O Sertanejo/I/XV

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O Sertanejo (Primeira Parte, Capítulo XV: A cavalhada)
por José de Alencar
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O camarim ricamente alcatifado à moda do tempo era esclarecido por uma janela que abria para o terreiro, e da qual se descortinava ao longe a mata a cingir as faldas da serra.

As duas moças, reunindo as fôrças e galhofando da própria fraqueza, tinham conseguido, depois de muitas risadas, arrastar para o meio da casa um baú da Índia, coberto de marroquim amarelo e cravejado de tachas de prata.

Aberto o cadeado e virada a tampa, D. Flor sentou-se à frente em um estradinho baixo forrado de veludo, e Alina ajoelhou-se ao lado com os olhos cheios de prazer e curiosidade.

DA mesma idade que a filha do capitão-mór, e também formosa, tinha essa moça o tipo inteiramente diverso. Era loura, de olhos azues, e corada como uma filha das névoas boreais.

Foi ela talvez um dos primeiros frutos dessa anomalia climatológica do sertão de Quixeramobim onde, sob as mesmas condições atmosféricas, se observa com frequência e especialmente nas moças, aquela notável aberração do tipo cearense, em tudo mais conforme à influência tropical.

Alina era filha de um parente remoto de D. Genoveva. Ficando órfã em tenra idade, o capitão-mór, a pedido da mulher, a tinha recolhido com a mãe viúva, prometendo educá-la e arranjá-la.

A primeira parte dessa promessa o fazendeiro já a tinha cumprido, repartindo com a órfã a mesma educação que dera à sua filha querida. Quanto ao resto havia quem afirmasse que êle destinava Alina para o Arnaldo, e só esperava que a moça comletasse os dezoito anos.

D. Flor tirou de dentro do baú galantarias de toda a sorte, das mais finas e custosas que então se vendiam nas lojas e tendas do Recife, onde ainda se mantinham os hábitos de luxo oriental com que as colônias do Brasil ofuscavam a metrópole.

Alina soltando gritozinhos de prazer, não achava expressões para manifestar sua admiração; com os olhos e a alma cativos do objeto que D. Flor lhe havia passado, deixava-se ficar em êxtase, até que outra louçainha a vinha disputar por sua vez.

Já a tampa do baú estava cheia de estofos que Alina aí fôra arrumando, depois de os admirar, quando D. Flor, encontrando uma comprida caixa coberta de primavera e que procurava, ergueu-se com ela.

— E êste vestido, Alina? Quero saber o seu gôsto.

D. Flor tirara de dentro da caixa uma peça de escarlatim, e desdobrando o lindo estôfo de sêda arrugou-o com a mãozinha faceira, e deixou-o cair da cintura como o fôlho de uma saia.

— Que maravilha, Flor! exclamou a órfã cruzando as mãos.

— Quanto mais quando estiver no corpinho gentil de certa pessoa que eu conheço!

— Não é seu? perguntou Alina pesarosa.

— Em mim não ficaria tão bem como na dona. Quer vewr?

D. Flor levou Alina surpresa diante do tremó e aí envolveu-a nas dobras do estôfo carmesim.

— É para mim, Flor?

— E para quem mais podia ser, menina? Cuidou então que todo êste tempo, no meio de tantas festas, não me tinha lembrado de si, ingrata?

— O bem que você me quer, Flor, eu sei; mas eu é que não mereço estas lindezas.

— Merece meu coração que é maior preciosidade do que todas as galas do mundo, respondeu D. Flor sorrindo-se.

As duas amigas e companheiras de infância abraçaram-se com efusão e encheram-se mutuamente de carícias. Quando acabaram de desafogar sua ternura, a filha do fazendeiro tornou ao baú, deixando a outra ainda em contemplação diante do estôfo de sêda desdobrado sôbre o tremó.

Não era admiração unicamente o que sentia Alina: era quase adoração, inspirada pela linda tela, em cujo brilhante matiz revia porventura naquele instante o resplendor dos sonhos de sua imaginação.

— Está vendo êste listão, Alina? disse D. Flor, voltando-se para mostrar o objeto.

— Como é bonito!

— Fica-me bem?

