O Sertanejo/I/XIX

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O Sertanejo (Primeira Parte, Capítulo XIX: Ao cair da tarde)
por José de Alencar
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Os borraceiros do natal tinham continuado a cair por volta da madrugada; e o sertão de Quixeramobim, o mais formoso de todo o dilatado vale da Ibipiaba, vestia-se cada manhã de novas galas ainda mais brilhantes do que as da véspera.

A terra, que adormecia com o fechar da noite, já não era a mesma que despertava ao raiar do sol. Como se a houvesse tocado o condão de uma fada, ela transformava-se por encanto: e mostrava-se tão louçã e donosa que parecia ter desabrochado naquele instante, como uma flor do seio da criação.

Aí via-se realizada a graciosa lenda árabe dos jardins encantados, surgindo dentre os ermos e sáfaros areais à invocação de um nume benéfico. A gentil feiticeira dos nossos sertões é a linfa, que, descendo do céu nos orvalhos da noite e nas chuvas copiosas do inverno, semeia os campos de todas as maravilhas da vegetação.

Era por tarde.

O capitão-mór Campelo estava, como de costume, sentado em uma cadeira de alto espaldar, forrada de couro e colocada no largo patamar, que se prolongava de um e outro lado pelo alicerce, como um passeio.

O fazendeiro, terminado o jantar que naquele tempo era ao meio-dia, fazia regularmente a sesta até passar a fôrça do sol, como ainda hoje se usa pelo sertão. Depois do que vinha sentar-se alí, no pórtico da casa, onde já se achava a sua cadeira senhorial, trazida por um pagem.

Abrigado pela sombra do edifício que ia cair sôbre o terreiro, entendia com os negócios da herdade e provia a tudo quanto dependia de suas ordens. Se era preciso, montava a-cavalo, e transportava-se ao lugar onde se fazia necessária sua presença, quaquer fosse a distância, e devesse embora voltar alta noite ou pela madrugada.

Em tudo isto, porém, não se afastava uma linha daquela gravidade metódica e pausada, que formava a compostura de sua pessoa e que êle julgava um dever imprecindível de sua importância e riqueza.

Nessa tarde logo ao sentar-se, despediu o capitão-mór o pagem para chamar a toda pressa o Inácio Góis, que servia-lhe de vaqueiro da fazenda desde a morte do Louredo, pai de Arnaldo, o qual tivera por muitos anos êsse emprêgo.

Chegou o Inácio Góis quando o fazendeiro acabava de dar ordens a Manuel Abreu, o feitor.

— Que notícias nos traz da novilha, Inácio Góis? perguntou-lhe o capitão-mór de chofre.

— Qual, sr. capitão-mór, a Bonina da senhora doninha? disse o Inácio Góis, embaraçado.

— A Bonina, sim; desde ontem que desapareceu e até agora ainda não deu conta dela. Que vaqueiro é um, Inácio Góis, que não sabe por onde lhe anda o gado?

— É uma coisa que não se explica mesmo, sr. capitão-mór. Já batí todo êste matão, e nem sinal de novilha. Nunca se viu uma coisa assim. Faz a gente imaginar!...

— Não tem que imaginar, Inácio Góis; se amanhã cedo a Bonina não estiver no curral, ficamos sabendo que nosso vaqueiro só presta para curar bicheiras.

O Inácio Góis abaixou a cabeça e retirou-se humilhado em seus brios de vaqueiro pelo remoque do fazendeiro. Outros, mais graduados e mais atrevidos do que êle, não ousavam afrontar o senho do mandão de Quixeramobim.

D. Flor tinha assomado ao lume da porta, ainda a tempo de ouvir estas palavras.

— Não te aflijas, disse o fazendeiro voltando-se para a filha; que a Bonina há de aparecer até amanhã.

— Se Arnaldo estivesse aquí, já êle a teria descoberto, replicou a menina com um ligeiro enfado.

O capitão-mór ficara impassível, como se não ouvisse as palavras da filha e entre elas o nome de Arnaldo, cuja revolta provocara por vezes nos últimos dias as explosões de sua cólera.

Um fenômeno singular se havia operado no espírito do dono da Oiticica. A mesma estranheza do fato inaudito de uma desobediência formal a suas ordens, atuando em sentido inverso, desvanecera a primeira e violenta impressão produzida pelo acidente.

Essa anomalia explica-se mui facilmente; era uma reação. Passada a comoção, o capitão-mór tornara ao seu natural, e na soberba do mando absoluto, nada mais natural do que abstrair-se da recordaão importuna, a ponto de ter por impossível o acontecimento.

Assim nos dias anteriores evitara toda a alusão ao caso inexplicável; e quando agora a filha pronunciara o nome de Arnaldo, êle já se tinha por tal modo imbuído da incredulidade, que o ouvira sem abalo.

D. Flor admirou-se dessa indiferença, a qual era para surpreender após o formidável arrebatamento que três dias antes excitara no velho a última evasão do sertanejo. O límpido olhar da donzela buscou no semblante paterno a significação daquele gesto, e não achou alí senão a calma e serena expressão da fôrça em repouso.

