O Noviço

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O Noviço
por Martins Pena
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Comédia em 3 atos.
Existe na Wikipédia um artigo relacionado com O Noviço.

Índice

Personagens[editar]

  • AMBRÓSIO.
  • FLORÊNCIA, sua mulher.
  • EMÍLIA, sua filha.
  • JUCA, 9 anos, seu filho.
  • CARLOS, noviço da Ordem de São Bento.
  • ROSA, provinciana, primeira mulher de Ambrósio.
  • PADRE-MESTRE DOS NOVIÇOS.
  • JORGE.
  • JOSÉ, criado.
  • 1 meirinho, que fala.
  • 2 meirinhos, que não falam.
  • Soldados de Permanentes, etc., etc.


[A cena passa-se no Rio de Janeiro.]


Primeiro Ato[editar]

Sala ricamente adornada: mesa, consolos[1], mangas de vidro[2], jarros com flores, cortinas, etc., etc. No fundo, porta de saída, uma janela, etc., etc.


Cena I[editar]

AMBRÓSIO, só, de calça preta e chambre — No mundo a fortuna é para quem sabe adiquiri-la. Pitam-na cega... Que simplicidade! Cego é aquele que não tem inteligência para vê-la e a alcançar. Todo o homem pode ser rico, se atinar com o verdadeiro caminho da fortuna. Vontade forte, perseverança e pertinácia são poderosos auxiliares. Qual o homem que, resolvido a em pregar todos os meios, não consegue enriquecer-se ? Em mim se vê o exemplo. Há oito anos, eu era pobre e miserável, e hoje sou rico, e mais ainda serei. O como não importa; no bom resultado está o mérito... Mas um dia pode tudo mudar. Oh, que temo eu ? Se em algum tempo tiver de responder pelos meus atos, o ouro justificar-me-á e serei limpo de culpa. As leis criminais fizeram-se para os pobres...


Cena II[editar]

Entra Florência vestida de preto, como quem vai a festa.


FLORÊNCIA, entrando — Ainda despido, Sr. Ambrósio ?

AMBRÓSIO — É cedo. (Vendo o relógio:) São nove horas, e o Ofício de Ramos[3] principia às dez e meia.

FLORÊNCIA — É preciso ir mais cedo para tomarmos lugar.

AMBRÓSIO — Para tudo há tempo. Ora dize-me, minha bela Florência...

FLORÊNCIA — O quê, meu Ambrosinho ?

AMBRÓSIO — O quê pensa tua filha do nosso projeto ?

FLORÊNCIA — O que pensa não sei eu, nem disso se me dá; quero eu - basta. E é seu dever obedecer.

AMBRÓSIO — Assim é; estimo que tenhas caráter energético.

FLORÊNCIA — Energia tenho eu.

AMBRÓSIO — E atrativos, feiticeira...

FLORÊNCIA — Ai, amorzinho ! (À parte:) Que marido !

AMBRÓSIO — Escuta-me, Florência, e dá-me atenção. Crê que ponho todo o meu pensamento em fazer-te feliz...

FLORÊNCIA — Toda eu sou atenção.

AMBRÓSIO — Dous filhos te ficaram do teu primeiro matrimônio. Teu marido foi um digno homem e de muito juízo; deixou-te herdeira de avultado cabedal. Grande mérito é esse...

FLORÊNCIA — Pobre homem !

AMBRÓSIO — Quando eu te vi pela primeira vez, não sabia que eras viúva rica. (À parte) Se o sabia ! (Alto:) Amei-te por simpatia.

FLORÊNCIA — Sei disso, vidinha.

AMBRÓSIO — E não foi o interesse que obrigou-me a casar contigo.

FLORÊNCIA — Foi o amor que nos uniu.

AMBRÓSIO — Foi, foi, mas agora que me acho casado contigo, é de meu dever zelar essa fortuna que sempre desprezei.

FLORÊNCIA, à parte — Que marido !

