O Sertanejo/I/VII

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O Sertanejo (Primeira Parte, Capítulo VII: Moirão)
por José de Alencar
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Quando buscava o pouso, tinha Arnaldo resolvido um encontro para o dia seguinte.

Vieram depois as namoradas recreações da fantasia, que o absorveram todo e acaletaram-lhe o sono; mas sob êsse devaneio velava o propósito do ânimo deliberado, como sob a camada de flores viça a rija vegôntea do arvoredo.

Dormia, pois, o mancebo com aquele sono cativo dos homens de vontade, que se governam ainda mesmo quando sopitados no letargo dos sentidos, tão poderosa é a energia moral nessas organizações.

Arnaldo mais que nenhum homem possuia a admirável faculdade de reger o sono; no remanso do corpo o espírito sabia manter de vigia uma percepção íntima, que o advertia do menor rumor como da mais leve alteração, em tôrno de si.

A vida do deserto tinha apurado essa lucidez. Tantas vezes obrigado a pernoitar no meio dos perigos de toda a casta, entre as garras da morte que o assaltava sob várias formas, no pulo do jaguar como no bote da cascavel; o sertanejo aprendera essa arte prodigiosa de dormir acordado, quando era preciso.

Podia-se dizer dele que reproduzia o antigo mito grego e tinha o dom especial de repartir-se em dois, para que um velasse, enquanto o outro se entregava ao repouso.

Foi ao primeiro vislumbre da alvorada que o sertanejo determinou acordar para ir em busca do Aleixo Vargas, que provavelmente não era outro senão o sujeito cujo rasto êle havia reconhecido no mato próximo à cabana do velho Jó.

Antes, porém, do momento marcado, despertou o rapaz subitamente, abalado por um ruído estranho, que soara no embastido da folhagem e que, a-pesar-de frágil, repercutira dentro dele como a vibração do grito da araponga no seio da floresta.

Achou-se de todo acordado a tempo ainda de escutar atentamente o mesmo som, duas vezes reproduzido uma após outra, e conhecer-lhe a origem. Acabavam de triscar um fuzil não mui distante e petiscar fogo do isqueiro.

Se alguma dúvida lhe restava, desvanecera-se com o cheiro de fumo, delator da primeira baforada do cachimbo, que se acabava de acender.

— Bom; cá está o meu homem. Já não preciso de ir-lhe ao rasto; tenho-o à mão.

A floresta ainda estava imersa no alto silêncio da modorra: apenas a fresca e sutil aragem que precede o primeiro dilúculo e é como o hálito da alvorada, frolava mansamente as franças das árvores. No azul do céu nenhum palor anunciava o raiar da luz.

Quedou-se o sertanejo com o ouvido atento aos menores rumores que vinham do lado onde pitavam. Nada lhe escapou, nem o roçar do corpo pela casca do pau e os chupos dados ao tubo do cachimbo, nem o grosso ressonar, que pouco depois substituiu aqueles primeiros ruídos.

Da sua escuta deduziu o sertanejo quanto lhe concinha. Ficou sabendo que o cachimbador era o próprio Aleixo Vargas, cujo assoprado pitar êle conhecia tanto como o ronco nasal do dorminhoco. Gizou o ponto da floresta em que se achava o sujeito, e com tal exatidão que lá iria de olhos fechados em linha reta. Finalmente firmou-se na certeza de que tinha seguro o homem, cujo sono espreitava dalí mesmo e sem mover-se.

Arnaldo conhecia todas as árvores da floresta, como conhece o vaqueiro todas as reses de sua fazenda, e o marujo as mínimas peças do aparelho de seu navio. Êsses habitantes da selva tinham para êle uma feição própria, que os distinguia; chamava-os a cada um por seu nome.

Não admira, pois, que em resultado de sua observação êle dissesse para si:

— Está no angico da grota!

As barras vinham quebrando, como diz o povo, exprimindo com essa imagem as faixas de luz que listram o horizonte ao despontar da aurora, e que parecem as túnicas d’alva a desdobrarem-se pelo firmamento.

O sertanejo adiantou alguns passos pela copa da árvore, a jeito de ver lá na quebrada um casalinho, que aparecia em uma aberta no mato.

