha desaparecido, ficando esquecida no lugar do atentado.

Além destas averiguações, feitas pelo vice-rei, o ajudante oficial-de-sala mostrava-se muito empenhado na descoberta dos salteadores, e o juiz competente abrira devassa.

Os dias, porém, iam correndo, Alexandre Cardoso continuava a ser ajudante oficial-de-sala, ostentando mais influência e poder do que nunca, e nem Emiliana, nem Jerônimo, nem a moralidade pública recebiam satisfação alguma.

O povo murmurava por toda parte, não era mais Alexandre Cardoso, era o conde da Cunha o mais detestado e recriminado. Dizia-se que tinham sido mandadas para Lisboa as mais graves queixas contra o vice-rei.

Antônio Pires chegava a comprometer-se, manifestando publicamente e com imprudente veemência, as mais acres censuras contra o governo do conde da Cunha.

Os pasquins injuriosos repetiam-se, aparecendo quase todas as manhãs nas paredes das casas, ou largados pelas ruas.

Dir-se-ia que se conspirava uma revolta.

Mais ainda: as senhoras começavam a pronunciar-se; em todas as casas, nos encontros casuais, nas visitas, as mães de família, como as donzelas, maldiziam do vice-rei, que as não protegia contra Alexandre Cardoso e seus sócios, tornados ameaças vivas e impunes que traziam em risco a inocência e a honra das mais recatadas.

Agravava este justo sobressalto do sexo mimoso e fraco, o desgosto proveniente das providências severas, mas bem aconselhadas, que tomara o bispo proibindo certas solenidades religiosas à noite, a conversação com as senhoras, e a corte feita a elas, às portas e nos átrios das igrejas, e alguns costumes ridículos que se misturavam com as cerimônias das procissões, e só serviam para profano divertimento.

Além dessas medidas, que diminuíam as ocasiões de colheitas de tributos de adoração para as senhoras, revoltavam-se estas contra as instituições de casas de recolhimento forçado para muitas esposas e filhas, verdadeiros cárceres em que a vontade dos pais e dos maridos tinham recurso seguro, que servia à sua prepotência.

Realmente a época não era lisonjeira para o belo sexo, que desde alguns anos, ressentindo e desgostoso, aproveitara então o sentimento geral de reprovação do governo do conde da Cunha, e tomava parte considerável na oposição de murmurações e de acerbas censuras.

E não se tenha em pouco essa oposição feminil; pode muito a diária e insistente pregação da mãe, da esposa, das filhas e das irmãs, que falam livremente em casa, e que sabem convencer agradando, ameigando ou chorando; e podiam muito as senhoras, que, arriscando-se menos que os homens às perseguições da autoridade, cantavam ao cravo, ou a guitarra e à viola, os lundus e as cantigas com alusões epigramáticas ao conde da Cunha, ao seu ajudante oficial-de-sala, e aos abusos e escândalos que se observavam.

O que além de tudo isto preocupava alguns espíritos, e nenhum explicava, era uma notável modificação nas práticas do governo do conde da Cunha, que sempre suspeitoso e violento, esmagava com pronto castigo e sistemática opressão as mais leves demonstrações de censura ou de reprovação dos seus atos, e que então por tolerância, ou por desprezo, deixava livre curso às queixas do povo, não ordenara prisão alguma, e nem ao menos fizera perseguir algum suspeito de fixar ou espalhar os pasquins, em que aliás era ele o mais injuriado.

Mas nem por essa generosidade o vice-rei era poupado ou ainda por essa ostentação de desprezo do povo murmurador; o povo se mostrava cada dia mais hostil a ele, não lhe perdoando a impunidade de Alexandre Cardoso, que aliás se exaltava com a sua confiança, sendo conservado no cargo de ajudante oficial-de-sala.

Era esta a situação da capital do Brasil-Colônia nos últimos dias da primeira quinzena do mês de março, quando o vice-rei mandou anunciar, solene parada dos regimentos de linha e auxiliares ou de milícia da cidade, para 19 do mesmo mês, ou dia de São José, santo do nome do rei.

Evidentemente a festa não era feita ao bem-aventurado do céu, e sim ao bem-aventurado da terra.

Na manhã seguinte o pasquim disse:

O nosso conde da Cunha
Nem do céu respeita a lei;
No furor da adulação
Furta do santo para o rei.

Tem razão o vice-rei;
A consciência o aterra;
Descrê os santos do céu,
Agarra-se ao rei da terra.

O conde da Cunha, se leu ou teve conhecimento deste pasquim, desprezou-o, como desprezara outros.

No meio deste pronunciamento de desgosto geral, Jerônimo se conservava silencioso, e esperava: espantava-se da longanimidade do conde da Cunha; mas ainda confiava nele.

Velando implacável pela vingança que jurara tomar de Alexandre Cardoso, Maria não se descuidava.

Dois dias depois daquele em que Emiliana falara ao vice-rei, Maria voltou à casa da Rua do Parto, e pediu informações do que se passara na audiência.

Emiliana deu-lhe conta de tudo, acabando por dizer que o conde ouvira com fingida bondade.

— Fingida por quê?

— Porque, desde que nos apareceu Alexandre Cardoso, não me atendeu e despediu-me de modo revoltante.

— Ótimo sinal, disse Maria.

— Como?

— O conde da Cunha fingiu somente para com Alexandre Cardoso. Esperemos mais seis dias.

— Mais cinco apenas, que completarão oito, que prometi esperar, disse Marcos Fulgêncio, levantando-se.

— E depois? perguntou Maria.

— Depois?... isso fica por minha conta.

— Que farás, pobre Marcos?

— Obra do meu ofício, minha nobre senhora; levantarei uma forca... para mim.

Fernanda segurou instintivamente, com força, o braço do marido, exclamando:

— Santo nome de Jesus!... Nossa Senhora que te livre de tal!

— Senhor Marcos Fulgêncio, disse Maria; daqui a cinco dias voltarei; espere-me.