O Sertanejo/I/VIII

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O Sertanejo (Primeira Parte, Capítulo VIII: Dois amigos)
por José de Alencar
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Concluira Moirão sua grave ocupação e acendendo o cachimbo preparava-se a fazer o quilo com igual pachorra.

Recostou-se afinal ao tronco da árvore, soltando uma baforada de fumo que o envolveu como uma nuvem densa.

— Então, Arnaldo, como foi isto por cá, amigo? Sêca muita, já se sabe! Olhe, digam vocês o que quiserem, isto não é terra de cristão.

— De cristão é que ela é, Aleixo Vargas; pois ao cristão ensinou o divino mestre a paciência e o trabalho. Para quem não serve a minha terra é para aqueles que não aprendem com ela a ser fortes e corajosos.

— Pois é coisa que se aprenda, morrer de fome e de sede ainda mais?

— Tudo aprende o homem, quando não lhe falta coragem. O cavalo dêste sertão de Quixeramobim caminha o dia inteiro, come um ramo de juá, e só bebe água quando encontra a cacimba. Aonde há mais valente campeão?

— Eu cá prefiro andar pelo meu pé, mas em terra capaz, a empoleirar-me no tal bicho que só tem pele e ossos.

Arnaldo não respondeu, e Aleixo continuou a envolver-se em um turbilhão de fumaça que dava-lhe o aspecto de um éolo pintado na tabuleta de alguma taverna clássica.

Depois de breve pausa o sertanejo reatou o fio da conversa.

— Ora, Aleixo, que somos amigos há tanto tempo e nunca experimentei as minhas fôrças com você.

— Para que isso? Perguntou Moirão com sua habitual fatuidade.

— Bem sei que não posso medir-me com você; mas queria saber até onde chega meu pulso. Talvez não seja lá dos mais fracos e ninguém está mais no caso de julgar do que o barra dêste sertão.

A ponta de ironia que acerava o sorriso do mancebo era tão sutil, e o tom afável da palavra a envolvia de modo que Moirão não podia percebê-la, ainda que fosse dotado de maior perspicácia do que lhe tocara em quinhão.

— Isso lá é verdade. Ainda não encontrei homem que não derrubasse: uns torcem mais, outros menos; porém no fim de contas lá vão todos ao chão rebolindo que é um gôsto.

— Vamos a ver se eu sou dos que torcem mais, disse Arnaldo com volubilidade.

— Então quer mesmo, rapaz? Chegue cá, e pendure-se a êste braço; com as duas mãos, não faz mal.

Moirão arregaçou a manga da camisa, e descobrindo um braço grosso e musculoso como a perna de uma anta, fincou o cotovêlo no tronco do angico.

— Queda de braço, não, disse Arnaldo: há de ser queda de corpo.

— Ah! Você quer tirar lérias comigo, rapaz?

E o latagão derreou-se novamente no tronco do angico, despedindo de si um rôlo de fumo tão grosso, que parecia o da chaminé da herdade.

— Suponha você, Aleixo, que em vez de camaradas éramos dois sujeitos que se traziam de ôlho e que aproveitavam esta ocasião de se descartarem um do outro.

Moirão começou a cantarolar um mote de sua composição:

Quando eu vim de minha terra Eu era Aleixo pimpão; Agora fiquei Moirão Aquí neste pé de serra.

Debalde tentou Arnaldo cativar a atenção do minhoto: êle embrulhava-se lá na sua cantiga; não queria ouvir.

— Bem; já vejo que você não é meu amigo.

— Donde tirou isto? perguntou Moirão tornando ao sério. Olhe, rapaz, que eu não sou homem de dar nem tomares, e quando trato um tal de amigo, é devéras. Aquí neste sertão ninguém ainda se benzeu com êste nome senão um, que se chama Arnaldo Louredo; e ando por aquí já há uns pares de anos.

— Se fosse amigo verdadeiro de Arnaldo, não lhe recusaria o que êle pede.

— Fale-me neste tom, rapaz, que já o entendo. Então é sério?

— É um favor.

— Pois faço-lhe o gôsto.

Aleixo meteu o cachimbo em um esgalho. Apoiado fortemente sôbre o grosso ramo da árvore, a qual estremeceu com seu pêso, estirou os dois braços, que alongaram-se como os arpéus de um guindaste, para abarcarem o corpo delgado de Arnaldo.

Mas o sertanejo escapou-lhe ao arrôcho e galgando os ramos superiores da árvore, suspendeu-se a um deles, trançando os pés. Então deixou-se cair a prumo, agarrou o adversário pelas axilas, e com uma fôrça que não se esperava de seu talhe franzino arrancou o colosso do galho em que se apoiava.