— Fica uma jóia. Com ela você parece uma princesa encantada, Flor.

Alina tinha razão. A faixa de chamalote azul que a moça acabava de passar a tiracolo, prendendo-a ao ombro direito com o broche de ouro, dava ao seu talhe airoso um porte regíneo.

— Já leu? perguntou D. Flor mostrando com a ponta do dedo as letras bordadas na fita.

— À mais formosa, disse Alina soletrando.

Êsse era efetivamente o dístico lavrado a fio de ouro em uma e outra banda da faixa de chamalote.

— Foi uma sorte da cavalhada, disse a moça.

— Conte, Flor.

As duas meninas acomodaram-se nos poiais da janela.

— De todas as festas que vi no Recife, as mais luzidas foram as que se deram em regozijo pela chegada do novo governador D. Antônio de Menezes, com de de Vila Flor.

— Você viu o conde, Flor? Que homem é? perguntou a linda sertaneja, para quem ver um conde era quase ver o rei.

— Um fidalgo de nobre parecer, como meu pai. Fizeram-se muitos folguedos e aparatos em honra sua; nenhum, porém, como a cavalhada. Foi mesmo no largo do Palácio. Armaram uns palanques muitos vistosos com seus toldos de sêdas amarelas e carmesins, em redor da teia guarnecida de arcos e galhardetes de todas as côres.

— Como havia de estar chibante!

— Muitas donas, já se sabe, e as filhas todas com suas galas mais ricas...

— Mas a formosura era você, Flor, que enfeitiçou com êsses olhos todos os cavalheiros, e até príncipes que lá houvesse.

— Deixe-me contar, menina, observou D. Flor com um gracioso amuo: senão acabou-se a história.

— Estou ouvindo, princesa.

— Já os palanques estavam apinhados de damas e cavalheiros, quando chegou o conde governador, que deu o sinal para começaram os jogos. Então entraram, cada uma de seu lado, duas quadrilhas adereçadas com roupas muito lindas, uma de verde e amarelo, que era a dos pernambucanos, e outra de encarnado e branco, que era a dos lusitanos. Correram primeiro as lanças; depois jogaram as canas e alcanzias, fazendo várias sortres como costumam.

— Assim não vale, Flor; deve contar tudo como foi.

— Não se lembra você, Alina, das cavalhadas que se deram, fazem dois anos, no Icó, por ocasião da festa? Pois foi a mesma coisa, só com a diferença que lá no Recife eram mais ricas, e os cavalheiros tinham outro garbo e gentileza.

— Mas qual das duas quadrilhas ganhou? Você não disse.

— A pernambucana, menina; não tinha que ver. Mas a outra disputou-lhe a palma com muita galhardia, que a todos mereceu grandes louvores. Veio depois o jôgo das argolinhas e então os cavalheiros reunidos em uma só banda correram três vezes. Eu recebí um anel que me ofertou na ponta de sua lança um dos vencedores...

— Gentil cavalheiro? perguntou Alina vivamente.

— Dos mais guapos que lá se apresentaram. Meu pai veio a saber que era o capitão Marcos Fragoso, filho do coronel Fragoso, que foi nosso vizinho.

— O dono da fazenda do Bargado. Mas o filho não mora aí.

— Não; tem outras fazendas para as bandas do Inhamuns; mas parece que vive mais no Recife.

— E a argola que êle ofereceu-lhe foi esta, Flor? perguntou Alina, mostrando um aro de ouro preso ao atacador de listão.

— Esta? respondeu a moça faceiramente. Esta é outra história. Foi um caso que a todos admirou.

— Na cavalhada mesmo?

— Sim; foi a última sorte. Num mastro que estava erguido para êsse fim no meio da praça, suspenderam de um fio de sêda êste argolão de ouro, com as fitas a voar como se fossem galhardetes. Era o prêmio mais invejado por todos os cavalheiros para terem o orgulho de o ofertar à dama de seus pensamentos e porisso também a proeza demandava maior esfôrço e destreza, pois além de ficar o argolão muito alto, com o tremular das fitas sopradas pelo vento estava em constante agitação.

— E eu já sei quem ganhou! disse Alina.

— Sabe você mais do que eu, menina.

— Como então?

