As Mulheres de Mantilha/XLVIII
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo XLVIII) por |
O conde da Cunha era madrugador, e especialmente no verão, preferia trabalhar nas horas frescas que precedem ao intenso calor tropical.
Sentado à mesa, o vice-rei examinava diversos papéis relativos à administração da grande colônia, e muito atentamente o alistamento dos habitantes da capitania, a que mandara proceder, e que da cidade e de algumas vilas já tinha chegado sem dúvida muito incompletamente executado; causava-lhe estranheza e pena o número extraordinário de jovens solteiros de ambos os sexos, e maldizia de um fato que, embora aproveitasse bastante ao exército, era evidentemente nocivo à moralidade e ao progresso da colônia, dependente do aumento da população.
O vice-rei meditou por muito tempo sobre o assunto, e enfim, parecendo ter assentado em alguma providência, passou a ler outros papéis, encrespou a fronte, encontrando as nomeações dos comandantes e oficiais do novo terço, propostas por Alexandre Cardoso, e traçando com a pena os nomes dos candidatos, escreveu em nota: "proponha outros".
Interrompendo o trabalho para almoçar, voltava de novo a ele, quando Germiano lhe apareceu.
O Conde da Cunha olhou para o mudo, que estendendo o braço, apontou com o dedo para o lado da entrada do palácio, e aproximando-se, entregou-lhe uma folha de papel.
O vice-rei leu: "a viúva de Clélio Írias".
— Clélio Írias! O velho usurário que morreu?
O mudo fez sinal afirmativo.
— Faze-a entrar para aqui.
Germiano tinha regalias excepcionais no palácio, e todos respeitavam nele o cão fiel e estimado do vice-rei.
Daí a pouco Emiliana, trajando pesado luto, entrou conduzida pelo mudo, que imediatamente se retirou.
A jovem e bela menina estava comovida e trêmula; mas havia no seu rosto alguma coisa de enérgica decisão.
— É a viúva de Clélio Írias? perguntou o conde.
— Sou, sr. vice-rei; e sou também a filha do carpinteiro Marcos Fulgêncio.
Ouvindo esse nome, o vice-rei fez um movimento; mas conteve-se logo, e disse friamente:
— Pode falar.
— O sr. vice-rei mandou reconstruir à sua custa, a casa de meu pai, devorada pelo incêndio, cuja origem até hoje não se explicou; há, porém, outra desgraça muito maior, de que fomos vítimas nessa noite e que o sr. vice-rei não pode reparar.
— E qual é?...
— O ultraje feito à minha honra, disse Emiliana, abaixando a voz e a cabeça.
— Se houve crime, não faltará o castigo; mas, onde as provas do crime?
— sr. vice-rei, não venho pedir a exposição pública da minha vergonha para alcançar vingança, aviltando-me aos olhos de todos...
— Então que quer?
— O sr. vice-rei é juiz e é pai do povo que governa, eu não requeiro ao juiz, queixo-me ao pai.
O conde sentiu a delicadeza da observação e reconheceu que lhe falava uma jovem, que recebera alguma educação.
— Quem foi o seu ofensor? perguntou.
— Um homem que se cobre com o nome e com a proteção do sr. vice-rei.
— O seu nome?
— Alexandre Cardoso.
O conde já esperava ouvir esse nome, e por isso não mostrou abalo, nem surpresa.
— Conte-me a história do seu infortúnio, disse ele.
Emiliana fez um supremo esforço para dominar o pejo que lhe peava a língua, e com os olhos no chão, começou a falar.
O vice-rei escutava a história de que sabia metade; havia, porém, nela, um ponto obscuro e duvidoso que desejava esclarecer: se Emiliana fora vítima da violência, ou cúmplice seduzida, ou especuladora enganada.
Pouco a pouco a inocência e a verdade de Emiliana foram entrando na alma do vice-rei.
Mas, enquanto o conde da Cunha ouvia com interesse animador a filha do carpinteiro, uma cena violenta se passava no saguão do palácio.
Alexandre Cardoso chegou; e, ao entrar no saguão, esbarrou com Marcos Fulgêncio, que, passeando, esperava Emiliana.
O ajudante oficial-de-sala estremeceu, supondo que o carpinteiro vinha falar ao vice-rei, e dirigiu-se a ele com fingida amabilidade:
— Marcos Fulgêncio! Estimo ver-te; a tua casa estará acabada dentro de quinze dias, e...
Alexandre Cardoso estacou, vendo os traços descompostos do rosto de Marcos.
As naturezas nobres, generosas e rudes não sabem fingir: o carpinteiro olhava Alexandre Cardoso com raiva ameaçadora, e no convulsar dos lábios, mostrava-lhe alvejantes os dentes cerrados.
— Que tens, Marcos Fulgêncio? Que aspecto feroz é esse? perguntou o soberbo oficial, sorrindo com desprezo.
— Siga o seu caminho! murmurou rouca e sinistramente o carpinteiro, tendo já a cabeça perdida.
Alexandre Cardoso voltou-lhe as costas, e disse aos soldados da guarda:
— Ponham fora daqui esse doido.
Como se realmente houvesse endoidecido o carpinteiro rugiu terrível, e atirou-se furioso sobre o seu inimigo; mas numerosos braços o agarraram e travou-se luta desigual, em que o carpinteiro contra os soldados, um contra vinte, desesperado se debatia.
O ruído chegou aos ouvidos do vice-rei, que mandou saber o que havia, e Alexandre Cardoso, correndo a informá-lo, recuou como espavorido, encontrando o conde em companhia de Emiliana.
Simulando não ter percebido o espanto do seu ajudante oficial-de-sala, o conde perguntou-lhe:
— Que há lá embaixo?...
Alexandre Cardoso dominara-se logo, e respondeu, adivinhando e arrostando toda a situação.
— Senhor vice-rei, lá embaixo o pai desta moça insultou-me, e ousou ameaçar-me; cá em cima esta mulher me caluniava sem dúvida.
— Como o sabe?
— No empenho de hostilizar-me, odientos inimigos, explorando a perversão de uma aventura, fizeram dela o seu instrumento, e ela e eles convenceram o mais estúpido dos pais de que eu fui sedutor de sua filha...
Emiliana, tomada de horror, olhou para o conde da Cunha e não ousou falar.
— Era o que eu estava pensando! exclamou o vice-rei; e com intrigas semelhantes me tomam o tempo, e perturbam o espírito! Que destino deu ao pai desta desgraçada?
— Vou mandá-lo recolher à cadeia, se o sr. vice-rei não ordenar o contrário...
— Estou hoje de bom humor; dormi bem e almocei ainda melhor: haja perdão! A esta moça, basta a sua vergonha, ao pai, a sua loucura; faça entregar a filha ao pai, e que ambos nos deixem tranqüilos.
O ajudante oficial-de-sala curvou-se respeitosamente.
Emiliana, profundamente ressentida, fez uma simples vênia ao vice-rei, e saiu abrasada em cólera.
Marcos Fulgêncio estava subjugado no saguão do palácio; mas, em obediência às ordens do vice-rei, foi solto, e acompanhou Emiliana de volta para casa.
— Disseste tudo ao vice-rei?
— Tudo.
— E então?
— Justiça seja feita contra o vice-rei, que é o primeiro criminoso.