As Mulheres de Mantilha/XXIII
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXIII) por |
Enquanto na sala do interior fervia o jogo com todas as suas ansiedades e tormentosas emoções, Maria entretinha na outra a companhia que reunira, fazendo cantar e dançar as moças e dando ela mesma o exemplo para animar a sociedade que aliás não podia perder por acanhada.
Ao terminar uma contradança à espanhola, Maria viu Gonçalo Pereira entrar na sala, e fazendo-lhe um sinal com os olhos, convidou uma das moças a cantar um lundu, gênero de música ligeiro e brejeiro que em muitas composições não teria cabimento em boa companhia pela licença quase obscena das letras, mas, que nessa reunião se ouvia sem constrangimento.
Nem todos os lundus eram assim e pelo contrário alguns ostentavam a graça especial desse gênero de música sem de leve ofender o pudor de uma donzela, e tinham o grande merecimento de possuir certo caráter nacional, embora os quisessem e queiram fazer passar bem ou mal fundadamente por imitação da zarzuela espanhola.
Gonçalo Pereira fora debruçar-se à janela, e enquanto a moça cantava o seu lundu com voz travessa e requebrados olhos, Maria dirigiu-se sem-cerimônia para onde estava o seu querido tenente.
— Jogaste?... perguntou ela.
— Não, e o teu conselho aproveitou-me.
— Ele ganha?
— Quem?
— Ângelo?
— Prodigiosamente.
— E Alexandre Cardoso?
— Perdeu já quanto dinheiro trazia e jogava sob palavra.
— Ainda bem!
— Mas por que, Maria?
— Amanhã e depois Alexandre Cardoso venderá em maior escala a justiça para trazer mais ouro a Ângelo.
Gonçalo Pereira fez um movimento de reprovação:
— Impiedosa! disse ele; tu deliras em tua vingança, e consentes que na tua casa se roube ao jogo!
Maria estremeceu.
— Ângelo rouba ao jogo... é um empalmador de cartas, tem segredos infames de ligeirezas sutis dos jogadores ladrões; ele rouba ao jogo!
Maria curvou a cabeça e respondeu:
— Rouba.
— Maria, o teu ódio leva-te à cumplicidade no mais torpe dos crimes!
— Gonçalo!
— É preciso que Ângelo não torne a jogar em tua casa.
— Porquê?...
— Eu não quero ler no teu belo rosto o reflexo hediondo desse crime.
Maria teve medo da indignação de Gonçalo Pereira, e também furor impetuoso de sua vingança, preparando aquele meio imoral para perder Alexandre Cardoso, nem lembrou que concorria para que outros fossem abusiva e indignamente despojados de suas riquezas.
— Tens razão, disse ela; Ângelo não há de jogar mais em minha casa e nem se aproveitará dos seus lucros de hoje.
— Como?
— Vou jogar.
— Maria!
— Tu não saias: terás que agradecer-me esta noite.
E deixando Gonçalo, disse em voz alta, e sorrindo-se:
— Senhoras! Liberdade plena a cada um de nós, a mim também! Comadre Luísa, ocupe estes moços e moças com um jogo de prendas: eu preciso de uma hora para outro empenho.
E enquanto a comadre Luísa dispunha e explicava o seu jogo de prendas, Maria foi ao seu gabinete, escreveu algumas linhas em meia folha de papel, que fechou como carta, e chamando um escravo, ordenou-lhe que levasse a carta a Ângelo, dizendo-lhe que alguém a trouxera e se retirara.
Ângelo acabava nova e ainda feliz cartada, quando admirado recebeu, abriu, e leu para si o bilhete que Maria lhe escrevera: "estás perdido, se me não deixas salvar-te; vou jogar contra ti; perde sempre, e perde tudo".
Ângelo empalidecera, e refletia, baralhando as cartas.
— Misericórdia! exclamou Maria, chegando-se à mesa do jogo; que monte de ouro!...
E desviando os olhos da áurea colheita de Ângelo, volveu-os pelos jogadores que palpitantes de emoção, uns descorados pela concentração da ira, outros afogueados pela expansão desse ou de outro aflitivo sentimento, tinham os olhos presos às cartas, e teimosos provocavam ainda a fortuna.
Maria tomou entre as suas uma das mãos de Alexandre Cardoso, e com estudada crueldade, largou-a logo, dizendo:
— Que gelo! Que mão de finado!
Alexandre Cardoso fingiu que se sorria.
— Como deve ser sublime o jogo! Senhores, eu também quero jogar! — Escolhe má noite; o banqueiro tem o diabo nas mãos!
— Dizem alguns que a mulher às vezes pode mais que o diabo: quero jogar; mas com uma condição...
— Qual?.
— Jogarei emparceirada com algum dos senhores que se prestará e ensine-me o jogo, deixando-me livres as inspirações.