AMBRÓSIO, à parte — Que tola ! (Alto:) Até o presente tens gozado dessa fortuna em plena liberdade e a teu bel-prazer, mas daqui em diante, talvez assim não seja.

FLORÊNCIA — E por quê ?

AMBRÓSIO — Tua filha está moça e em estado de casar-se. Casar-se-á, e terás um genro que exigirá a legítima de sua mulher, e desse dia participarão as amofinações para ti, e intermináveis demandas. Bem sabes que ainda não fizeste inventário[4].

FLORÊNCIA — Não tenho tido tempo, e custa-me tanto aturar procuradores.

AMBRÓSIO — Teu filho também vai crescer todos os dias e será preciso por fim dar-lhe uma legítima[5]... Novas demandas[6].

FLORÊNCIA — Não, não quero demandas.

AMBRÓSIO — É o que eu também digo; mas como preveni-las ?

FLORÊNCIA — Faze o que entenderes, meu amorzinho.

AMBRÓSIO — Eu já te disse há mais de três meses o que era preciso fazermos para atalhar esse mal. Amas a tua filha, o que é muito natural, mas amas ainda mais a ti mesma...

FLORÊNCIA — O que também é muito natural...

AMBRÓSIO — Que dúvida ! E eu jugo que podes conciliar esses dous pontos, fazendo Emília professar em um convento. Sim, que seja freira. Não terás nesse caso de dar legítima alguma, apenas um insignificante dote - e farás ação meritória.

FLORÊNCIA — Coitadinha ! Sempre tenho pena dela; o convento é tão triste.

AMBRÓSIO — É essa compaixão mal-entendida ! O que é este mundo ? Um pélago[7] de enganos e traições, um escolho[8] em que naufragam a felicidade e as doces ilusôes da vida. E o que é o convento ? Porto de salvação e ventura, asilo da virtude, único abrigo da inocência e verdadeira felicidade... E deve uma mãe carinhosa hesitar na escolha entre o mundo e o convento ?

FLORÊNCIA — Não, por certo...

AMBRÓSIO — A mocidade é inexperiente, não sabe o que lhe convém. Tua filha lamentar-se-á, chorará desesperada, não importa; obriga-a e dai tempo ao tempo. Depois que estiver no convento e acalmar-se esse primeiro fogo, abençoará o teu nome e, junto ao altar, no êxtase de sua tranqüilidade e verdadeira felicidade, rogará a Deus por ti. (À parte:) E a legítima ficara em casa...

FLORÊNCIA — Tens razão, meu Ambrosinho, ela será freira.

AMBRÓSIO — A respeito do teu filho direi o mesmo. Tem ele nove anos e será prudente criarmo-lo desde já para frade.

FLORÊNCIA — Já ontem comprei-lhe o hábito com que andará vestido daqui em diante.

AMBRÓSIO — Assim não estranha-rá quando chegar à idade de entrar no convento; será frade feliz. (À parte:) E a legítima também ficará em casa...

FLORÊNCIA — Que sacrifícios não farei eu para ventura de meus filhos !


Cena III[editar]

Entra Juca, vestido de frade, com chapéu desabado, tocando um assobio.


FLORÊNCIA — Anda cá, filhinho. Como estás galante com esse hábito !

AMBRÓSIO — Juquinha, gostas desta roupa ?

JUCA — Não, não me deixa correr, é preciso lavantar assim... (Arregaça o hábito)

AMBRÓSIO — Logo te acostumarás.

FLORÊNCIA — Filhinho, hás-de ser um fradinho muito bonito.

JUCA, chorando — Não quero ser frade !

FLORÊNCIA — Então, o que é isso ?

JUCA — Hi, hi, hi... Não quero ser frade !

FLORÊNCIA — Menino !

AMBRÓSIO — Pois não te darei o carrinho que te prometi, todo bordado de prata, com cavalos de ouro.

