As Mulheres de Mantilha/XXXV

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXXV)
por Joaquim Manuel de Macedo
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A tarde e noite da terça-feira, o último dia do entrudo, foram de alegria, de delírio, de frenesi, e de inocente loucura na cidade do Rio de Janeiro.

O jogo do entrudo proibido nos seus dois primeiros dias, e autorizado na tarde e noite do terceiro, foi como o ímpeto da inundação que vence e destrói o dique que se lhe opunha.

O fervoroso exaltamento da população na costumada festa de três dias reduzida à metade do terceiro e último dia, vingou-se da proibição, ostentando desenfreado furor do entrudo, e gozo pacífico, entusiástico, do jogo tantas vezes provocador de rixas e desordens, e então somente excitador de ruído festivo e de risadas expansivas e amigas.

A indústria anual e efêmera dos limões-de-cheiro era exclusivamente explorada por senhoras de famílias pobres e como em prova de gratidão ao despacho que o vice-rei dera ao requerimento, dezenas de mulheres de mantilha, seguidas de multidão de ambos os sexos, rodearam à tarde da terça-feira o palácio, dando vivas ao vice-rei conde da Cunha que pela primeira vez os recebia espontâneos.

Feito esse passeio de ostensivo reconhecimento, os aclamadores do Conde da Cunha espalharam-se pela cidade, onde em quase todas casas, as famílias, e em todas as ruas paisanos de mistura com soldados, estudantes, operários, mulheres e meninos, se entrudavam freneticamente.

O velho Clélio Írias foi talvez o único habitante da cidade que maldisse da contra-ordem do vice-rei, porque menos comodamente, e sem dúvida expondo-se a algum banho, tinha de ir à casa de Alexandre Cardoso; mandou porém pedir de empréstimo a cadeirinha de um seu compadre e metendo-se nela, fez-se conduzir, levando as cortinas fechadas, e a caminhar adiante um escravo, que bradava aos grupos de jogadores de entrudo: "é doente que vai para a Santa Casal" e com efeito a cadeirinha levava a direção da Rua da Misericórdia, onde morava o ajudante oficial-de-sala.

A multidão respeitou a cadeirinha que enfim parou à porta da casa de Alexandre Cardoso.

Clélio Írias subiu a escada e foi recebido pelo futuro sócio que se achava só.

Sentaram-se os dois em frente um do outro.

— Trazes o dinheiro? perguntou Alexandre Cardoso.

— Certamente e também a clareza da dívida antiga.

— Bem: eu te garanto ampla e constante proteção em matéria de administração de obras do rei, e de fornecimento que forem necessários para as tropas; prescindo da parte que me ofereceste nos lucros e...

— Mas eu não prescindo: quero-o por sócio, senhor ajudante oficial-de-sala; é essa uma honra de que faço questão.

— Sociedade sob palavra.

— Lá isso como lhe parecer.

— Sujeito-me, Clélio Írias: é negócio concluído.

— E as três folhas de papel?...

— Dar-te-ei trezentas.

— Bastam-me as três que contêm a denúncia e os dois ofícios.

Alexandre Cardoso resistiu e durante uma hora empregou debalde todos os argumentos e todo o empenho para fazer com que o velho usurário não insistisse nessa condição cruel; este porém ria-se e dizia:

— Cada um sabe as linhas com que se cose.

Por fim o ajudante oficial-de-sala sacou do bolso as três folhas de papel exigidas, e atirou-as a Clélio Írias, dizendo:

— Toma-as pois, velho do diabo!

Clélio Írias examinava com o maior cuidado o papel e a letra, e linha por linha, e palavra por palavra os três escritos, e rindo-se outra vez com o seu riso repugnante, observou:

— Não há que notar... são os mesmos...

— Ousavas pô-lo em dúvida, malvado usurário?...

— Cada um sabe as linhas com que se cose.

Alexandre Cardoso em outro qualquer dia houvera castigado a insolência de Clélio Írias; nesse, porém, tanto o aviltava a necessidade de dinheiro, ou nele podia alguma consideração, que em vez de repelir o insulto, disse:

— Dei-te os papéis que por mim e por ti deves encerrar para sempre no fundo da tua burra de ferro: dá-me agora a clareza e os cinco mil cruzados.

Clélio Írias desabotoou o jaleco, e logo em seguida um bolso de couro preso à face interna do mesmo jaleco, e fechado com botões de metal na parte superior: tirou um pequeno saco, e dele a clareza passada e assinada desde dois anos por Alexandre Cardoso de Meneses, e peças de ouro no valor de cinco mil cruzados.

O ajudante oficial-de-sala recebeu e guardou a clareza e o dinheiro, e Clélio Írias fechou no bolso de couro as três folhas de papel e disse:

— Agora sim, está o negócio concluído.

— Retira-te pois, velho maldito: por hoje basta de aturar-te.

— Mas prepara-te para aturar-me depois de amanhã,.

— Tão depressa!

— Trar-lhe-ei o plano das primeiras operações da nossa sociedade.

