O Sertanejo/I/XVIII

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O Sertanejo (Primeira Parte, Capítulo XVIII: Desengano)
por José de Alencar
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Arnaldo traspassou com o olhar a espessura da folhagem que lhe ocultava a formosura de D. Flor, e instintivamente retraiu-se com o enleio em que sempre o lançava a presença da donzela.

Justa o deteve, segurando-lhe o braço e apontando para dentro do mato.

— Ela falou ao pai. O sr. capitão-mór, tu bem sabes, não tem ânimo de recusar nada àquela filha, que é a menina de seus olhos. Então prometeu que, se hoje mesmo voltares arrependido à sua presença para suplicar o perdão de tua falta, êle esquecerá tudo.

Arnaldo talhou a mãe com um gesto de enérgica repulsa:

— Não cometí nenhum crime para carecer de perdão, mãe.

Justa denunciou no semblante a estranheza que lhe causavam as palavras do filho:

— Pois não desobedeceste ao sr. capitão-mór, Arnaldo?

— Para desobedecer-lhe era preciso que êle tivesse o poder de ordenar-me que fosse um vil; mas êsse poder, êle não o possue, nem alguém neste mundo. O sr. capitão-mór exigiu de mim que lhe entregasse Jó, e eu recusei.

— Mas, filho, o sr. capitão-mór não é o dono da Oiticica? Não é êle quem manda em todo êste sertão? Abaixo de El-rei que está lá na sua côrte, todos devemos serví-lo e obedecer-lhe.

— Pergunte aos pássaros que andam nos ares, e às feras que vivem nas matas, se conhecem algum senhor além de Deus? Eu sou como êles, mãe.

— Tu és meu filho, Arnaldo. Lembra-te do que foi para teu pai esta casa onde nasceste, e do que ainda é hoje para tua mãe.

— Os benefícios, eu os pagarei sendo preciso com a minha vida; mas essa cida que me deu, mãe, se eu a vivesse sem honra, meu pai lá do céu me retiraria sua bênção.

— Que vai ser de mim, Senhor Deus? exclamou a sertaneja na maior aflição.

— Sossegue, que nada há de acontecer. Tenho o meu bentinho, continuou Arnaldo a sorrir e tocando no seu relicário: não há mal que me entre, nem feitiço que me enguice. Adeus! De longe mesmo guardarei àqueles a quem eu quero bem, ainda que êles me queiram mal.

— Ouve, Arnaldo! disse a mãe buscando reter o filho. Eu te peço!

— Quando precisar de mim, mande sua comadre chamar-me.

— Não te vás, filho, que te perdes!

Justa enlaçou o colo do filho com os braços e exclamou voltando-se para o mato.

— Flor, êle não me quer ouvir!

As fôlhas agitaram-se, e instantes depois surgiu da verde espessura, como das cortinas de um dossel, o vulvo gracioso de D. Flor, com as faces tocadas de leves rubores.

— Êle não quer ir, minha filha. Nem ao menos consente que eu, sua mãe, lhe peça e rogue. Fecha-me a bôca, e logo com o nome do pai. Fale-lhe, Flor! Talvez a você, que sabe dizer as coisas, êle ouça! Eu sou uma pobre sertaneja e não sei senão querer bem a você e a êste filho de minha alma.

A donzela aproximou-se do colaço, que a esperava atônito e pálido. Pousando-lhe a mão mimosa no ombro disse, voltando-se para a Justa e dirigindo sua resposta a ambos, mãe e filho.

— Êle vai!

O suave contacto dêsses dedos melindrosos bastou para abater a energia do ousado sertanejo. Alí estava êle agora tímido e submisso, não se atrevendo a balbuciar uma palavra, nem sequer a erguer a vista ao encontro dos olhos altivos que o dominavam.

D. Flor sorriu-se no meigo desvanecimento do poder que ela, frágil menina, exercia sôbre essa natureza pujante; mas o assomo de faceirice passou rápido e não perturbou o nobre impulso de seu coração.

— Vim buscá-lo, Arnaldo, para levá-lo à casa, disse ela repassando a voz maviosa de um mago encanto. Não me acompanha? Ainda não lhe dei a lembrança que trouxe do Recife.

Arnaldo arrancou-se com esfôrço ao lugar onde estava, e murmurou promovendo o passo:

— Vamos!

Justa bateu palmas de contente.

— Eu logo vi que só você, Flor, era capaz de fazer o milagre!

— Pois eu sou a fada encantada! disse a moça, fazendo com êste gracejo uma alusão aos brincos da infância.

Flor dirigiu-se à casa acompanhada pelos dois. Pouco adiante encontrou Alina com as escravas, que a ficaram esperando, enquanto ela acudia ao chamado da ama.

O olhar doce e melancólico de Alina fitou-se no semblante de Arnaldo, que nem pareceu dar por sua presença. O sertanejo ia completamente alheio de si e preso do condão que o arrastava mau grado seu. Não tinha conciência do que fazia, nem já se lembrava do sacrifício que exigiam de seus brios.

Irresistível devia ser a paixão que submetia assim um caráter indomável e altivo ao ponto de rojá-lo na humilhação, ao simples aceno de uma mulher!