JUCA, rindo-se — Onde está o carrinho ?

AMBRÓSIO — Já o encomendei; é cousa muito bonita: os arreios todos enfeitados de fitas e veludos.

JUCA — Os cavalos são de ouro ?

AMBRÓSIO — Pois não, de ouro com os olhos de brilhantes.

JUCA — E andam sozinhos ?

AMBRÓSIO — Se andam ! De marcha e passo.

JUCA — Andam, mamãe ?

FLORÊNCIA — Correm, filhinho.

JUCA, saltando de contente — Como é bonito ! E o carrinho tem rodas, capim para os cavalos, uma moça bem enfeitada ?

AMBRÓSIO — Não lhe falta nada.

JUCA, saltando e cantando — Eu quero ser frade, eu quero ser frade... (Etc.)

AMBRÓSIO, para Florência — Assim o iremos acostumando...

FLORÊNCIA — Coitadinho, é preciso comprar-lhe o carrinho !

AMBRÓSIO, rindo-se — Com cavalos de ouro ?

FLORÊNCIA — Não.

AMBRÓSIO — Basta que se compre uma caixinha com soldados de chumbo.

JUCA, saltando pela sala — Eu quero ser frade !

FLORÊNCIA — Está bom, Juquinha, serás frade; mas não grites tanto. Vai lá para dentro.

JUCA, sai cantando — Eu quero ser frade... (Etc.)

FLORÊNCIA — Estas crianças...

AMBRÓSIO — Este levaremos com facilidade... De pequenino se torce o pepino... Cuidado me dá o teu sobrinho Carlos.

FLORÊNCIA — Já vai para seis meses que ele entrou como noviço no convento.

AMBRÓSIO — E queira Deus que decorra o ano inteiro para professar, que só assim ficaremos tranqüilos.

FLORÊNCIA — E se fugir do convento ?

AMBRÓSIO — Lá isso não temo eu... Está bem recomendado. É preciso empregarmos toda nossa autoridade para obriga-lo a professar. O motivo, bem o sabes...

FLORÊNCIA — Mas olha que Carlos é da pele, é endiabrado.

AMBRÓSIO — Outros tenho eu domado... Vão sendo horas de sairmos, vou-me vestir. (Sai pela esquerda.)


Cena IV[editar]

FLORÊNCIA, — Se não fosse este homem com que casei-me segunda vez, não teria agora quem zelasse com tanto desinteresse a minha fortuna. É uma bela pessoa... Rodeia-me de cuidados e carinhos. Ora, digam lá que uma mulher não deve casar-se segunda vez... Se eu soubesse que havia de ser sempre tão feliz, casar-me-ia cinqüenta.


Cena V[editar]

Entra Emília, como querendo atravessar a sala.


FLORÊNCIA — Emília da Silva Ribeiro Barbosa de Freitas Plinio Gonçalves, vem cá.

EMÍLIA — Senhora ?

FLORÊNCIA — Chega aqui. Ó menina, não deixarás este ar triste e lacrimoso em que andas ?

EMÍLIA — Minha mãe, eu não estou triste. (Limpa os olhos com o lenço.)

FLORÊNCIA — Aí tem ! Não digo? A chorar. De que chora ?

EMÍLIA — De nada, não senhora.

FLORÊNCIA — Ora ! Isso é insuportável ! Mata-se e amofina-se uma mãe extremosa para fazer a felicidade de sua filha, e como agradece esta ? Arrepelando-se[9] e chorando. Ora, sejam lá mãe e tenham filhos desobedientes...

EMÍLIA — Não sou desobediente. Far-lhe-ei a vontade; mas não posso deixar de chorar e sentir. (Aqui aparece à porta por onde saiu, Ambrósio, em mangas de camisa, para observar.)

FLORÊNCIA — E por que tanto chora a menina, por quê ?

EMÍLIA — Minha mãe...

FLORÊNCIA — O que tem de mau a vida de freira ?