Todos aplaudiram a idéia e por cortesia e por certos prejuízos comuns nos cada qual pediu e reclamou a dita da parceria coma bela cortesã, que tendo calculado com isso, tornou, dizendo.
— Não farei exceções: dos que têm perdido ao jogo cada um por sua vez será meu parceiro; e ainda mais.
— Que mais?
— Se eu ganhar como espero, aquele que por mim tiver recuperado o dinheiro perdido, deixará logo a parceria a favor de outro.
Os jogadores começavam a rir.
— E conta ganhar?...deveras?..
— Até hoje a fortuna sempre me sorriu. Eia! joguemos!.
Ângelo, tendo recolhido mais de oito mil cruzados, refletira friamente sobre o bilhete de Maria, e acabava por dar pouca importância à sua ameaça.
— Bela senhora, disse ele; não posso vencer a felicidade e a pesar meu, terei de vencer o seu encanto.
Maria sorriu-se para Ângelo tendo por segura a sua obediência
Logo depois, recebendo breves explicações do jogo talvez desnecessárias, lançou sem contar um punhado de moedas de ouro na carta que escolheu.
O parceiro que ela designara, seguiu-lhe a inspiração.
Ângelo carteou e ganhou.
Maria tornou a sorrir, aplaudindo a dissimulação do banqueiro, a quem ainda supunha obediente; mas, continuando o jogo, reconheceu-se ludibriada.
No fim da cartada ela tinha já perdido perto de dois mil cruzados.
Mais ressentida da desobediência do que da perda do dinheiro, e lembrando-se de Gonçalo Pereira, cuja reprovação a magoava, a altiva cortesã disse:
— Asseguram-me que sou bonita e sei que sou moça; ora as moças que são bonitas têm o direito do capricho e até do abuso: não é insulto que irrogo; é experiência que proponho ao banqueiro: a sua fortuna não lhe vem dos dedos, oh, não! Vem-lhe do simples acaso. Pois bem! Continue a ser banqueiro; mas entregue o baralho a alguém, que carteie por ele.
— Um homem não me faria tal proposição! observou Ângelo, perturbando-se.
— Mas, respondeu Maria com acento colérico, sendo uma mulher que a faz, a negativa do banqueiro autorizaria as suspeitas de qualquer homem.
E acrescentou logo depois:
— Senhor Ângelo, a sua felicidade é extraordinariamente prodigiosa: convém-nos experimentá-la ainda nesse mesmo baralho fora de suas mãos.
Os jogadores e entre eles alguns oficiais militares apoiaram vivamente a injuriosa proposição da bela e audaz cortesã que com olhos radiantes de fogo sinistro devorava o rosto do banqueiro desobediente.
Ângelo teve medo, baralhou as cartas, deu-as a partir, e entregou-as ao capitão que se sentara a seu lado, o que não quisera jogar.
— Volte-as o senhor, disse com raiva abafada.
— Baralhe-as de novo, e dê doutra vez a partir, disse também Maria ao capitão.
Baralhadas e partidas novamente, o capitão começou a cartear depois de feitas as paradas.
Ângelo pela falta do baralho tinha perdido o domínio das cartas, e pelo insulto que lhe fizera Maria, a placidez que apadrinha o tino; perdeu sucessivamente cinco paradas, ganhou a sexta e sétima, e tornou a perder seguidamente seis vezes antes de ganhar uma vez. A cartada custou ao banqueiro a terça parte dos seus lucros.
— Duas cartadas ainda, e ele perderá a sua última moeda de ouro, exclamou Maria a rir.
— Eia pois! bradou Ângelo fora de si, e sujeitando-se ainda à aviltadora experiência.
A profecia da bela cortesã realizou-se: Ângelo viu todo o seu dinheiro passar às mãos dos jogadores, de cuja confiança e lealdade havia indignamente abusado. A fortuna de Maria, e a sua própria perturbação tinham sido os instrumentos de um castigo providencial.
Ângelo levantou-se confuso:
— Conto em breve com a minha desforra, disse ele.
Maria tinha já deixado a sala do jogo, que aliás continuou sempre animado.
Ângelo saiu; mas ao chegar à escada encontrou Maria que lhe entregou um lenço cheio de moedas de ouro e lhe disse:
— Toma o que te ganhei; é o meu dinheiro que te volta às mãos: não jogarás mais em minha casa, e, pois que me desobedeceste, não tornes a ela.
Ângelo recebeu o dinheiro atado no lenço, e desceu a escada precipitadamente.
Maria, voltando-lhe as costas, encontrou diante de si o tenente Gonçalo Pereira que a seguira.
— Muito bem, Maria! Eu te adoro hoje mil vezes mais do que ontem!
Maria, sorrindo feliz, estendeu para Gonçalo o pescoço e recebeu nos lábios um beijo do amante amado.
— Quero jogar prendas! gritou ela, entrando na sala.
— E eu também! disse Gonçalo Pereira perdido de amor.