O capitão-mór erguera-se um instante, e observava além na várzea, que dilatava-se em volta da encosta, alguma coisa, que lhe excitara a atenção.

Desceu então a donzela ao terreiro e foi sentar-se nos bancos à sombra da oiticica, onde a acompanhou Alina, enquanto D. Genoveva tomava o seu lugar em uma cadeira rasa ao lado do marido.

O Agrela, que desde o aparecimento do fazendeiro na porta, aproximara-se como de costume para estar Às ordens, conversava com o Padre Teles, a alguma distância, recostado ao socalco do alicerce.

Assim completou-se o painel de família que ordinariamente, fazendo bom tempo e não sobrevindo incidentes, observava-se no terreiro da fazenda da Oiticica, à primeira hora da tarde, logo depois da sesta, quando o sol ainda forte não permitia o passeio aos vários pontos da herdade.

D. Flor parecia triste. A expressão já séria de seu formoso perfil estava nessa ocasião ainda mais nítida e correta. Era sempre assim. Quando a alma assumia-se em profundo recolhimento, as gentís feições, que ela animava em sua expansão, apresentavam uns tons puríssimos, como se fossem cinzeladas no mais fino jaspe.

Desde a véspera desaparecera do curral a Bonina, uma novilha de alvura deslumbrante, que entre outras o capitão-mór escolhera por sua beleza para dar à filha, e desta recebera o nome de uma flor predileta.

Êste sumiço e ainda mais a circunstância de não encontrar-se o rasto da rês, o que fazia presumir a morte da mesma, eram sem dúvida a causa da tristeza da donzela; mas essa perda não bastaria para preocupar-lhe o espírito com tanta insistência.

D. Flor tinha bom coração; e sem dúvida alguma distribuía a sua afeição com os brutinhos, seus companheiros de solidão. Como em geral todas as moças, ela gostava de cercar-se dêsses confidentes discretos e alegres sócios de travessura.

Tinha amizade ao seu cavalo; gostava de ver e afagar os bezerrinhos e novilhas seus preferidos; fazia saltar as cabrinhas e erguerem-se direitas sôbre os pés até a altura de seu rosto, para receberem uma carícia; queria bem às suas graúnas e sabiás; gostava de garrular com o seu periquito.

Mas as efusões de ternura, em que se derrama o coração afetuoso de outras moças, que fazem de um passarinho um idílio e de uma corça um romance, é o que não tinha D. Flor, não fria, mas esquiva e comedida na manifestação de seus sentimentos.

Seu pai inspirava-lhe profunda veneração, e sua mãe extremos de amor; entretanto êsse afeto sincero, capaz da maior dedicação, apenas denunciava-se adorar por êsses entes queridos.

Acaso pressentia ela que não podia dar-lhes maior júbilo e felicidade do que essa de confiar-se ao seu amor? Talvez; mas era sobretudo efeito de índole. Sua alma delicada e altiva tinha um recato natural, que a resguardava, e impedia de abrir o íntimo seio aos olhos, ainda mesmo dos que mais queria.

D. Flor afligira-se quando soube do desaparecimento da novilha; mas essa mágoa já se teria desvanecido, se não encontrasse alimento.

Quando um pesar qualquer nos aflige e, desprendendo o espírito das impressões exteriores, obriga-o ao recolho, muitas reminiscências e pensamentos sopitados na memória adormecida surgem aos olhos d’alma então voltados para o íntimo.

Assim aconteceu À donzela. O fato ainda recente da revolta de Arnaldo foi o primeiro que despertou em seu espírito e absorveu-lhe as cismas.

O sertanejo era seu colaço e camarada de meninice. Embora depois de certa época suas existências, a princípio unidas pela intimidade infantil, se tivessem apartado na adolescência, que as chamava cada uma ao seu diverso destino, todavia ela ainda conservava ao seu companheiro a amizade que lhe consagrara em criança. Demais, bastariam para incomodá-la, a aflição que essa desavença causava à Justa, sua mãe de leite, a quem ela muito queria, e a desconfiança do desgôsto que seu pai sentira com a ingratidão do filho do Louredo, criado por êle, e tão estimado sempre.

Destas mágoas recentes, o espírito da donzela remontando insensivelmente aos acontecimentos anteriores, recordou a visita de Marcos Fragoso com seus amigos à Oiticica; e daí enleou-se pelas reminiscências ainda vivas de sua viagem ao Recife e das festas que lá assistira.

Então, já desvanecida a surpresa que essas novidades deviam causar-lhe, a ela filha do sertão, acudiram-lhe à mente idéias envôltas e ignotas, que sua imaginação cândida não sabia formular, e lhas apresentava apenas em vago esbôço.

Muitas daquelas donzelas, e das mais formosas, que haviam concorrido Às festas, tinham seus cavalheiros que se nesses jogos as tomavam para rainhas de suas façanhas e gentilezas, antes e fora daí lhes rendiam o culto de seu afeto e viviam cativos de sua beleza. De algumas soubera que já eram noivas, e de outras que não tardariam a ser pedidas.

