As Mulheres de Mantilha/XXXII

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXXII)
por Joaquim Manuel de Macedo
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O conde da Cunha velou o resto da noite: irascível e violento, atormentou-o a necessidade da dissimulação com Alexandre Cardoso, de cujo procedimento criminoso e indigno não podia mais duvidar como dantes. Testemunhando incógnito o incêndio e os trabalhos para dominá-lo, o vice-rei a principio se ufanou do zelo da intrepidez, e da ação e direção inteligentes que mostrara o seu ajudante oficial-de-sala; mas logo que abateu o teto da casa incendiada, Alexandre Cardoso não foi mais visto, e outro oficial comandou em seu lugar.

Contrariado pelo súbito desaparecimento daquele a quem viera observar e que assim lhe escapara às vistas, o conde afastou-se um pouco da multidão reunida e perguntou ao ouvido de Germiano.

— O tenente-coronel Alexandre Cardoso?

O mudo estendeu o braço e com a mão apontou para a mata de arbustos fronteira à casa incendiada.

— Segue-me, disse o vice-rei.

E entrou na mata que por aquele lado cobria a fralda do monte do Castelo.

As últimas flamas do incêndio esclareciam a mata, onde Germiano tomou a dianteira ao vice-rei, gastando ambos algum tempo a procurar debalde o ajudante oficial-de-sala.

Por fim o vice-rei ouviu lamentos e logo descobriu uma pequena casa, perto da qual acabava, ou antes, era interrompida a mata.

O conde da Cunha parou, observou por alguns minutos e viu sair da casa, em pranto e desespero, uma mulher que deitou a correr, e viu mais um oficial surgir da sombra espessa, passar perto dele e entrar na casa, cuja porta fechou.

O vice-rei estremeceu, tomou uma das mãos de Germiano, e disse-lhe:

— Quando me apertares a mão, dirás — sim; se não ma apertares, quererás dizer — não.

Era um recurso para se entender com o mudo às escuras.

— Conheceste o homem que acaba de passar perto de nós, e de entrar naquela casa?

O mudo apertou a mão do vice-rei.

— Era Alexandre Cardoso?

O mudo tornou a fazer o mesmo sinal.

— Estás certo de que era ele?

Germiano apertou com mais força a mão do conde da Cunha.

— Sabes quem mora nessa casa?.

A mão do mudo ficou inerte.

O vice-rei esqueceu-se da noite em longo refletir, e querendo convencer-se por seus próprios olhos de que era Alexandre Cardoso e não outro que entrara na casa arruinada, aproximou-se do caminho, e sempre oculto na mata, mas com os olhos na porta da casa, esperou.

Passado algum tempo ouviu um grito pungente, fez um movimento para lançar-se à casa arruinada; mas Germiano o susteve.

Reinou profundo silêncio.

O conde da Cunha arquejava de impaciência e de fadiga; mas finalmente a porta da casa se abriu, uma velha apareceu, levando na mão uma candeia, a cuja luz mostrou-se o rosto e o vulto de Alexandre Cardoso, que apressado se retirou.

O vice-rei ficou sabendo metade do que lhe cumpria saber e adivinhou o resto.

Na manhã da terça-feira do carnaval o ajudante oficial-de-sala apresentou-se ao vice-rei.

— O incêndio?... perguntou este apenas o viu entrar.

— Devorou a casa, de que apenas ficaram as paredes.

— Foi casual?

— Supõe-se que não, senhor vice-rei.

— Como o explicam?

— Por mim nada sei ao certo; dizem porém alguns que o incêndio abriu a porta a uma filha contrariada em seus amores por pais severos.

— E o cúmplice da perversa?

— Falam de uma farda, de um soldado, ou de algum oficial.

— Onde está essa mulher incendiária?

— Esteve na casa de uma velha sua vizinha que a recolheu; agora não sei, pois que ao amanhecer fugiu desse pobre asilo...

— E os pais da desgraçada?

— O pai está na Santa Casa da Misericórdia e corre perigo de vida, a mãe ao pé do marido vela por ele, e não sabe de si, nem da filha.