Precisamente nesse instante abriu-se a porta do rústico albergue, e saíu ao terreiro Justa, a quem logo cercou um bando de galinhas, frangos e pintos à gana do milho pilado que a roceira vascolejava em uma coité.

Acompanhava-a uma cabra que, deixando a mulher às voltas com a gente do poleiro, foi, como de razão, alí perto dar os bons dias aos moradores de um chiqueiro, que lhe responderam com um berredo dos mais alegres, no meio de cabriolas de toda espécie.

Demorou-se o rapaz um instante a olhar para a mãe, cujo vulto êle lobrigava ainda indeciso, movendo-se nas labutações caseiras, à luz frouxa do crepúsculo matutino. Uma vez, como a Justa em seu giro se voltasse para o lado da mata, estendeu o filho a mão direita aberta, murmurando com um sorriso:

— A bênção, mãe!

Cumprido o preceito da piedade filial, Arnaldo, que nem um instante perdera de espreitar o vizinho adormecido, pensou que era tempo de realizar o seu intento, e portanto começou um passeio aéreo pela rama das árvores, que se entrelaçava, formando com os galhos um como travejado pavimento, a que servia de dossel a verde copa embastida.

O sertanejo andava tão fácil e seguro por aquele girau como pelo pavês de um sobrado. Muitas vezes, quando menino, correra por alí atrás dos macacos e saguís que o não venciam na agilidade, pois agarrava-os à mão nas grimpas da floresta. Era tanto para admirar-se a rapidez como o jeito e sutileza com que resvalava por entre o chamiço, a ponto que se não ouvia o arfar de uma só fôlha.

A um tiro de arcabuz estava o sítio que Arnaldo designara com o nome de grota: era o despenhadeiro de um profundo barranco. Os detritos, acumulados pelos enxurros nas covoadas alí formava o terreno, alimentavam as árvores altaneiras cujas vastas copas ensombravam o tremedal.

Entre essas árvores a mais pujante era um angico secular, que lançava as grossas raízes a meio precipício. O formidável tronco, crescendo a princípio obliquamente, na direção da outra rampa do desfiladeiro, como a atravessá-lo, no centro voltava-se a pino e subia verticalmente a grande elevação, onde repartia-se em vários esgalhos confluentes.

De escancha sôbre um dêsses ramos, com as pernas engalfinhadas nos interstícios e o corpo recostado no rústico espaldar formado pelos outros galhos dormia a sono sôlto um homem ainda moço, de insólita e desconforme robustez.

O toro, tinha-o corpulento, mas de uma mesma grossura desde os ombros até os artelhos, de modo que estando de pé e com as pernas fechadas, parecia um tôco de pau cortado na altura de dez palmos do chão. Essa prancha de carne rematava em uma cabeça pequena e redonda, semelhante à maçaneta de um balaústre, e assentava em dois pés enormes que mais pareciam as cunhas de uma escora.

Do seu aspecto, bem como da fôrça de que era dotado, lhe viera a alcunha de Moirão, nome que nas fazendas tem o pião onde se jungem as reses para a ferra. Muitas vezes, jactando-se de sua pujança, aguentara no laço um boi bravo à disparada, sem abalar-se do lugar onde se fincava, nem sequer titubear.

Arnaldo surdira em um ramo superior, a cavaleiro do sujeito, a quem estava agora observando a seu vagar. Comprazia-se o rapaz em admirar a robustez estampada na musculatura dessa organização atlética, que produzia em sua alma uma emoção artística. Para êle, sertanejo, filho do deserto, tão poderosas manifestações da fôrça tinham majestade e beleza épicas.

Entretanto bastava um gesto seu para aniquilar o colosso. Estendesse êle o braço, travasse-lhe do pé e emborcasse-o no precipício, que em um fechar d’olhos estaria o Moirão reduzido a migas, nas arestas dos alcantís.

Arnaldo não demorou seu espírito nesta idéia senão o tempo necessário para a repelir.

Ao cabo de alguns instantes, desprendeu-se o rapaz do silêncio em que se envolvera e donde não transpirava nem o sôpro de seu hálito; algumas fôlhas rumorejavam em tôrno, e a casca do pau rangeu ao roçar do corpo que sentava-se.

