As Mulheres de Mantilha/XXXI

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXXI)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Fernanda e comadre Pôncia tinham levado quase carregada para a pobre casa arruinada a menina Emiliana e lá a haviam feito deitar na humilde cama do estrado da velha.

Enquanto Emiliana descansava, pois que em breve dormiu sono embora agitado por contrações nervosas, a velha e Fernanda conversaram em voz baixa:

— Mas... este incêndio... como foi? perguntou Pôncia.

— Tomara eu que mo digam, comadre Pôncia, respondeu Fernanda: às nove horas da noite apaguei eu a candeia, e não havia no fogão nem uma brasa: o fogo foi maléfico...

— De quem?

— Eu sei lá!

— Depois que puseram para fora da terra os santos padres jesuítas, têm-se visto destas e de outras...

— E o meu Marcos! exclamou Fernanda.

— É o homem são e prudente que sabe o que faz; não se ponha em aflição por ele.

Fernanda chorava.

— As vezes o não-sei-que-diga tenta os tementes a Deus com estes e outros infortúnios para excitar o pecado do desespero; eu sei casos! Quer que lhe conte um que presenciei e vi com estes olhos que a terra há de comer?...

— Conte, comadre Pôncia, disse Fernanda, que aliás não atendia.

A velha Pôncia contou de enfiada meia dúzia de histórias de ridículas proezas do diabo.

Fernanda continuava a inquietar-se pela sorte de Marcos Fulgêncio, quando principiaram a chegar os objetos por ele salvos do incêndio e as notícias repetidas de que o carpinteiro estava ousando fazer com risco da própria vida.

Os temores e ânsias de Fernanda agravaram-se; ela porém que a miúdo deixava o quarto, onde Emiliana dormia, para falar às pessoas que chegavam, e que lhe davam novas do marido, não se atrevia a deixar só a filha na casa de Pôncia, em quem Marcos não confiava.

Mas por último um soldado que viera, correndo, anunciou o desmaio e o estado melindroso do carpinteiro.

Fernanda esqueceu a filha, e saiu precipitada em socorro do marido, que fora conduzido para a Santa Casa da Misericórdia, onde ela foi encontra-lo devorado de febre e em furente delírio.

A esposa amante e fiel ficou junto do esposo ameaçado de morte próxima.

Entretanto, na casa da velha Pôncia, Emiliana despertara em sobressalto aos lamentos de sua mãe, que correndo, partira, e a traiçoeira hóspede não hesitara em dar-lhe a notícia do que acontecera a Marcos Fulgêncio.

Emiliana soltou um gemido profundo e outra vez desmaiou.

Alexandre Cardoso entrou então no quarto, e a velha infame saiu, cerrando a porta.

Às três horas da madrugada o ajudante oficial-de-sala do vice-rei esgueirou-se furtivo da casa arruinada da tia Pôncia, onde aliás muito se demorara.

E depois que ele passou, dois embuçados saíram dentre os arbustos que próximos havia, e caminharam pela praia de Santa Luzia e Rua da Misericórdia até o palácio, diante do qual pararam junto de uma porta lateral.

Um sentinela vigilante correu, e tomou-lhes o passo, intimando-os a dizer quem eram.

Um dos vultos embuçados atirou para trás a capa que o outro apanhou, e mostrando o rosto à sentinela, perguntou-lhe:

— Conheces-me?

O soldado recuou tremendo espantado, e disse a gaguejar:

— O senhor vice-rei!...

— Que te mandará enforcar, se disseres a alguém o que acabas de descobrir.

A sentinela ficou muda e estática.

O vice-rei e Germiano entraram no palácio.