Ao sair da mata, Flor avistou ao longe, no terreiro, o capitão-mór, sentado à sombra da oiticica, ao lado de D. Genoveva. Voltando-se para Arnaldo, que a seguia maquinalmente, mostrou-lhe o vulto do fazendeiro.

— Lá está meu pai, que nos espera.

— Chegando diante dele, filho, ajoelha e pede perdão.

— De joelhos?... exclamou com voz surda e profunda o sertanejo, cuja alma entorpecia afinal sublevava-se.

Flor compreendeu a emoção de Arnaldo e quis aplacar-lhe a revolta dos brios.

— Eu ajoelharei também, disse ela com adorável meiguice.

Estas palavras, porém, bem longe de serenarem o ânimo do mancebo, ainda mais o alvoroçaram, confirmando a suspeita de que só com êste ato de humildade obteria entrar de novo nas boas graças do capitão-mór.

— Nunca! bradou êle, retrocedendo.

— Arnaldo! disse D. Flor.

— Eu lhe peço, Flor, não exija de mim semelhante vergonha. Não posso, é mais forte do que a minha vontade. Se é preciso que eu ajoelhe, aquí estou a seus pés, mas aos pés de um homem, não. Morto que eu estivesse, as minhas curvas não se dobrariam.

— Não é um homem, Arnaldo, é meu pai, respondeu a donzela, erguendo a fronte com altiva inflexão.

— É seu pai, mas não é o meu, embora eu o respeite mais do que um filho.

— Venha, Arnaldo, insistiu a donzela fitando o olhar imperioso.

A alma do mancebo fascinada por êste olhar debatia-se numa cruel perplexidade. Flor travou-lhe o pulso e levou-o sem resistência.

Quando, porém, a donzela subindo a encosta, assomou no terreiro, e que o vulto do capitão-mór destacou-se em frente, revestido de sua habitual solenidade, ouviu-se um grito sinistro como o que solta o gavião ao desabar da procela.

Arnaldo, no momento em que Flor largava-lhe o pulso para ir ao encontro do pai, de um salto arrojara-se para trás e desapareceu na mata próxima, antes que as pessoas presentes a esta cena voltassem a si da surpresa.

O capitão-mór, que se preparava para receber o rapaz e conceder-lhe finalmente o perdão já obtido pela ternura da filha, ergueu-se arrebatado pela cólera. Ao seu brado formidável acudiu Agrela com a escolta, e desta vez dirigidos pelo capitão-mór em pessoa, deram nova batida na mata à busca de Arnaldo.

Justa acreditou que desta vez o filho estava irremediavelmente perdido, e a própria D. Flor, a-pesar-do império que tinha sôbre a vontade do pai, não se julgava com fôrças para obter novamente o perdão de seu colaço.

Entretanto Arnaldo já ia longe. Muito antes que a gente da fazenda penetrasse na floresta, alcançara o lugar onde na véspera o tinha deixado Moirão, quando tão bruscamente dele se despedira.

Imitando o canto da seriema, o que era um sinal dado a seu cavalo para que o seguisse, o sertanejo aproveitando a frouxa luz da tarde foi no rasto do Aleixo, que aliás não tomara a menor cautela para disfarçá-lo.

Ao cabo de um estirão de caminho parou e observando pelo céu a direção do rasto, disse consigo:

— Não há que ver, está no Bargado. Eu o sabia. Corisco!

O inteligente animal acudiu ao chamado do senhor, que o montou mesmo em pêlo, e instantes depois corria pelo cerrado, como se trilhasse uma vargem aberta e descampada.

É um dos traços admiráveis da vida do sertanejo, essa corrida veloz através das brenhas; e ainda mais quando é o vaqueiro a campear uma rês bravia. Nada o retém; onde passou o mocambeiro lá vai-lhe no encalço o cavalo e com êle o homem que parece incorporado ao animal, como um centauro.

A casa da fazenda do Bargado ficava no meio duma chapada. De muito longe Arnaldo avistou os fogos que brilhavam no seio das trevas, pois já era noite fechada.

Chegando a um lanço de clavina, apeou-se o mancebo e deu senha ao cavalo para avançar no mesmo rumo. O Corisco, prático nessas emprêsas, agachado por entre o arvoredo, aproximou-se até dar rebate aos cães da fazenda, que partiram em matilha a acuá-lo.

No meio dos latidos, e dos gritos do vaqueiro a estumar os cães, ouviu-se uma voz cheia que dizia:

— José Bernardo, amigo, não maltrate a menina!

— Com certeza é a suçuarana, observou outra fala.

— Se fôssemos conversar com a rapariga, Topam?

— Depois da ceia, Aleixo Vargas!

Antes de ouvir o nome do Moirão, já Arnaldo o tinha reconhecido pela voz, o que não lhe causou surpresa, antes confirmara a sua conjetura.

Quando o Corisco recuando afastou a matilha para longe, o sertanejo que já havia tomado o lado oposto, acercou-se da casa com a cautela necessária para não ser pressentido. Era fácil emprêsa, pois o arvoredo prolongava-se até perto do terreiro.