Um instante o rapaz embalançou o corpanzil sôbre o precipício, onde parecia que iam ambos despenhar-se. Afinal, receando que o pêso enorme lhe rompesse os músculos, escanchou o latagão no ramo do angico.

Moirão segurou-se automaticamente à árvore. Sua fisionomia, de ordinário simplória, tinha nessa conjuntura uma expressão idiota. O êxito da luta o deixara estupefato. Por algum tempo ficou na mesma posição, imóvel e basbaque.

Até que arrancou-se a essa pasmaceira com um arremessão.

— Foi êste diabo! exclamou, batendo com a chanca no tronco do angico. Onde é que já se viu pegar um cristão queda de corpo em cima das árvores? Isto é para bugios ou caboclos, que tanto vale, pois são da mesma raça. No chão era outra coisa, rapaz.

— Experimentemos no chão. Não custa, disse Arnaldo com indiferença.

Desta vez o empenho era de Aleixo que ardia por tomar a desforra da surpresa. Prontamente escorregou pelos galhos e tronco da árvore até o chão. Saltando no meio de uma clareira, calcou os pés no solo com fôrça, e com o corpo rijo como o poste de que tomara o nome, disse:

— Ande agora para cá, rapaz, que há de ver o que é um barra.

Aleixo tinha razão. Em terra firme não havia fôrça de homem que o pudesse abalar, quanto menos tirá-lo do lugar. O mais vigoroso touro do sertão, êle o sustentava sem toscanejar, pela ponta do laço de couro cru.

As largas chancas do colosso pareciam fincadas no chão como as grossas raízes de uma gameleira, e o corpo obeso e direito figurava uma ponta de rochedo, que surdia da terra.

Arnaldo caminhou para o colosso e erguendo os braços entregou-se àquele grilhão vivo.

A fina compleição do talhe foi o que livrou-o de ser logo esmagado no arrôcho. Enquanto Moirão, cerrando-o ao peito, buscava estringí-lo como as rôscas de uma serpente, o mancebo colava-se ao adversário para atenuar a violenta pressão.

Apenas Aleixo acochou o corpo do outro, suspendeu-o aos ares, como faria com um toro de pita; porém ao mesmo tempo os dois braços do sertanejo esticaram-se para logo se retrairem rapidamente, e os punhos, como dois malhos de ferro brandidos por molas rijas, bateram no crânio do minhoto.

Uma nuvem de sangue cobriu os olhos do colosso que vacilava. Arnaldo amparou-o para que não tombasse e reclinando-o com uma solicitude para estranhar naquela circunstância, deitou-o de supino sôbre a relva.

Ao cabo de poucos instantes, Moirão tornou do desmaio, mas para cair no pasmo em que o deixara a primeira luta. Desta vez, porém, estava realmente assombrado. O que lhe acontecera não era coisa dêsse mundo; andava aí uma influência sobrenatural. Quem o derrubara não fôra seu camarada, o Arnaldo, mas a própria pessoa do demo na figura do rapaz. Nem haveria meio de persuadí-lo que êle, Aleixo, fôra vencido duas vezes numa queda de corpo, tão expeditamente, e ainda mais por um magriço. Eram artes do Tinhoso.

Quando no abrir dos olhos deu com o sertanejo em pé junto de si, levantou a pesada manopla e atravessou-a pelo rosto com um jeito que parecia arremedar o sinal da cruz.

Arnaldo ergueu o busto do Moirão e encostou-o ao tronco de uma árvore. O colosso ainda aturdido não opôs a menor resistência e se deixou sentar como um marmanjo.

A fisionomia do sertanejo, na qual, desde o encontro com Aleixo, um gesto volúvel e descuidado apagara a natural energia, tomou a expressão grave e resoluta.

— Aleixo Vargas, eu sou seu amigo, disse o mancebo com a palavra breve.

O Moirão abaixou a cabeça.

— Duvida?

— Do Arnaldo não, que livrou-me do dente das tapuias.

O sertanejo não deu atenção à reserva mental do minhoto, que persistia em tomá-lo pelo capeta na figura de rapaz.

— No sertão os homens ou são irmãos ou inimigos. E quantas vezes não tirei eu das garras da onça uma rês sem dono? Não me tem, pois, a menor obrigação, Aleixo Vargas; nem me deve reconhecimento. Mas sempre o conhecí, desde que chegou à fazenda, como homem bom e verdadeiro, diferente da maior parte de seus companheiros. Foi isso que me fez seu amigo.

— Obrigado, rapaz! disse o colosso enternecido.

— E é como seu amigo que vou falar-lhe. Ontem à tarde, quando o capitão-mór chegava à Oiticica, encontrou uma grande queimada no mato do caminho.