O vice-rei mal contendo a sua cólera, disfarçou-a, exclamando:

— Tenente-coronel! ontem à noite o vice-rei e o ajudante oficial-de-sala contraíram duas dividas, que é preciso pagar.

— Como, senhor?

— Devemos à moralidade pública o nome e a posição do cúmplice ou perverso violentador dessa moça, filha de pais pobres, mas honestos.

— Empenho-me em descobrir o crime e os criminosos, respondeu Alexandre Cardoso.

— Mas o crime produziu os seus efeitos: há uma casa incendiada e uma donzela desonrada; devemos, pois, aos pobres que tanto perderam uma compensação; devemo-la; porque desta vez fomos ambos autoridades pelo menos desmazeladas; o ajudante oficial-de-sala o foi por não acudir a tempo de salvar a casa, e sobretudo por não ter sabido salvar a honra da família do mísero carpinteiro; e o vice-rei também o foi, pois o seu lugar ontem à noite era diante do incêndio e deixou-se ficar dormindo pelas seguranças que recebeu em um recado oficial. Multemo-nos portanto, tenente-coronel: o vice-rei mandará à custa do seu bolsinho reconstruir a casa incendiada, e o ajudante oficial-de-sala, se não descobrir o sedutor, raptor ou cúmplice da donzela dotá-la-á e casá-la-á com algum oficial de oficio a contendo dos pais da menina. Que diz?

— Que respeito e admiro sempre o espírito de justiça do senhor vice-rei.

— Bem... bem... recomendo-lhe este assunto do incêndio e de todas as circunstâncias que o acompanharam; quero providências urgentes, e notícias do infeliz carpinteiro.

Alexandre Cardoso, vendo-se livre dessa questão para ele escabrosa, apresentou ao vice-rei uma folha de papel com algumas linhas escritas.

— Que é isso? perguntou o conde.

— São os nomes de alguns bons vassalos de el-rei nosso senhor lembrados para os postos principais de novo terço de infantaria criado na vila de...

— Ainda comandantes sem comandados!... exclamou o vice-rei, interrompendo Alexandre Cardoso.

— É o meio de organizar mais prontamente esses corpos e, obedecendo às ordens do senhor vice-rei, ajuntarei a cada nome proposto miúdas informações da nobreza, fortuna e serviços respectivos.

— Sim.., veremos isso depois.

— Com o mais profundo respeito cumpre-me informar também ao senhor Vice-Rei que as necessidades do serviço continuam a reclamar a imediata organização desses terços de infantaria auxiliar.

O conde da Cunha pensou por breve tempo e disse:

— Quer saber?... Acho-me hoje incapaz de resolver prudentemente negócios do governo; desde ontem sinto-me irritado e de mau humor...

Alexandre Cardoso observava respeitoso o vice-rei.

— Passei por cruel desengano: o meu nome, a importância do alto cargo que desempenho, o valor da honra imensa que fiz, foram desconsiderados!

— Como, senhor vice-rei?!!!

— Jerônimo Lírio, um vil embora rico traficante, um mercador de vinhos e azeite, ousou ontem recusar-me sem rebuço e com teima insolente a mão de sua filha Inês que abaixei-me a ir pedir-lhe para o meu ajudante ofïcial-de-sala!.

Alexandre Cardoso empalideceu.

— O vice-rei conde da Cunha recebeu três vezes na face o — não — do traficante que deveria responder-lhe — sim — ajoelhando-se!

E o conde media a passos largos a sala, como costumava fazer quando se achava em cólera.

Alexandre Cardoso não falava; mas nervoso tremor agitava seus lábios que às vezes mostravam um rir, que não era riso, ou era o riso do demônio das vinganças.

O vice-rei parou enfim diante de Alexandre Cardoso e disse-lhe:

— Sofra no seu amor e na sua vaidade o que eu sofri na minha alta dignidade.

E com movimento de ira acrescentou:

— Proíbo-lhe que outra vez me fale nesse... negociante que me desconsiderou.

E voltando as costas, deixou a sala.