EMÍLIA — Será muito boa, mas é que eu não tenho inclinação nenhuma para ela.

FLORÊNCIA— Inclinação, inclinação ! O quer dizer com inclinação? Terás, sem dúvida, por algum francelho[10] freqüentador de bailes e passeios, jogador do écarté[11] e dançador de polca[12]? Essas inclinações é que perdem a muitas meninas. Esta cabecinha ainda está muito leve; eu é sei o que tem convém: serás freira.

EMÍLIA — Serei freira, minha mãe, serei ! Assim como estou certa que hei-de ser desgraçada.

FLORÊNCIA — Histórias ! Sabes tu o que é mundo ? O mundo é... um... é... (À parte:) Já não me recordo o que me disse o Sr. Ambrósio que era o mundo. (Alto:) O mundo é... um... é... (À parte:) E esta ? (Vendo Ambrósio junto da pota:) Ah, Ambósio, dize aqui a esta estoneada o que é o mundo.

AMBRÓSIO, adiantando-se — O mundo é um pélago de enganos e traições, um escolho em que naufragam a felicidade e as doces ilusôes da vida... E o convento é porto de salvação e ventura, único abrigo da inocência e verdadeira felicidade... Onde está minha casaca ?

FLORÊNCIA — Lá em cima no sótão. (Ambrósio sai pela direita. Florência para Emília:) Ouviste o que é o mundo, e o convento ? Não sejas pateta, vem acabar de vestir-te, que são mais que horas. (Sai pela direita.)

Cena VI[editar]

EMÍLIA, — É minha mãe, devo-lhe obediência, mas este homem, meu padrasto, como o detesto ! Estou certa que foi ele quem persadiu a minha mãe que me metesse no convento. Ser freira ? Oh, não, não ! E Carlos, que tanto amo ? Pobre Carlos, também te perseguem ! E por que nos perseguem assim ? Não sei. Como tudo mudou nesta casa, depois que minha mãe casou - se com este homem ! Então não pensou ela na felicidade de seus filhos. Ai, ai !


Cena VII[editar]

Carlos, com hábito de noviço, entra assutado e fecha a porta.


EMÍLIA, assustando-se — Ah, quem é ? Carlos !

CARLOS — Cala-te !

EMÍLIA — Meu Deus, o que tens, por que estás tão assustado ? O que foi ?

CARLOS — Aonde está minha tia, e o teu padrasto ?

EMÍLIA — Lá em cima. Mas o que tens ?

CARLOS — Fugi do convento, e aí vem eles atrás de mim.

EMÍLIA — Fugiste ? E por que motivo ?

CARLOS — Por que motivo ? Pois faltam motivos para se fugir de um convento ? O último foi o jejum em que vivo há sete dias... Vê como tenho esta barriga, vai a sumir-se. Desde sexta-feira passada que não mastigo pedaço que valha a pena.

EMÍLIA — Coitado !

CARLOS — Hoje, já não podendo, quetionei com o D. Abade. Palavras puxam palavras; dize tu, direi eu, e por fim de contas arrumei-lhe uma cabeçada, que o atirei por esses ares.

EMÍLIA — O que fizeste, louco ?

CARLOS — E que culpa tenho eu, se tenho a cabeça esquentada ? Para que querem violentar minhas inclinações ? Não nasci para frade, não tenho jeito nenhum para ficar horas inteiras no coro a rezar com os braços encruzados. Não me vai o gosto para aí... Não posso jejuar: tenho, pelo menos três vezes ao dia, um fome de todos os diabos. Militar é o que eu quisera ser; para aí chama-me a inclinação. Bordoadas, espadeiradas, rugas é que me regalam; esse é o meu gênio. Gosto de teatro, e de lá ninguém vai ao teatro, a exceção de Frei Maurício, que freqüenta a platéia de casaca e cabeleira, para esconder a coroa.

EMÍLIA — Pobre Carlos, como terás passado estes seis meses de noviciado !

