As Mulheres de Mantilha/XXXVI

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As Mulheres de Mantilha (Capítulo XXXVI)
por Joaquim Manuel de Macedo
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Em sua aflição pela perda dos importantes documentos Clélio Írias contava com o auxílio enérgico e com as providências do ajudante oficial-de-sala, por certo muito interessado em reaver papéis que podiam comprometê-lo gravemente.

Afrontando pois certas conveniências o velho usurário foi bater à porta da casa da bela cortesã, e deu o seu nome ao escravo que lha abriu, declarando que procurava o senhor tenente-coronel Alexandre Cardoso para negócio urgentíssimo, e da maior delicadeza.

Daí a breves instantes recebeu ordem para subir e esperar na sala; mas pouco esperou; porque Maria apareceu-lhe com todo o esplendor de sua voluptuosa formosura, trazendo soltos os longos e anelados cabelos e um simples vestido branco, apertado ao pescoço, mas amplo e sem prisões, como fraca e tênue nuvem a cobrir com um véu provocador os encantos de uma fada.

Clélio Írias apesar de velho estremeceu à aparição daquele prodígio de beleza.

A voz de Maria de... era suave e encantadora, como era belo o seu rasto e se adivinhava admirável de perfeição o seu corpo.

Sorrindo-lhe meigamente, ela disse a Clélio Írias:

— Alexandre Cardoso esqueceu-se hoje de mim; eu porém não o esqueço nunca, e velo sempre pelos seus interesses; chegará daqui a pouco, ou virá amanhã despertar-me para almoçar comigo...

Clélio Írias mostrou-se contrariado, e levantava-se para sair,

— Por que se incomoda? perguntou-lhe a cortesã.

— Eu precisava falar-lhe já.

— Já é impossível; se lhe apraz espere-o aqui, que ele há de vir ainda esta noite, ou amanhã pela manhã, pois nunca me falta; se isso o constrange, incumba-me do seu recado: eu sei dos negócios de Alexandre... faltou-lhe hoje, e a mim também, algum dinheiro... não ignoro o que se passou entre ele e o senhor Clélio Írias, a quem não é a primeira vez que recorre...

O velho usurário olhou espantado para a encantadora cortesã.

— Não me crê? perguntou ela com um daqueles feiticeiros sorrisos, que convenciam de tudo a todos.

— Não me atrevo a duvidar, minha bela senhora.... disse Clélio Írias.

— Então... mas... eu pensava que os senhores... já... se haviam entendido hoje...

— Sim... perfeitamente entendidos...

— E... realizado o negócio...

— Por isso é que se torna indispensável que fale hoje mesmo... já... ao senhor Alexandre Cardoso.

— O senhor começa a aterrar-me... Eu estremeço por Alexandre... Que aconteceu, senhor Clélio Írias?

Maria era uma atriz consumada: conhecia desde muito tempo o velho usurário; mas ignorava completamente o assunto de que ele e Alexandre Cardoso se tinham ocupado naquele dia; adivinhava como qualquer outro adivinharia que era negócio de empréstimo de dinheiro e fingiu ter conhecimento de outras circunstâncias, pois que evidentemente as havia e graves, pronunciando meias palavras que podiam significar tudo e nada; finalmente, ardendo na mais viva curiosidade, simulou-se possuída de grande medo, e trêmula e comovida, tomou entre as suas uma das mãos de Clélio Írias, e repetiu a pergunta que fizera:

— Que aconteceu? Que aconteceu? Diga-me... pois que está arranjado o negócio... Que mais quer de Alexandre ainda hoje?...

— Onde posso eu encontrá-lo?... perguntou o velho, levantando-se aflito.

— Oh! exclamou Maria; não me deixará assim nos tormentos da dúvida mais desesperadora... ah! eu adivinhava algum infortúnio e preveni Alexandre...

— Como, senhora?

— Opus-me a semelhante negócio...

— Sabe então... tudo?

— Por isso que tremo...

— Pois é preciso que o senhor tenente-coronel dê prontas e imediatas providências.

— Mas o que aconteceu?

— Perdi ou roubaram-me os documentos! disse o velho com voz lúgubre.

— Oh! e o louco jurou-me que eles não tinham a importância que...

Clélio Írias teve um ímpeto de furor:

— Porque eram falsos, eu sei, e lho disse! O senhor Alexandre Cardoso porém esqueceu-se de que há na denúncia dada contra mim uma de sua letra escrita a lápis, e que os falsificados ofícios do comissário do Santo Ofício e do bispo são provas de um crime que hão de perder a ele e a mim, que além disso fico ainda com o prejuízo de dez mil cruzados!...

— Exatamente como eu dizia, murmurou convulsa a cortesã; e que eu não sei onde achar Alexandre!... Mas é indispensável que ele saiba da perda dos papéis..

E ansiosa e quase chorando, chamou e despachou sucessivamente três escravos em procura de Alexandre Cardoso, tendo acompanhado o primeiro até à escada como a instruí-lo sobre diversas casas a que de preferência lhe cumpria ir.

— Também eu saio... disse o velho, tomando o chapéu.

