As Mulheres de Mantilha/XXX
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| As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXX) por |
Marcos Fulgêncio voltava do trabalho para o seio da família invariavelmente ao anoitecer; às oito horas ceava, às nove dormia.
Na segunda-feira do carnaval procedeu como em todos os outros dias; mas logo depois das dez horas da noite despertou aos pavorosos brados de Fernanda, que assim se chamava sua mulher, e saltando fora da cama, viu sua pobre casa ardendo em fogo; ainda tonto de sono Marcos Fulgêncio hesitou por alguns momentos; mas a fumaça começava a invadir o quarto, e um clarão horrível inundara a sala.
O carpinteiro tentou sair para a sala e recuou ante o fogo que devorava o teto, semeando de contínuo pedaços de ripas e caibros abrasados e telhas que caíam por falta de apoio; calculando então as proporções do perigo tornou a trancar a porta do quarto, correu a uma janela que se abria para o lado direito da casa, escancarou-a, tomou em seus braços Fernanda, lançou-a fora da casa, atirou-se também pela janela, tendo primeiro arrojado por ela o seu caixão de instrumentos.
— Minha filha!... minha filha!... gritava Fernanda.
Mas o carpinteiro não parara um instante: do caixão de ferros tirou um formão e o martelo, e precipitou-se para os fundos da casa, onde havia uma porta em frente do mar.
Marcos Fulgêncio não falava: chegou diante da porta que procurava, avançando com o formão e o martelo; mas como se julgasse moroso o meio, largou no chão os instrumentos, aplicou um dos ombros à porta e durante um minuto talvez empregou tão ferrenho esforço, que conseguiu rebentar a fechadura.
O carpinteiro cambaleou e abrindo a boca lançou uma golfada de sangue; mas penetrou logo acelerado na casa, e em breve, soltando um grito de dor imensa, voltou, trazendo nos braços Emiliana morta ou desmaiada, e a depositou, chorando, no colo de Fernanda, que em desespero se abraçou com ela.
Só então Marcos Fulgêncio ouviu os sinos, dando sinal de incêndio.
Começava a acudir gente e não tardou a velha vizinha que habitava a casa arruinada, e que, ao ver Emiliana estendida no chão e exposta em camisa como o pai a trouxera da cama, tirou a sua mantilha e cobriu-a com ela.
Emiliana não estava morta, e bastaram alguns minutos do ar livre, fresco e puro da noite para que ela recobrasse os sentidos que perdera.
Marcos Fulgêncio e Fernanda responderam com duas exclamações de alegria ao primeiro suspiro de Emiliana, que logo depois abriu os olhos e sentou-se apoiando-se em sua mãe.
Ouviu o tropel de cavaleiros.
— É a tropa que chega, disse a velha; esta menina não pode ficar aqui; comadre Fernanda, levemo-la para minha palhoça...
— Sim, disse Marcos Fulgêncio; vai com ela para a casa da comadre Pôncia.
E tranqüilo sobre o estado da filha, o carpinteiro pensou de novo no incêndio.
A antiga e pesada construção das casas, o emprego de madeiras de lei e de grossura exagerada, a fortaleza das paredes explicam a razão do longo trabalho do fogo a devorar ainda mesmo um pequeno prédio bem edificado.
A casa do carpinteiro Marcos Fulgêncio fora construída pouco a pouco por ele mesmo e sob sua zelosa direção e era toda dessas madeiras do Brasil que arremedam o peso, a dureza e a resistência do ferro.
Os socorros tinham chegado e o homem combatia o incêndio. O tenente-coronel Alexandre Cardoso dirigia com serenidade, inteligência e energia todos os trabalhos.
— Coragem, Marcos Fulgêncio; gritava ele, quando via o carpinteiro passar correndo.
O fogo conquistara todo o teto da casa.
Marcos Fulgêncio não falava; mas tinha com sublime frieza medido a fúria do incêndio, e compreendido o que mais lhe convinha fazer para que fosse menor o seu prejuízo.
Desprendendo um machado, o manejara ativamente, despedaçando as portas e janelas para dar livre saída ao fumo e com audacioso ímpeto arrojava-se ao interior da casa, ou entrando pelas portas, ou saltando pelas janelas, e logo enegrecido pela fumaça, chamuscado pela flama, saía trazendo à cabeça ou nos braços alguns objetos, algum pobre fardo ou traste que salvara.
As caixas de roupa de sua mulher e de sua filha, o bastidor e a roca de Fernanda, e outros objetos foram assim arrancados por ele à completa destruição.
Mas sem dúvida o tesouro do carpinteiro devia estar na sala da frente, pois que ele já vinte vezes tentara invadi-la e vinte vezes recuara, rugindo, por não poder assoberbar as línguas de flama e os vômitos de fumo.
E já duas vezes novas golfadas de sangue haviam marcado o ressentimento do corpo pelo excesso do esforço de Marcos Fulgêncio.
Enfim o indômito carpinteiro fez o sinal-da-cruz, e aos gritos — "o teto vai desabar!" que, ouvindo um medonho estalo, soltava a multidão, ele, furioso, investiu pela porta da frente através da fumaça ardente, e desapareceu.
— Misericórdia!... bradaram mil vozes.
Um vulto imenso, como um fantasma mostrou-se à porta em meio da nuvem espessa de fumo.
O teto estalou outra vez e desabou todo.
E Marcos Fulgêncio, negro, com as mãos queimadas, com os vestidos em trapos, avançou, trazendo à cabeça o seu oratório que depôs no chão.
— Graças a Deus! exclamou ele.
E ajoelhou-se, estendeu os braços para o oratório, e caiu por terra sem sentidos.