CARLOS — Seis messes de martírio ! Não que a vida de frade seja má; boa é ela para quem a sabe gozar e que para ela nasceu; mas eu, priminha, eu que tenho para a tal vidinha negação completa, não posso !

EMÍLIA — E os nossos parentes quando nos obrigam a seguir uma carreira para a qual não temos inclinação alguma, dizem que o tempo acostumar-nos-á.

CARLOS — O tempo acostumar ! Eis aí por que vemos entre nós tantos absurdos e disparates. Este tem jeito para sapateiro: pois vá estudar medicina... Excelente médico ! Aquele tem inclinação para cômico: pois não senhor, será político... Ora, ainda isso vá ! Estouro só tem jeito para caiador[13] ou borrador[14]: nada, é ofício que não presta... Seja diplomata, que borra tudo quanto faz. Aqueloutro chama-lhe toda a propensão para a ladroeira; manda o bom senso que se corrija o sujeitinho, mas isso não se faz: seja tesoureiro de repartição, fiscal, e lá se vão os cofres da nação à garra[15]... Essoutro tem uma grande carga de preguiça e indolência e só serviria para leigo de convento, no entanto vemos o bom do mandrião[16] empregado público, comendo com as mãos encruzadas sobre a pança o pingue[17] ordenado da nação.

EMÍLIA — Tens muita razão; assim é.

CARLOS — Este nasceu para poeta ou escritor, com uma imaginação fogosa e independente, capaz de grandes cousas, mas não pode seguir sua inclinação, porque poetas e escritores morrem de miséria, no Brasil... E assim [o] obriga a necessidade a ser o mais somemos amanuense[18] em uma repartição pública e a copiar cinco horas por dia os mais soníferos papéis. O que acontece ? Em breve matam-lhe a inteligência e fazem do homem pensante máquina estúpida, e assim se gasta uma vida ! É preciso, é já tempo que alguém olhe para isso, e alguém possa.

EMÍLIA — Quem pode nem sempre sabe o que se passa entre nós, para poder remediar; é preciso falar.

CARLOS — O respeito e a modéstia prendem muitas línguas, mas lá vem um dia que a voz da razão se faz ouvir, e tanto mais forte quanto mais comprimida.

EMÍLIA — Mas Carlos, hoje te estou desconhecendo...

CARLOS — A contradição em que vivo tem-me exasperado ! E como queres tu que eu não fale quando vejo, aqui, um péssimo cirurgião que poderia ser bom alveitar[19]; ali, um ignorante general que poderia ser excelente enfermeiro; acolá, um periodiqueiro[20] que só serviria para arrieiro[21], tão desbocado e insolente é, etc., etc. Tudo está fora de seus eixos...

EMÍLIA — Mas que queres tu que se faça ?

CARLOS — Que não se constranja ninguém, que se estudem os homens e que haja uma bem entendida e esclarecida proteção, e que, sobretudo, se despreze o patronato[22], que assenta o jumento nas bancas das academias[23] e amarra o homem de talento à manjedoura[24]. Eu, que quisera viver com uma espada à cinta e à frente do meu batalhão, conduzi-lo ao inimigo aravés da metralha, bradando: "Marcha... (Manobrando pela sala, entusiasmado:) Camaradas, coragem, calar baionetas ! Marche, marche ! Firmeza, avança ! O inimigo fraqueia... (Seguindo Emília, que recua, espantada) Avança !"

EMÍLIA — Primo, primo, que é isso ? Fique quieto !

CARLOS, entusiasmado — "Avança, bravos companheiros, viva a Pátria ! Viva !" — e voltar vitorioso, coberto de sangue e poeira... Em vez desta vida de agitação e glória, hei-de ser frade, revestir-me de paciência e humildade, encomendar defuntos... (Cantando:) Requiescat in pace... A porta inferi ! amen...[25] O que seguirá disto ? O ser eu péssimo frade, descrédito do convento e vergonha do hábito que visto. Falta-me a paciência.

