As Mulheres de Mantilha/XLVII
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo XLVII) por |
Por mais ativos que fossem os trabalhos da reconstrução da casa de Marcos Fulgêncio ordenada pelo conde da Cunha e à custa do seu bolsinho em cerca de vinte dias estava apenas adiantada, mas ainda um pouco longe de terminação das obras.
Marcos Fulgêncio e Fernanda estavam morando com sua filha na pequena casa que fora de seu marido, e que ela não quisera deixar, embora muito rica se achasse.
Emiliana limitara-se a mandar limpar a casa e a orná-la com extrema simplicidade; muito recente era a afronta de que fora vítima, e ainda não podia pensar nos gozos de uma vida brilhante que lhe proporcionava a fortuna.
A filha do carpinteiro tinha o coração cheio de ódio, aspirava vingar-se do seu algoz; mas devorava em silêncio as lembranças da afronta; porque seu pai ignorava a sua desonra, e ela sabia de quanto era capaz Marcos Fulgêncio, tão pobre como honesto, e tão respeitador dos preceitos da moral e da religião, como zeloso até o extremo da reputação de sua família
Emiliana, apesar de viúva e portanto emancipada, tinha medo do furor de Marcos Fulgêncio.
Na noite da serração da velha, às oito horas pouco mais ou menos uma mulher, trajando com elegância, veio bater à porta da casa da Rua do Parto, procurando Marcos Fulgêncio e foi recebida na sala, onde estavam o carpinteiro, Fernanda e a filha viúva.
Emiliana estremeceu, reconhecendo Maria, que oferecendo a mão a Marcos Fulgêncio, disse-lhe:
— Sua mulher é uma santa, sua filha uma vítima que se resigna, e só o senhor é forte, e capaz de entender-se comigo.
— Virgem Nossa Senhora! exclamou Fernanda.
Emiliana ficou muda e a tremer.
O carpinteiro disse:
— Fale, minha nobre senhora.
— Vou ferir-lhe o coração; tenha porém paciência para ouvir-me até o fim e estou certa de que se entenderá comigo.
O carpinteiro cruzou os braços sobre o peito.
— O senhor tem sido piedosamente enganado por sua mulher e sua filha...
— Perdão, minha nobre senhora! mas..
Marcos Fulgêncio queria dizer, porém não disse — não creio; porque viu a perturbação e o susto de Fernanda e de Emiliana.
Maria continuou impávida:
— Quando na noite do incêndio da sua casa, o senhor foi levado quase moribundo para a Santa Casa de Misericórdia, sua virtuosa mulher correu em desespero, onde lhe levavam o esposo...
— E Emiliana?
— Ficou na casa arrumada da velha perversa, que de surpresa deu a notícia da sua morte à filha infeliz, que soltou um grito e desmaiou...
— E depois?...
— A velha introduziu no quarto onde estava sua filha um oficial militar, e fechou a porta.
— Alexandre Cardoso! bradou Marcos Fulgêncio, levantando-se.
— Ele mesmo, que abusou da inocente que estava desmaiada.
Marcos Fulgêncio agarrou com força nos punhos de Emiliana, obrigando-a a encará-lo e perguntou-lhe com os dentes cerrados:
— É verdade?
A filha respondeu, gemendo.
— É verdade.
O carpinteiro largou a filha, e furioso, disse à mulher:
— Abandonaste Emiliana!...
— E tu que morrias?!!! exclamou Fernanda.
— Sabias que o malvado tentava seduzir nossa filha!
— E tu que morrias?!!! repetiu a esposa com veemência.
— Devias deixar-me morrer! disse Marcos Fulgêncio com raiva.
— E tu me deixarias morrer?
O carpinteiro voltou-se para Maria e perguntou-lhe:
— Que mais?...
— Tenha a bondade de sentar-se, disse sossegadamente Maria.
Marcos Fulgêncio levou as mãos calejadas à fronte, e soltando gemido de leão ferido, sentou-se:
Maria prosseguiu com horrível frieza:
— Contei-lhe em resumo, a verdadeira história da sua maior desgraça: aquela menina foi vítima inocente, e sua mulher, tão culpada por abandoná-la, como o senhor foi culpado por cair, lançando golfadas de sangue. Agora, redigamos: a nódoa que manchou a reputação de sua filha foi lavada pelo casamento com Clélio Írias, de quem a sra Emiliana é hoje viúva, ou se ainda subsiste.
— Subsiste! disse sinistramente Marcos Fulgêncio.
— Ou se ainda subsiste, somente pode lavar-se de todo por meio do casamento com Alexandre Cardoso...
— E tu queres? perguntou rude e asperamente o carpinteiro à filha.
Emiliana fez um movimento de horror.
— Em tal caso, disse Maria, sempre inalterável e refletidamente fria; em tal caso, há só um caminho a seguir: é o caminho da vingança.
— Minha nobre senhora, murmurou terrível Marcos Fulgêncio: bem-vinda seja! Nós nos entenderemos.
— A senhora é uma tentação que quer deitar a perder meu marido! exclamou Fernanda.
— Silêncio! bradou Marcos.
— Que pretende fazer? perguntou Maria.
— Não se pergunta.
— Ao contrário, pergunta-se; entregue a si mesmo, amanhã Marcos Fulgêncio seria réu de assassinato, ou ainda pior, de tentativa de assassinato, e além de dar público testemunho da desonra da filha, iria pagar na forca o crime perpetrado.
— Que me importa a forca? Deixarei um exemplo de justíssima vingança...
— Que a lei de Deus condena.
O carpinteiro rugiu surdamente.
— Há mais fácil, mais segura, mais dolorosa e não pecável vingança, disse Maria.
— Qual?
— Amanhã vá falar ao vice-rei...
— O protetor do monstro?...
— Procure no palácio Germiano, o criado do conde da Cunha, dê-lhe o seu nome, peça uma audiência particular do vice-rei, e apresente a este a sua queixa, Vá, ou de manhã, às sete horas, ou à tarde, às cinco.
— E o vice-rei mandará levantar um sobrado sobre a pobre casa que fez construir para o carpinteiro! disse com ironia pungente Marcos Fulgêncio.
— Espere oito dias, pelo castigo do criminoso.
— E se no fim de oito dias o criminoso ostentar ainda a sua impunidade, e em vez de receber a punição merecida, mandar-me prender e condenar-me aos trabalhos públicos?
— Dada essa hipótese, há só dois recursos.
— Quais?
— Ou submissão de escravo ao poder que abusa e provoca...
O carpinteiro bateu raivoso com o pé.
— Ou começar a vingança pelo vice-rei.
— Misericórdia! bradou Fernanda.
— Ela tem razão, disse Emiliana; se o vice-rei não fizer justiça, haverá não um, porém dois criminosos, e dos dois o primeiro será o vice-rei.
— Ainda bem! exclamou Marcos Fulgêncio.
— Estamos, pois, entendidos? perguntou Maria.
— Estamos, disse o carpinteiro.
— Ainda não, tornou Emiliana.
— Por quê?
— Porque não é meu pai, sou eu que devo ir pedir justiça ao vice-rei.
— É assim, disse Maria.
— Meu pai me acompanhará ao palácio, e serei eu quem pedirá audiência ao vice-rei.
— Até que enfim! tornou Maria.
— E se o conde da Cunha ainda, por oito dias, deixar impune o seu ajudante oficial-de-sala, justiça seja feita por meu pai, pois que não temos governo que no-la faça.
Maria sorriu-se e disse:
— Não há de ser preciso.