O Sertanejo/I/XIV

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O Sertanejo (Primeira Parte, Capítulo XIV: Desobediência)
por José de Alencar
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O capitão-mór encaminhou-se para a casa. Ao deitar o pé no primeiro degrau do pórtico, voltou-se e gritou ao sertanejo que já descia a encosta:

— Torne cá, Arnaldo.

O mancebo acercou-se outra vez do terreiro.

— Diga-me onde anda o velho Jó, que deitou fogo no mato da fazenda, na tarde de nossa chegada.

Arnaldo teve um sobressalto. A tremenda colisão que êle evitara poucos momentos antes apresentava-se sob outra face.

— Asseguro ao senhor capitão-mór que não foi o velho Jó quem deitou fogo ao mato.

— Sabemos do contrário.

— Juro se for preciso.

— Não basta um juramento suspeito, pois o velho é seu camarada; são precisas provas que destruam a acusação.

— Quem o acusa? Eu respondo por êle; o sr. capitão-mór não confia em minha palavra? disse o mancebo ressentido.

— Sabemos que Arnaldo é pessoa de bem e de verdade; e prestamos a maior fé ao seu depoimento. Mas todas a svozes se unem para lançar ao velho Jó a culpa do fogo; e nós não podemos por uma simples asseveração desprezar tantos testemunhos e dispensar a devassa de um caso de aleivosia que por sua gravidade demanda punição exemplar, a fim de que se não repita, e ponha em risco as vidas tão preciosas de nossa espôsa e filha. Sem falar do desprêzo das ordens terminantes que temos dado.

— Aleivosia houve, sr. capitáo-mór, porém não foi Jó quem a cometeu, nem teve parte ou ciência dela.

— Que assim fosse... Êle que se apresente e confie de nossa justiça, que não lhe faltará, como jamais faltou aos que a ela recorreram.

Calou-se Arnaldo. Tinha fé na retidão do capitão-mór; mas também conhecia seus rigores e escrúpulos. Que provas podia exibir contra a suspeita geral corroborada pelo testemunho de todos os embusteiros, de quem era o velho malquisto?

Êle sabia a verdade; mas como comunicá-la a outrem, quando não tinha dela mais documento do que um rasto, àquela hora já apagado? Demais, para desviar de Jó a imputação, era necessário lançá-la a Aleixo Vargas, o autor da maldade.

Campelo observava a perplexidade do sertanejo e cravando nele os olhos interrogou:

— Arnaldo sabe onde está o velho Jó?

— Sei, sr. capitão-mór, respondeu o mancebo com a voz firme e sustendo francamente o olhar do velho.

— Vai dizer-nos aonde; ou vai trazê-lo à nossa presença para evitar aparato de prisão e suspeita de fuga.

— Nem uma nem outra coisa posso eu, meu senhor.

— Por que não pode?

— Não sou denunciante, nem esbirro.

— Mas é um rapaz estonteado. Manda-lhe o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo...

Arnaldo interrompeu-o.

— Por Deus e por sua filha, a quem o senhor mais quer neste mundo, peço-lhe que me ouça primeiro, sr. capitão-mór.

Campelo reteve-se e disse:

— Fale, que ouviremos.

— Minha vida lhe pertence, sr. capitão-mór, já lho disse. Se lhe apraz, pode tirar-ma neste momento, que não levantarei a mão para defendê-la, nem a voz para queixar-me. Essa ordem, porém, que vossa senhoria quer dar-me, se meu pai ressuscitasse para mandar-me cumprí-la, eu lhe diria: não! Rogo-lhe, pois, pelo que tem de mais caro, que não exija de mim semelhante sacrifício, para não me colocar na dura necessidade de o recusar.

— Atreve-se a desobedecer-nos? disse Campelo, contendo a borrasca prestes a desabar.

— Se vossa senhoria obrigar-me.

— Pois manda-lhe o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo que vá imediatamente buscar o velho Jó e trazê-lo aquí à nossa presença.

O velho proferiu estas palavras com a solenidade de que êle costumava revestir-se nas ocasiões graves, e com o olhar que fazia tremer a vista aos mais valentes.

Arnaldo, em cujo semblante perpassou uma sombra de melancolia, levantou a cabeça e cruzou o olhar sereno com o irado lampejo do velho:

— Ao sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, digo-lhe eu, Arnaldo Louredo, que não!

O fazendeiro estendeu a mão para travar do braço do mancebo; porém êste retraiu-se de um salto e colocou-se em distância.

— Como amigo, podia fazer de mim o que bem quisesse. À força, não!

Foi então que a ira terrível do velho fez explosão, estalando como a cratera de um rochedo vulcânico ao arremessar a lava.

— Agrela!

Êste brado que êle repetiu três vezes uma sôbre outra abalou os ares, estremecendo a casa e reboando pelos ecos da montanha.

O ajudante, que já vinha aproximando-se, acudiu e o terreiro encheu-se de homens d’armas, trabalhadores e escravos, que haviam corrido ao brado do fazendeiro. Todos a oiticica.

— Agarre-me êste atrevido! gritou Campelo ao Agrela que saía a seu encontro. Que é de?

Ao voltar-se o capitão-mór não vira mais Arnaldo e debalde buscou-o com a vista.

— Eu o vi, acudiu Agrela, perto dêste banco.

— Onde mete-se então?

— Daquí não saíu, que também nós o enxergámos alí, e ninguém o viu passar, observou Manuel Abreu.