EMÍLIA — Paciência, Carlos, preciso eu também ter, e muita. Minha mãe declarou-me positivamente que eu hei-de ser freira.

CARLOS — Tu, freira ? Também te perseguem ?

EMÍLIA — E meu padrasto ameaça-me.

CARLOS — Emília, aos cinco anos estava eu órfão, e tua mãe, minha tia, foi nomeada por meu pai sua testamenteira e minha tutora. Contigo cresci nesta casa, e à amizade de criança segui-se inclinação mais forte... Eu te amei, e tu também me amaste.

EMÍLIA — Carlos !

CARLOS — Vivíamos felizes, esperando que um dia nos uniríamos. Nesses planos estávamos, quando apareceu este homem, não sei donde, e que soube a tal ponto de iludir tua mãe, que a fez esquecer-se de seus filhos que tanto amava, de seus interesses e contrair segundas núpcias.

EMÍLIA — Desde então nossa vida tem sido tormentosa...

CARLOS — Obrigaram-me a ser noviço, e não contentes com isso querem-te fazer freira. Emília, há muito que eu observo este teu padrasto. E sabes qual tem sido o resultado de minhas observações ?

EMÍLIA — Não.

CARLOS — Que ele é um rematadíssimo velhaco.

EMÍLIA — Oh, estás bem certo disso ?

CARLOS — Certíssimo ! Esta resolução que tomaram, de fazerem-te freira, confirma a minha opnião.

EMÍLIA — Explica-te.

CARLOS — Teu padrasto persuadia a minha tia que me obrigasse a ser frade para assim roubar-me, impunemente, a herança que meu pai deixou-me. Um frade não põe demandas...

EMÍLIA — É possível ?

CARLOS — Ainda mais; querem que tu sejas freira para não te darem dote, se te casares.

EMÍLIA — Carlos, quem te disse isso ? Minha mãe não é capaz !

CARLOS — Tua mãe vive iludida. Oh, que não possa eu desmascarar este tratante ! ...

EMÍLIA — Fala baixo !


Cena VIII[editar]

Entra Juca.


JUCA — Mana, mamãe pergunta por você.

CARLOS — De hábito ? Também ele ? Ah !...

JUCA, correndo para Carlos — Primo Carlos !

CARLOS, tomando-o no colo — Juquinha ! Então, prima, tenho ou não razão ? Há ou não plano ?

JUCA — Primo, você também é frade ? Já lhe deram também um carrinho de prata com cavalos de ouro ?

CARLOS — O que dizes ?

JUCA — Mamãe disse que havia de me dar um muito dourado quando eu fosse frade. (Cantando:) Eu quero ser frade... (Etc., etc.)

CARLOS, para Emília — Ainda duvidas ? Vê como enganam esta inocente criança !

JUCA — Não enganam não, primo; os cavalos andam sozinhos.

CARLOS, para Emília — Então ?

EMÍLIA — Meu Deus !

CARLOS — Deixa o caso po minha conta. Hei-de fazer uma estralada[26] de todos os diabos, verão...

EMÍLIA — Prudência !

CARLOS — Deixa-os comigo. Adeus, Juquinha, vai para dentro com tua irmã. (Bota-o no chão.)

JUCA — Vamos, mana. (Sai cantando:) Eu quero ser frade... (Emília o segue)


Cena IX[editar]

CARLOS, — Hei-de descobrir algum meio... Oh, se hei-de ! Hei-de ensinar a este patife, que se casou com minha tia para comer não só a sua fortuna, como a de seus filhos. Que belo padrasto !... Mas por ora tratemos de mim; sem dúvida no convento anda tudo em polvorosa... Foi boa cabeçada ! O D. Abade deu um salto de trampolim... (Batem a porta.) Batem ? Mau ! Serão eles ? (Batem.) Espreitemos pelo buraco da fechadura. (Vai espreitar.) É uma mulher. (Abre a porta.)