Da sala principal, que abria para a varanda, escapava-se o rumor de falas alegres e de risos festivos, intermeados com o tinir dos pratos e o triscar dos copos.

Pela janela do oitão pôde Arnaldo observar de longe o interior.

O capitão Marcos Fragoso banqueteava-se com seus hóspedes. As viandas já em parte consumidas indicavam que a ceia estava a terminar; e efetivamente os pagens não tardaram em servir o dessert, no qual entre os figos, passas e nozes do reino trazidas do Recife com a bagagem, figuravam grandes terrinas de coalhada e os requeijões, frutos das primeiras águas.

Corria a prática viva e animada entre os quatro mancebos, que ao acompanhamento dos copos trocavam os remoques ou rebatiam-nos com a réplica pronta e chistosa. Jovens e amigos, êsses corações, que não cuidavam de refolhar-se uns para os outros, estavam revendo-se nos semblantes e gestos com a franca expansão, natural aos convivas de uma mesa lauta, reunidos em alegre companhia e excitados pelas copiosas libações de vinhos generosos.

Se Arnaldo conhecesse a cidade como conhecia o deserto e seus habitantes; se estivesse habituado a observar a fisionomia do homem com a perspicácia do olhar que penetrava a mais basta espessura e investigava o semblante, o gesto, o porte da floresta; com certeza adivinharia o que falavam entre si os quatro mancebos.

Mas, embora supeitasse do assunto do colóquio, não podia atinar com o rumo que êste levava, nem portanto saber o que devia esperar. Mortificava-o isso; pois fôra precisamente para desde logo desenganar-se que êle tentara essa emprêsa, e custava-lhe tornar sem haver alcançado seu intento.

Não podia aproximar-se mais do edifício, por causa do clarão de um fogo que estendia pelo terreiro além uma faixa de luz.

Junto dêsse fogo estavam sentados sôbre couros o vaqueiro e outra gente da fazenda, com Aleixo Vargas, todos ocupados em despachar os largos tassalhos de carne, os quais iam cortando à vontade da carcaça de uma vitela, ainda enfiada na estaca de braúna que lhe servia de enorme espêto, e estendida por cima do brasido que a estava acabando de assar.

A rês fôra morta à chegada do dono da fazenda. Uma banda, tinham-na cortado para cozinhar; a outra, aí estava de espetada. Dela haviam tirado o lombo para a ceia dos fidalgos; e do resto pretendiam os acostados dar conta naquela mesma noite, o que sem dúvida conseguiriam com a formidável colaboração de Aleixo Vargas.

Nesse momento os cães, sentindo novamente rumor no mato, investiram a latir.

— Que é lá isso? gritou o vaqueiro erguendo-se. Temos novidade?

— É a bicha que volta.

— Pois então? Não há de cear também? Deixa a outra, amigo José Bernardo.

A súcia levantara-se para seguir o vaqueiro ao outro lado, curiosa de saber o que havia. Dêsse breve instante aproveitou-se Arnaldo para atravessar o terreiro e coser-se à varanda.

Pôde então escutar o resto da conversa.

— Simule quantas razões lhe aprouver, primo Fragoso, é debalde: não me convence de que o mais chibante casquilho do Recife se lembrasse de vir a êste sertão ferrar bezerros e comer coalhada escorrida, que aliás não é mau petisco.

— Eu estou com o Ourém, disse o capitão João Correia; não lhe acho muito jeito de fazendeiro, cá ao nosso amigo.

— Bom caçador de boi, é êle, observou o Daniel Ferro. Quando está nos Inhamuns seu divertimento é atirar no gado barbatão.

— E ande lá que não há de ser má caçada.

— Excelente! afirmou Fragoso.

— Mas então, Ourém, que feitiço é êste que traz o nosso amigo encantado por estas paragens?

Marcos Fragoso preveniu a réplica:

— Já que tamanho emprenho fazem em conhecer a verdadeira tenção desta jornada, não a ocultarei por mais tempo, nem é de razão; pois a quem primeiro comunicaria resolução de tanta monta do que a amigos de minha maior estimação?

O mancebo reteve a palavra um instante, como para observar a surpresa que suas palavras iam causar nos companheiros e prosseguiu sorrindo:

— Um dêsses próximos dias far-me-eis a graça de me acompanhar à Oiticica, onde irei pedir ao capitão-mór Campelo a mão de sua filha, a formosa D. Flor.

Esta comunicação foi recebida com bravos pelos companheiros.

— À gentil noiva! exclamou Ourém enchendo os copos.

— E à ventura de tão acertado himeneu!

Foi heróico o esfôrço que fez Arnaldo para conter-se ao ouvir o nome de D. Flor de envôlta com tais efusões. Reagindo ao violento impulso que o arrojava contra aqueles homens, arrancou-se dalí, e afastou-se precipitadamente.

De longe voltou-se.

Na sala, à claridade das lâmpadas, destacava-se o vulto elegante de Marcos Fragoso que se erguera da mesa.

O sertanejo murmurou:

— Roga a Deus que te livre desta tentação.