O ajudante oficial-de-sala sorriu-se e Clélio Irias tomou o chapéu, e fez sua reverência de despedida.

Alexandre Cardoso acompanhou o velho até à porta que trancou sobre ele, e dirigiu-se com precipitação para o interior da casa.

Clélio Írias acomodou-se na cadeirinha, cerrou as cortinas, e mandando que o levassem de volta por outras ruas, incumbiu o escravo que caminhava na frente de anunciar aos jogadores de entrudo: "é uma senhora que caiu na rua com um ataque de cabeça!"

A cadeirinha seguiu pela Rua da Misericórdia, Praça do Carmo (hoje Praça de d. Pedro II), Rua Direita, Rua do Ouvidor, aproveitando-lhe quatro vezes o triste anúncio da senhora com ataque de cabeça; tomou depois pela Rua dos Ourives; mas no ponto em que esta rua corta em ângulos retos a da Cadeia (atualmente da Assembléia), um grupo numeroso de entrudadores com limões-de-cheiro, seringas e baldes d’água avançou, galhofando, para a cadeirinha.

— É uma senhora que caiu na rua com ataque de cabeça! bradou o escravo.

Os brincadores hesitavam.

— Que graça! exclamou um homem alto, corpulento, e que pelo trajar indicava ser oficial ou mestre de ofício; que graça: este mesmo pregoeiro anunciou, há duas horas, nesta mesma cadeirinha, um doente levado para a Santa Casa!...

— É pulha! É pulha! gritavam muitas vozes.

— Vejamos a doente!.... Vejamos a senhora!...

E o homem alto e corpulento, lançando-se adiante de todos, abriu à força as cortinas da cadeirinha, e arrancou de dentro e mostrou suspenso em seus braços de ferro o velho Clélio Írias, cuja voz se perdeu no meio das gargalhadas e da algazarra da gente que formava o grupo e da que corria para aplaudir o caso que tanta alegria excitava.

Preso pelas pernas e braços, empurrado para todos os lados, já todo molhado dos pés à cabeça, cego pelos esguichos das seringas, surdo pela tempestade de gritos, o velho usurário lutava e se estorcia em vão.

— Um banho! um banho! um banho!

Um enorme gamelão cheio d’água estava perto no meio da rua para o serviço do entrudo: o homem alto e corpulento disputava a vinte outros a glória de levar o velho ao banho, e na luta e no esforço rompiam-se os vestidos da vítima que pelo hércules que desde o princípio o agarrara, foi conduzido e mergulhado no gamelão.

Com a força prodigiosa, suprema, que em desespero ostentam os ameaçados de asfixia por submersão, Clélio Írias pôs a cabeça fora d’água e bramiu furioso:

— Não me afoguem!

— Ninguém o quer afogar; mas aprecie aí o seu banho! respondeu o hércules, comprimindo com as mãos o peito do velho que a reagir contra a força que o esmagava, estorcia-se nas mãos do homem terrível, que escorregavam para um e outro lado, e cujos dedos no fervor da luta ainda mais despedaçavam os vestidos.

— Basta! Basta! exclamaram finalmente muitas vozes.

— Pois basta, respondeu o hércules, e deixando livre das garras afastou-se e desapareceu no meio da multidão.

Clélio Írias saiu do gamelão do banho no meio de estrondosas risadas e sem mais lhe importar a cadeirinha, dirigiu-se colérico e precipitado a sua casa que bem perto ficava, pois era, como dissemos, na Rua do Parto, e nela entrando, ia mudar de roupa, quando viu que o bolso de couro de seu jaleco estava despedaçado, e que havia perdido ou lhe tinham roubado os três documentos.

O velho soltou um rugido, e correu, como estava, para o lugar, onde recebera o violento banho; ali chegando exclamou:

— Perdi ou roubaram-me papéis preciosos! Eu os quero, eu os peço! Eu exijo os meus papéis!...

Algumas pessoas condoeram-se da aflição do velho, e empenharam-se improficuamente em descobrir os objetos perdidos.

Clélio Írias, fora de si, em frenético ardor, marchou apressadamente para casa de Alexandre Cardoso, a cuja porta encontrou-se com um soldado:

— O senhor ajudante oficial-de-sala? perguntou o velho usurário.

— Procure-o amanhã.

— Como? Não está em casa?

— A estas horas nunca.

— Sou exceção; para mim ele está sempre em casa.

— Faça pois o senhor um milagre: não ouve o galopar de um cavalo?

Clélio Irias atendeu ao ouvido, e respondeu logo:

— Ouço.

— O senhor tenente-coronel, que apressa o seu cavalo.

— Aonde vai ele?

O soldado riu-se, e tornou dizendo.

— Ele tem tanto aonde ir!...

O velho usurário caiu sentado na soleira da porta, sobre os joelhos descansou os braços, sobre estes a cabeça, refletiu por alguns minutos, levantou-se de súbito:

— Maria de... é a sua amante, ele deve estar lá... disse ao soldado.

E sem esperar pela resposta, caminhou com acelerados passos.