Como não bastasse êsse tênue arruído para despertar o madraço, o rapaz quebrou uma haste de cipó. Com a fôlha que deixara em uma das pontas começou a fazer cócegas nas largas ventas rombas do Moirão, que dava com as mãos às tontas para enxotar a môsca impertinente.

Afinal abriu o dorminhoco as pálpebras, pestanejou com a claridade do dia, esfregou os olhos e ficou pasmado a encarar com o Arnaldo, que se estava rindo, mui lampeiro, alí por cima dele, comodamente sentado em um ramo da árvore.

— Salve-o Deus, Aleixo Vargas, disse o sertanejo em tom jovial. Que sonata tão regalada, homem! Apostaria que anda tresnoitado, se não sou besse que você em ferrando a dormir é como jibóia quando enguliu veado.

— Hanh!... bocejou o outro estremunhando.

É você, Arnaldo.

— Acorde de uma vez, amigo!

— Onde estou eu?... Ah! já sei; arranchei-me aquí para madornar um pedaço e pegou de mim uma tal bebedeira de sono que estou que não posso comigo.

— Pelo que mostra não teve lá muita saudade do seu catre da fazenda, Aleixo Vargas, que logo na noite da chegada veio pôr-se de poleiro cá pelas matas!

— Não sabe que despedí-me do Campelo?

— Ainda não encontrei quem me desse tal nova; respondeu Arnaldo, iludindo os têrmos da pergunta.

— Então você não tornou à casa depois da chegada?

— Depois da chegada do capitão-mór ainda lá não fui.

— Pois é como lhe digo, Arnaldo; deixei duma vez o homem, por não poder mais aturá-lo.

— Que lhe fez o capitão-mór, Aleixo Vargas, que tanto o amofinou?

— São contos largos, amigo Arnaldo, que levariam muito tempo, e eu já sinto cá pelo estômago uns repiques de fome que estão chamando ao almôço.

— Guarde lá seu segrêdo, Aleixo Vargas; e que não lhe coma a língua. Quanto ao almôço descanse. Aquí temos no meu farnel para quebrar o jejum.

— Sempre o conhecí precavido, rapaz. Não é à-toa a fama que você tem e que eu bem experimentei, quando cheguei a êste excomungado sertão.

— Não é tanto assim. Alí está você, Aleixo Vargas, que é uma barra. Não foi debalde que lhe puseram o nome de Moirão.

— Ah! isso cá de pulso, não se fala: que ainda não encontrei homem para mim, nem touro tão pouco. Eu dizia, rapaz, era acêrca da ligeireza, que, a ser verdade o que se conta, não há por toda esta ribeira quem lhe deite poeira nos olhos.

— De que serve a ligeireza, se não é para fugir? A fôrça é melhor, não lhe parece, Aleixo! disse o rapaz a sorrir.

— Sem dúvida. A fôrça é tudo neste mundo; disse o Aleixo entufado de sua jactância.

— Também eu penso assim; ainda que todos os dias vê-se um caroço de chumbo deitar ao chão o homem mais valente, e uma broca derrubar o tronco mais grosso.

Moirão levantou os ombros desdenhosamente:

— São casos que acontecem.

Arnaldo foi à sua malhada no jacarandá e tornou com o alforge em que tinha as provisões. Consistiam em carne de vento, farinha e queijo do sertão.

O mancebo foi expedito na refeição e comeu com a rapidez a que o havia acostumado sua vida agreste. O Moirão, porém, almoçou pausadamente, como quem se desempenha de negócio grave; e de vez em quando conversava com uma borracha de vinho que trazia à cinta e era a sua inseparável.

— Não molha a goela, rapaz? Olhe que esta farinha assim à sêca é uma bucha capaz de entalar até um jacaré.

— Eu prefiro o vinho cá de minha terra!

Proferindo estas palavras a sorrir, Arnaldo bebeu dois ou três goles d’água numa cabaça onde guardava sua provisão e com isso rematou o almôço.

Aleixo fez uma careta de nojo à cabaça, e para dar tônico ao estômago, que se lhe tinha embrulhado com a vista d’água, escorropichou o odre na garganta.