Teria ela, Flor, também algum dia o seu cavalheiro, que fizesse proezas para merecer-lhe um olhar? Possuiria o belo parecer e outras prendas do Marcos Fragoso? Ou o excederia no garbo da pessoa e gentileza das ações?

Depois imaginava que êsse cavalheiro, ainda seu desconhecido, chegava a Oiticica; ela o via falando na sala com seu pai; era elegante, vestido a primor, e de uma nobreza de gesto como só a podiam ter os reis; mas não lhe via o rosto. Então seu pai a chamava; as palavras que lhe dizia e o mais que se passava, nunca o adivinhou seu espírito que neste momento perdia-se em um tropel de confusos pensamentos, enquanto leve rubor acendia-lhe a nívea tez.

Alina também estava triste; mas as suas próprias mágoas a preocupavam menos do que a melancolia cismadora de sua companheira. A órfã, ao contrário da filha do capitão-mór, tinha uma dessas naturezas que não sabem viver em si e para si, mas carecem de transportar-se para outras, em que se difundam, e de quem recebam o estímulo que não encontram no próprio âmago.

Ao inverso das parasitas, que absorvem a seiva estranha e nutrem-se dela, estas naturezas pródigas transmitem a sua substância. São como as flores privadas de estigma, que só viçam para comunicar o seu pólen ao seio das outras, e como estas não dão fruto na própria árvore, também elas não sabem sentir senão as alegrias e as tristezas dos seres a quem amam.

Alina chegando ao terreiro ainda vira o Inácio Góis e perguntou a D. Flor:

— Que disse o vaqueiro, Flor?

— Nada, respondeu concisamente a outra.

— Então não há esperança?

D. Flor respondeu com a cabeça, fazendo gesto negativo.

— Coitada da Bonina! murmurou a órfã.

E mais pesarosa da perda da novilha do que a própria dona, levou a mão aos olhos para esmagar as lágrimas que borvulhavam; e ficou-se a olhar para a companheira, buscando adicinhar-lhe os tristes pensamentos para repassar-se deles.

Logo que as duas meninas se haviam sentado nos bancos da Oiticica, o Agrela que as vira de esguelha dirigirem-se para aquele ponto, achou jeito e tornar ambulatória a sua prática, e principiou a percorrer o terreiro ao lado do capelão.

Sua direção aparente era o muro ensosso, espécie de barbacã, levantado em volta do terreiro. Tinha êle, porém, uma linha objetiva, que seu olhar indicava a cada instante fitando-se rápido, mas veemente, no formoso semblante de Alina.

Porisso a cada volta, a linha declinava, formando um ziguezague, que não tardava cortar em uma de suas projeções a área coberta pela copa frondosa da oiticica. Padre Teles, que talvez por indícios anteriores percebera a estratégia do ajudante, prestava-se de boa vontade à manobra; mas com disfarce para não acanhar o rapaz.

Foi mais adiante a complacência do capelão, pois ao passarem junto dos bancos, deu-se por fatigado, e sentou-se indicando ao companheiro o lugar, que ficava-lhe à direita entre êle e a moça.

— Aquí, disse, travando familiarmente do Agrela pelo braço; vamos descansar um tanto.

O mancebo ao sentar-se roçou de leve e sem querer a saia de Alina que, distraída e voltada para Flor, não se apercebera da aproximação dos dois passeadores. Sentindo o frolido de suas roupas, a moça acudiu surpresa para retrair-se com um movimento mais assustado e evasivo do que exigia a circunstância.

Compreendeu Agrela a significação dessa repulsa e ergueu-se de pronto:

— Não foi minha a culpa, mas do sr. capelão; disse êle com um azedume, que debalde buscou diluir no tom galhofeiro.

— Tem lugar! murmurou Alina.

Com estas palavras a moça erguera os olhos; e fitou-os no semblante de Agrela com um gesto tão meigo e compassivo que parecia exprobrar a si mesma de o ter magoado.

— Êsse lugar é de outro, eu sabia, respondeu o mancebo com a mesma acrimônia.

Alina corou, curvando a fronte como para subtrair-se ao olhar que penetrava-lhe os seios d’alma.

Padre Teles tinha-se aproximado de D. Flor a pretêsto de a consolar da perda de sua novilha favorita, mas talvez para deixar em liberdade o ajudante de quem era camarada e cujos amores desejava favorecer.

Aproveitando o ensêjo, Agrela dirigiu ainda algumas palavras rápidas à moça.

— Essa melancolia é pela ausência dele? Não se aflija! Tenho ordem de descobrí-lo, vivo ou morto.

— Arnaldo? balbuciou Alina.

— Sim, Arnaldo. A ordem, eu a cumprirei em sua intenção. Não me agradece? concluiu o mancebo com ironia.

A moça não pôde falar, mas exprimiu seu pensamento por um gesto eloquente, cerrando ao seio as mãos enlaçadas para a prece.

Nessa ocasião voltava o padre Teles, e Agrela apartou-se com êle do grupo das duas moças.