— Escute. Os cavalheiros armaram-se de umas lanças finas, muito compridas para poderem chegar ao tope do mastro, e ainda assim era preciso que se erguessem sôbre os estribos para alcançar o alvo. Da primeira investida nenhum tocou na argola, nem da segunda: e de ambas ela, muitos dos campeões no ímpeto de mostrar sua proeza, levantaram-se tanto dos arções, que rolaram em terra.

— Coitados! disse Alina a rir.

— Na terceira investida poucos restavam; e dentre êstes, o mais esforçado e brioso era o capitão Marcos Fragoso...

— Eu já esperava!

— Por que menina?

— Pois não foi êle que primeiro lhe ofereceu a argolinha?

— Que tem isso?

— Tem que o cavalheiro de D. Flor por fôrça que havia de ser o mais brioso e esforçado de quantos lá estavam.

— E se fossem dois os meus cavalheiros?

— Devéras?...

— Foi o que aconteceu. O Marcos Fragoso que ia na frente, com um bote certeiro enfiou o argolão na ponta da lança.

— Bravo!

— Mas ao mesmo tempo outro cavalheiro que vinha contra êle à disparada, também com a lança em riste, enfiava o argolão pelo outro lado, de modo que os dois ferros ficaram atravessados em cruz.

— E êsse cavalheiro, quem era?

— Não se soube. Via-se que não era dos campeões, pois estava com trajo de cidade; e além disso tinha a cara amarrada com um lenço que lha cobria toda, deixando apenas a descoberto os olhos, por baixo da aba do chapéu.

— Que bioco!

— Houve quem visse o embuçado sair do meio do povo, pular na teia, apanhar a lança no chão, saltar na sela de um cavalo desmontado que passava, e correr sôbre o mastro, onde chegou justo no momento em que o Fragoso ia tirar o argolão, e para lho disputar.

— E o que sucedeu?

— Os dois campeões forcejaram cada um de seu lado para arrancar o argolão, mas não o conseguiram. Foi então que o desconhecido correu sôbre o seu contrário e arrebatou-lhe a lança da mão. Todos aplaudiram a façanha, menos o Fragoso que ficou passado no meio da praça, enquanto o vencedor, chegando ao palanque onde eu estava apresentou-me o argolão na ponta das duas lanças, repetindo — «À mais formosa».

— E você, Flor, o que fez?

— Eu, menina, não sabia o que fizesse de contente e ao mesmo tempo acanhada que fiquei, vendo todos os olhos fitos em mim. Foi minha tia D. Catarina, que recebendo o listão o passou pelo meu ombro, com o que redobraram os aplausos à proeza do desconhecido. E acabou-se a história; que eu não vi mais nada, nem dei por mim dêsse momento em diante até que tornámos à casa.

— E o desconhecido?

— Ouví depois que desaparecera assim como viera, de repente, antes que o pudessem descobrir; e não se soube mais dele.

— Mas você não desconfiou quem seria? Pois pelo modo parece que era pessoa conhecida.

— Quem podia ser, menina? E como havia eu de suspeitar?

— Pela voz. Êle não lhe falou?

— Três palavras.

— Pelo jeito do corpo, e modo por que montava a cavalo. Não reparou?

— Naquele instante, entretida como estava com a festa, não me lembrava de mais nada.

Alina calou-se um instante sob a preocupação da idéia que lhe acudira ao espírito, e depois inclinou-se para falar à companheira com a voz submissa e tímida expressão.

— Não se parecia com Arnaldo?

— Quem, Alina? O embuçado?

Alina confirmou com um gesto.

— Que lembrança! tornou D. Flor com surpresa.

— É porque você não sabe que Arnaldo desapareceu da fazenda no mesmo dia em que o senhor capitão-mór partiu.

— Sei, que já me contou mamãe Justa. Arnaldo foi à Serra Grande atrás de uns barbatões.

— Isto é o que êle diz.

— Mas, menina, que razão tinha êle para esconder-se?

— Não sei, Flor, respondeu Alina esquivamente.

A filha do capitão-mór não insistiu, e divagando os olhos pela floresta, ficou pensativa, enquanto Alina inclinando a fronte absorvia-se também de seu lado em íntimas reflexões.