Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1895

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Campanha, 27 de março de 1895 [editar]

Porchat

Saúdo-te, desejando felicidades, assim como à Exma. família. Nós vamos bem.

Mui breve creio estar aí: dei parte de doente ― considerando-me incapaz para a vida militar, incapaz fisicamente porque moralmente creio-me incompatível de há muito com ela. Aguardo a inspeção de saúde que será feita aí, na sede do Distrito.

Quer isto dizer que mui breve terei a satisfação de abraçar o meu grande amigo.

Responda-me; aceita um abraço do

Euclides da Cunha

Campanha, 5 de abril de 1895 [editar]

Porchat

Saúdo-te, desejando felicidades.

Acabo de receber a tua carta ― e é desnecessário dizer quanto estimei.

Infelizmente a minha parte doente parece haver encalhado na secretária do comandante do Distrito; até hoje nada de solução. não imaginas como isto me incomoda! Escrevo hoje particularmente ao cel. Pires Ferreira, pedindo-lhe uma solução ― já que o pedido legal, dignamente feito por meio de um ofício ― não vale coisa alguma. Peço-te ― e constituo-te nesta questão um advogado ― veres se é possível abreviar a solução que espero, falando ao Pires Ferreira a respeito, e caso não tenha com ele relações, ao Argemiro, ou qualquer outra pessoa que com ele se dê.

Aguardo, breve, a tua resposta a respeito.

Recomende-nos muito a toda a Exma. família; a Saninha manda muitas saudades e lembranças a d. Maria Túlia. Muito breve terá a imensa satisfação de abraçar-te o velho companheiro e amigo

Euclides da Cunha

P.S. ― Desculpa-me o laconismo desta; acerca do nosso estado de coisas tinha tanto a dizer-te que temi alongar-me demais. Mui breve, a viva voz, conversaremos.

Euclides

S. Paulo, 9 de outubro de 1895 [editar]

João Luís

Saúdo-te assim como a toda a família.

Até que afinal!…! Afinal consegui a suprema ventura de ter uma carta tua, duplamente valiosa, porque trouxe as duas fotografias fidelíssimas, a moral e a física do companheiro e bom amigo ausente. Eu já andava andava bastante contrariado com o silêncio dos meus amigos da Campanha e achava singular que não encontrassem nas suas longas horas de tranquilidade cinco minutos para escreverem-me; rompeste felizmente o criminoso silêncio.

Lamentei que a tua carta, tão vibrante e iluminada, trouxesse, dividindo-a transversalmente na sua primeira página, tristíssima novidade que ali estava anômala como um farrapo de treva, como um trapo de nuvem tempestuosa num céu claríssimo e vasto. Devias tê-la enviado num de papel, à parte, porque ela é um traço eloquentíssimo da feição dolorosa da alma humana… Passemos porém, a outro assunto.

Ficamos muito satisfeitos com a notícia da tua próxima vinda aqui. Que ela não fique apenas em projeto e se vieres previne-me antecedência a fim de esperá-los porque não dispenso absolutamente a satisfação de acolher o meu amigo e família na minha tenda de árabe.

O que poderei dizer-te de novo sobre a minha vida? E sem mesma, incoerente, sulcada, de desânimos profundos, agitada, de ações tumultuosas, iluminada às vezes por esperanças imensas… Felizmente porém, meu caro João Luís, prendi-a à de dois filhos pequenos, transformei-a de direito que é para quase toda a gente em dever imprescritível (se é que admites tão singular dever) e sigo avante. Deves saber que a minha índole é contraposta ao meio tumultuoso em que estou, aonde a luta pela vida lembra, pela ferocidade e pelo bárbaro egoísmo a agitação da idade das Cavernas. Estou entre trogloditas que vestem sobrecasacas, usam cartola e leem Stuart Mill e Spencer ― com a agravante de usarem armas mais perigosas e cortantes que os machados de Sílex ou rudes punhais de pedras lascadas. Imagina agora que milagres tenho feito: vou bem entre eles! Não me devoraram ainda e ― fato singular ―! não precisei para isto despir-me da rude simplicidade espartana que desgraçadamente tenho. Atravesso essa sociedade agitada numa abstração salvadora, cedendo automaticamente ao dever com a precisão de uma máquina moderna. Em compensação, a sociedade moderna ― essa que nós também conhecemos encontra no meu lar ampla, iluminada, vastíssima ― limitada pelos quatro ângulos da minha estante. E assim vivo aqui nesta boa terra.

E você? Persiste ainda no propósito de permanecer ai perenemente, na Tebaida ― como um monge imberbe, ilogicamente desalentado? Não te atrai uma estrada mais perigosa e abrupta para o futuro? Conta-me alguma coisa neste sentido, na resposta a esta que espero breve.

Diga ao nosso grande amigo dr. Brandão compreendo perfeitamente que somente raras vezes terá tempo para escrever aos amigos, com a vida atarefada que aí leva.

Recebemos o broche que aí ficara e não comuniquei porque era desnecessário.

Recomende-nos muito a todos da tua família e do dr. Brandão. Mal resta-me espaço para assinar-me como sempre. Amo obrmo.

Euclides da Cunha