— De modo nenhum, senhor Clélio Írias: espere aqui Alexandre, aproveitemos o tempo, estudando a sangue frio o caso, como ele se passou, para com alguma luz imaginarmos, calcularmos as medidas que convém tomar.

— Não tenho cabeça, respondeu o velho.

— Tenho-a eu e em breve lho provarei: refira-me sem desprezar o mais leve incidente, a mais insignificante circunstância, este desastroso sucesso; faça porém de conta que ignoro tudo.

Clélio Írias olhou atentamente para Maria.

— Ah! exclamou esta, como se lhe houvesse acudido uma idéia.

E levantando-se, chamou uma escrava, e mandou-a procurar Alexandre Cardoso em casa que lhe determinou.

Sentando-se de novo, disse:

— Vamos, senhor Clélio Írias.

— Quer que comece pela entrevista de hoje de manhã? perguntou o velho com os olhos fitos em Maria.

— Não; até aí sei eu; respondeu a fingida moça; mas... suspeita alguém pudesse estar ouvindo às ocultas o que os senhores conversaram?

— Falamos em voz de segredo e com a porta fechada.

— E depois?...

Clélio Írias que demais já havia dito, contou miudamente tudo quanto passara com ele, desde que saíra de casa em cadeirinha até à sua volta da casa de Alexandre Cardoso, o ataque dirigido contra a cadeirinha, a teimosa fúria dos hércules que não o deixara, senão no fim do banho, e concluiu, dizendo:

— Juro que foi aquele desalmado que me roubou os papéis, pensando que roubava dinheiro.

Maria, que ouvira em silêncio, disse-lhe sorrindo:

— Perdão! Só agora reparei que tem os vestidos completamente molhados.

E mandou vir licores e aguardente.

Enquanto o velho usurário se banhava interna e externamente em aguardente, Maria meditava, brincando com os dedos a enrolar e a desenrolar os anéis de seus cabelos soltos.

Quando acabou de beber e de embeber-se em aguardente, Clélio Írias, sempre agitado, disse:

— E o senhor tenente-coronel que não chega!

Maria desatou uma risada.

O velho encarou-a, raivoso.

— Há uma hora que representamos uma cena de comédia, meu velho: eu não sabia nem um ceitil do seu negócio com Alexandre Cardoso.

Grotesca estupefação de Clélio Írias.

— Mas eu prometi provar-lhe que tenho cabeça.

— E os escravos e escravas que saíram? perguntou estupidamente o usurário.

— Não saíram, respondeu Maria, rindo-se.

— Traição! bradou o velho.

— Em nosso proveito: eu sei e posso dizer-lhe, onde estão os documentos que lhe roubaram.

— Onde estão?

— Sente-se aí e responda-me: é capaz de esperar um dia, um mês, um ano pela vingança?

Clélio Írias sentou-se e respondeu:

— Sou.

— E se não a esperar, que me importa? Não há nada de comum entre nós; é porém de seu interesse servir à minha vontade e obedecer-me.

O velho sentia-se cada vez mais espantado.

— Senhor Clélio Írias, os seus dez mil cruzados foram-se.

— Não preciso que me diga.

— O desalmado que o arrancou da cadeirinha, e que o conteve em suas garras até o fim do banho era um soldado que se disfarçava em paisano...

— E para quê?...

— Para roubar-lhe os documentos...

— E que diabo tinha ele com os documentos?...

— Desgraçado homem! O senhor não sabe senão emprestar dinheiro com usura abusiva e assoladora.

— Isso não vem à questão.

— Mas é um castigo do céu, que o embruteceu tanto que o senhor nem soube ver no homem desalmado e furioso um instrumento do mais interessado em privá-lo, em despojá-lo daqueles documentos...

O velho tentou pronunciar um nome, e gaguejou, e a convulsar de raiva nada disse.

— Esses papéis estão em poder de Alexandre Cardoso, ou ele já os destruiu, queimando-os.

Clélio Írias espumava.

— Perdeu a partida, meu velho; agora porém continue o jogo, e espere um dia, um mês ou um ano pela vingança.

O usurário acenou com a cabeça afirmativamente.

— Amanhã, dissimulando toda suspeita, vá prevenir a Alexandre Cardoso da perda dos documentos, e finja-se temeroso das conseqüências possíveis por ele e por si.

O usurário escutava sem responder.

— Oportunamente insista pelo cumprimento das promessas que lhe foram garantidas: peça-lhe administração de obras do rei, e fornecimentos de tropas, e para conseguir uma e outros, abra-lhe a bolsa, se é que tem alma capaz de vingança.

O usurário teimava em não falar.

— Abra-lhe a bolsa; mas à força de paciência e de sacrifícios consiga da mão desse homem uma assinatura, urna ordem, um escrito que o comprometa ou que sirva de prova de sua indignidade, e de suas prevaricações.

O velho queria falar e hesitava.

— E em qualquer caso duvidoso, no ajuste de qualquer transação venha previamente falar-me, e conte comigo para a sua vingança, se é que tem alma capaz de vingar-se.

Clélio Írias pôde enfim usar da palavra e perguntou com espanto:

— E a senhora quem é... ou o que é do senhor Alexandre Cardoso?...

— Fui sua amante, e sou sua inimiga, respondeu a cortesã.