— Procurem-no! bradou novamente Campelo, em um segundo acesso de cólera.

Arnaldo tinha-se efetivamente sumido, e de uma maneira incompreensível. Visto por todos que haviam primeiro acorrido e que asseguravam ainda tê-lo encontrado no terreiro, desaparecera de repente como uma sombra que se houvesse dissipado.

Entre os que se cansavam na pesquisa estava o João Coité que disse com um ar triunfante:

— Não querem acabar de convencer-se que o capeta do rapaz é feiticeiro!

Já a êsse tempo haviam saído ao terreiro D. Genoveva e a filha, inquietas pela irritação do fazendeiro, cuja causa vieram a saber alí, e muito as penalizou, principalmente pela razão da Justa.

Nenhuma delas, porém, se animava naquele momento a falar ao capitão-mór que passeava de um para outro lado, pensando no desaparecimento de Arnaldo.

Veio Agrela comunicar a inutilidade da pesquisa.

— Êle não está aquí e também não saíu, porque além de não o ter ninguém visto fugir, não há rasto nem vestígio de sua passagem.

O terceiro acesso e ira foi ainda mais terrível que os outros:

— Pois vão desencová-lo ainda que seja no inferno e tragam-no vivo ou morto. O capitão-mór Gonçalo Pires Campelo não seja dono da Oiticica, nem pise mais a soleira de sua porta, se...

Não acabou o velho de proferir o formidável juramento, que fez tremer quantos o escutavam. D. Flor alçando-se para cingir o pescoço do pai, com a mão mimosa fechou-lhe a bôca murmurando-lhe ao ouvido:

— Por sua filha, que bebeu o mesmo leite que êle, não jure, meu pai.

O velho quedou-se um instante, ao cabo do qual travando a mão de D. Flor caminhou com ela para a casa. Chegado a um aposento interior onde ninguém o podia ver, desabafou sua ternura pousando-lhe na face um beijo. Depois vieram ao encontro de D. Genoveva, que os chamava para o almôço.

Não tardou que aparecesse a Justa, aflita com o que tinha acontecido e ainda mais com as consequências que daí podiam resultar. Faltando-lhe o ânimo para aparecer naquela ocasião ao capitão-mór, esperou que saíssem da mesa.

— Que foi o que aconteceu, meu Jesús de minha alma? disse a sertaneja, correndo para D. Flor. Não foi senão castigo, minha filha.

— Castigo de que, mamãe Justa?

— Do pecado da soberba em que ei caí esta manhã enchendo-me daquele filho e da proteção de Nossa Senhora da Penha de França. Nunca a gente se deve gabar do favor de Deus e dos Santos; mas deve-se fazer ainda mais humilde para merecer a sua graça. Foi o que me ensinou o sr. padre Teles e eu não fiz caso, para agora ser bem castigada.

— Quem pecou por soberba não foi você, Justa, mas seu filho que chegou a desobedecer ao sr. Campelo, coisa que até hoje nunca se tinha visto nesta fazenda, disse D. Genoveva.

— Como isto foi, minha Mãe Santíssima, é que eu ainda não sei! Êle que adora o sr. capitão-mór, e daria a vida para serví-lo, como é que havia de faltar-lhe com o respeito? Só se foi alguma tentação do Inimigo!

— Ou estouvamento de rapaz, que é o mais certp, tornou D. Genoveva.

— Arnaldo sempre foi de gênio arrebatado, disse D. Flor; mas são uns ímpetos que passam logo, porque êle tem bom coração.

— E agora, senhora dona, o que vai ser de meu filho, se não me valer com sua intercessão e mais a de meu querubim.

— O sr. Campelo, você bem sabe, Justa, quando diz uma coisa há de se fazer por fôrça: ninguém o arreda dalí. O melhor é você ir ter com seu filho e trazê-lo à presença do meu marido para pedir perdão da desobediência e cumprir com o que êle mandar. Assim conte que não lhe acontece nada, porque êle era muito amigo do defunto Louredo e também de seu pai.

— Pois eu vou fazer o que me diz a senhora dona. Agora onde o acharei, a êsse filho de meus pecados?

D. Flor sorriu-se.

— Mande mamãe bebé procurá-lo, que ela dá com êle.

— É mesmo!

Foi-se a Justa. D. Genoveva tornou às lidas da casa, que depois de tão longa ausência reclamava mais que nunca o seu govêrno, para voltar ao arranjo e ordem em que ela costumava trazê-la.

Flor tinha destinado essa manhã para abrir seus baús e tirar os enfeites e galantarias de que a tinham acumulado, durante a estada no Recife, a ternura de sua mãe e a generosidade do pai.

Para ajudá-la nessa tarefa e gozar do prazer de admirar aquelas bonitas coisas, chamou Alina; e ambas dirigiram-se à direita do edifício, onde ficavam seus aposentos.

Havia de ser então mais de nove horas da manhã. O sol, ainda ardentíssimo a-pesar-dos anúncios do inverno, dardejava no céu do mais puro azul, em cuja imensidade não se descobria nem um esgarço de nuvem ou tênue vapor. Majestosa serenidade do clima tropical, em que aliás se ostenta a pujança dessa natureza em repouso, e se pressente a violência de suas comoções, quando percutida pela tempestade.

Já a alegria e animação que sempre traz a manhã nessa estação ardente, ia-se dissipando; e começava a calma da soalheira, que infunde no sertão indefinível melancolia.