Arnaldo fitou o olhar severo no semblante do colosso:

— O fogo, foi você quem o deitou, Aleixo Vargas, por detrás da cabana do Jó, junto ao rasto do velho que vai ser acusado por essa maldade.

— Fui eu mesmo! respondeu Moirão erguendo-se.

— O capitão-mór e a família podiam estar agora reduzidos a cinzas.

— Se não fosse o danado do vento que empurrou o fogo para a serra e não me deixou cercá-los, êles haviam de ficar bem torradinhos. Então o velho tarugo que tem três dedos de banha!... Que bom torresmo não daria!...

O Moirão soltando essa pilhéria esparramou a cara em um riso alvar.

— Não lhe pergunto, Aleixo Vargas, a razão que, do homem bom que você era, fez ontem um malvado. Em tempo dará suas contas a Deus. Mas aviso-lhe, eu Arnaldo, o sertanejo, que, se descobrir mais seu rasto a uma légua em roda da Oiticica, vou por êle até onde o encontrar. E nessa hora pode encomendar sua alma.

— Como se entende isto? disse o Moirão fustigado pela ameaça.

— Qualquer outro que tivesse praticado sua façanha já não estaria aquí, porém amarrado por minha mão na polé da fazenda e entregue à justiça do capitão-mór. Um amigo é diferente: não o trairei jamais denunciando-o, e ainda menos abandonando-o ao poder de estranhos. Se êle ofender-me, decidiremos essa questão, entre nós, lealmente.

Aleixo quis falar. Atalhou-o o sertanejo com o gesto vivo:

— Ouça-me. Você é um homem de fôrça e um homem de vontade, Aleixo Vargas. Antes de lhe dar êste aviso, quis mostrar-lhe que tinha poder de cumprir minha palavra, porque de dois homens que se estimam e se acham em luta convencidos ambos que têm razão, o mais fraco deve ceder ao mais forte.

— Visto isto tem-se você na conta de mais forte? perguntou Aleixo.

— Não sei o que chama fôrça, Aleixo; para mim fôrça é poder. Mais volumoso do que você é um touro, que o vaqueiro derruba com dois dedos.

— Que venha para cá êsse tal vaqueiro duma figa! exclamou Aleixo abespinhando-se.

Arnaldo deixou passar a refega; e continuou com a voz breve, imperativa, mas calma:

— Se você fosse o mais forte, eu não empregaria a astúcia, como faria contra um estranho ou um inimigo. Embora me custasse, respeitaria sua vontade desde que não podia vencê-lo de frente. O mais forte, porém, sou eu; e proíbo-lhe que de agora em diante se aproxime da Oiticica na distância de uma légua.

O sertanejo erguera a fronte com um assomo de indômita altivez. Nesse momento iluminava-lhe a nobre fisionomia um reflexo dessa majestade que avassala o deserto, e que fulgurava nos olhos do cavaleiro árabe e do guerreiro tupí.

Moirão calou-se um tanto enquanto ruminava as idéias.

— Lá vai, rapaz; escute bem. Que você tem partes com o diabo e ligou-me, é coisa que está se vendo; nem lhe vale nada esconder o pé de cabra aí nessa bota esquerda.

Arnaldo sorriu-se da superstição do companheiro:

— Como é que um enguiço de gente podia derrubar um homem desta marca, se não tivesse o diabo no couro? Isto com certeza. Mas hei de arranjar por esta redondeza um bom amuleto que tenha a virtude de fazer espirrar o demo do corpo de qualquer criatura, por mais que êle se lhe meta nas tripas. Depois do estouro, então veremos quem é o dunga.

— Eu também tenho o meu! disse Arnaldo a sorrir, mostrando o relicário que trazia ao pescoço.

— Ah! é aí que está a mandinga. Pois eu hei de tirar-lhe o feitiço.

— Que mais? perguntou motejando o sertanejo.

— Agora quanto à camaradagem, isso é caso diverso. Se você carece do braço de um homem ou mesmo da vida para coisa de seu serviço, nem precisava destas partes: não lhe dava senão o que já lhe pertence. Mas o que você pede, Arnaldo, não posso fazer.

O Moirão carregou a manopla ao peito que arfou como o desabe duma montanha e arrancou estas palavras com um surdo estertor, segurando o lóbulo da orelha direita.

— Estou deshonrado. Jurei por esta orelha que, se não a vingasse antes de um mês, havia de cortá-la para que não vejam nela minha vergonha. Ah! você não sabe, Arnaldo.

— Sei! disse o sertanejo pousando a mão no ombro do companheiro com um gesto severo e triste.

— Quem lhe contou?

— Ninguém. Eu vi.

O Moirão escancarou os olhos espantado e benzeu-se outra vez. Não era êle dos mais supersticiosos, porém os modos estranhos do sertanejo naquela manhã despertavam em seu espírito as abusões da época.