Cena X[editar]

Rosa e Carlos.


ROSA — Dá licença?

CARLOS — Entre.

ROSA, entrando — Uma serva de Vossa Reverendíssima.

CARLOS — Com quem tenho o prazer de falar?

ROSA — Eu Reverendíssimo Senhor, sou uma pobre mulher. Ai, estou muito cansada...

CARLOS — Pois sente-se, senhora. (À parte:) Quem será?

ROSA, sentando-se — Eu chamo-me Rosa. Há uma hora que cheguei do Ceará no vapor Paquete do Norte.

CARLOS — Deixou aquilo por lá tranqüilo?

ROSA — Muito tranqüilo, Reverendíssimo. Houve apenas no mês passado vinte e cinco mortes.

CARLOS — Santo Brás! Vinte e cinco mortes! E chama a isso traqüilidade?

ROSA — Se Vossa Reverendíssima soubesse o que por lá vai, não se admiraria. Mas, meu senhor, isto são cousas que nos não pertencem. Deixe lá morrer quem morre, que ninguém se importa com isso. Vossa Reverendíssima é cá da casa?

CARLOS — Sim senhora.

ROSA — Então é parente de meu homem?

CARLOS — De seu homem?

ROSA — Sim senhor.

CARLOS — E quem é seu homem?

ROSA — O Sr. Ambrósio Nunes.

CARLOS — O Sr. Ambrósio Nunes!...


Em andamento...

Notas[editar]

  1. O mesmo que console, tipo de mesa de encostar, dotada de pés ornamentais, sendo muitas vezes presa à parede e suportada por uma espécie de cantoeira (de maneira esculpida, de ferro batido, de pedra, etc.).
  2. Redoma.
  3. Missa do Domingo de Ramos, último domingo da Quaresma, em que se comemora a entrada de Jesus em Jerusalém.
  4. Processo, formado em juízo competente, com o fim de legalizar a transferência do patrimônio do defunto a seus herdeiros e sucessores na proporção exata de seus direitos mediante a partilha.
  5. Parte da herança reservada por lei aos herdeiros necessários (descendentes e ascendentes), e da qual, portanto, não se pode dispor livremente.
  6. Ação judicial; processo; litígio.
  7. Abismo.
  8. Recife, rochedo.
  9. Lamentar-se, lastimar-se.
  10. Aquele que tem apego excessivo às coisas francesas ou abusa de francesismo na linguagem; francesista.
  11. Palavra francesa que designa o jogo de cartas.
  12. Dança originária da região da Boêmia que alcançou grande sucesso no Brasil nos meados do século XIX.
  13. Indivíduo que pinta com tinta feita de cal, água e cola.
  14. Indivíduo que pinta com broxa.
  15. (Expressão usada com referência a objetos) deixado ao léu, abandonado.
  16. indivíduo preguiçoso, ocioso, indolente.
  17. abundante, gordo, sulculento.
  18. Funcionário público de condição modesta que fazia a correspondência e copiava ou registrava documentos à mão; escrevente, copista.
  19. Curandeiro de doenças de animais.
  20. Termo depreciativo para designar o jornalista.
  21. Indivíduo que aluga ou conduz cavalos de aluguel.
  22. Autoridade superior.
  23. Estabelecimento de ensino superior de ciência ou arte; faculdade, escola.
  24. Tabuleiro em que se põe comida para os animais nas estrebarias.
  25. É feita uma associação irônica entre a oração rezada em latim na missa dos mortos "Requiem aeternan dona ei, Domine ! Lux perpetua luceat ei. Requiescat in pace. Amen" (que significa "repouso eterno no seio do Senhor. Que a luz brilhe perpétua. Descanse em paz. Amém.") e uma maldição "a porta inferi" (que significa "a porta dos infernos").
  26. Grande ruído ou gritaria; estralaçada, estalada.